ENGORDANDO O CÉREBRO: uma breve pesquisa

ENGORDANDO O CÉREBRO: uma breve pesquisa

Rebecca Vasconcellos Botelho de Medeiros, Rodrigo R Resende

Vol. 1, N. 3, 21 de novembro de 2013
DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2013.11.21.006

Ácidos graxos são uma classe de lipídios, com 4 a 28 átomos de carbono, de crucial importância para todas as células de mamíferos. Possuem uma variedade de funções biológicas, para manter os processos celulares em vários níveis: fornecem energia, funcionam como moléculas sinalizadoras e sustentam a integridade estrutural das membranas celulares. São classificados de acordo com o número de duplas ligações entre os átomos de carbono da sua cadeia, sendo chamados de saturados (não contêm dupla ligação), monoinsaturados (uma única dupla ligação) ou poli-insaturados (duas ou mais duplas ligações). Os ácidos graxos monoinsaturados mais importantes para o ser humano são o ácido palmitoleico e o ácido oleico, enquanto que os poli-insaturados importantes para o ser humano podem ser divididos em duas famílias (n-6 e n-3), de acordo com a posição da primeira ligação dupla a partir da extremidade metila da cadeia de ácido graxo (Figura 1 abaixo com o 6 em vermelho. A extremidade metila corresponde ao 1 em vermelho e à extremidade carboxil, ao 1 em azul).

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Figura 1: Acido eicosapentaenóico – na literatura bioquímica recebe o nome de 20:5 (n-3), por ter uma cadeia de 20 carbonos (um eicosanóide) com cinco ligações duplas a partir do carbono número 3. É o precursor da prostaglandina-3 (um agregador plaquetário), do tromboxano-3 e o leucotrieno-5, que permitem a coagulação do sangue, inflamação entre outras funções. É um derivado do ômega-3.

O ácido linoleico é o principal ácido graxo de n-6, que produz principalmente ácido araquidônico, um ácido graxo essencial, que os seres humanos não produzem e devem obter através da alimentação. Faz parte da família do ômega-6, também encontrada nos óleos de peixe, enquanto o ácido α-linolênico é o principal ácido graxo de n-3 e dá origem, principalmente, ao ácido eicosapentaenóico (Figura 1) e subsequentemente, ao ácido docosahexaenóico (Figura 2). Na literatura bioquímica, o ácido α-linolênico recebe o nome de 20:5 (n-3), por ter uma cadeia de 20 carbonos (um eicosanóide) com cinco ligações duplas a partir do carbono número 3. É o precursor da prostaglandina-3 (um agregador plaquetário), do tromboxano-3 e do leucotrieno-5, que permitem a coagulação do sangue e a inflamação, entre outras funções. A dieta é a principal fonte de ácidos linoleicos e α-linolénicos, visto que a conversão deles pelo organismo é muito baixa (Figura 3).

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Figura 2: Ácido docosahexaenóico, com 22 átomos de carbono e 6 duplas ligações. Encontrado nos óleos de peixes, ainda que também se comercialize o óleo de algas unicelulares como a Crypthecodinium cohnii. Estudos relacionam que o consumo deste ácido graxo detém a deterioração que causa o mal de Alzheimer.

acido3

Figura 3: Origem dos ácidos graxos e ação negativa (saturados ou sem duplas ligações) e positiva (insaturados, com duplas ligações) sobre o corpo humano.

O sistema nervoso possui uma concentração muito alta de ácidos graxos, perdendo apenas para o tecido adiposo, e estes participam ativamente do desenvolvimento do sistema nervoso durante os períodos embrionário (do desenvolvimento do feto) e pós-natal precoce (logo após o nascimento), na sua manutenção durante a vida adulta e no envelhecimento natural, melhoram as funções cognitivas, servem como anti-depressivos e anti-convulsivos, conferem proteção contra traumas e elevam a eficiência dos processos de reparação. Junto com essas ações, condições patológicas atualmente incuráveis do sistema nervoso, incluindo doenças neurodegenerativas, desordens mentais, golpes e traumas, envolvem conteúdos desregulados de ácidos graxos.

Pesquisadores da Universidade de Estrasburgo, na França, realizaram revisão bibliográfica, com estudos publicados nos últimos cinco anos que abordassem a implicância de ácidos graxos na função e disfunção do sistema nervoso.

A revisão mostrou que ácidos graxos poli-insaturados n-3 e n-6 exercem uma variedade de ações positivas que promovem a formação, armazenagem e processamento da aprendizagem e da memória no hipocampo (estrutura do cérebro onde se armazenam as memórias), enquanto os ácidos graxos saturados exibem ações bastante negativas (como a gordura vegetal hidrogenada, ou a margarina, que são óleos com pouquíssimas insaturações ou duplas ligações).

Em geral, uma proporção constante de n-6: n-3 de cerca de 1:1 constituiu um grande avanço na expansão da massa cinzenta (neurônios) do córtex cerebral (estrutura do cérebro responsável pelos pensamentos e tomadas de decisões) de seres humanos, sendo essencial para a manutenção dos variados processos celulares nos quais participam os ácidos graxos poli-insaturados. Uma razão excessivamente elevada entre n-6: n-3 prejudica a função normal do cérebro e, mais importante, predispõe a doenças neurodegenerativas e neurológicas, tais como a degeneração macular (cegueira) relacionada com a idade, declínio cognitivo, depressão e alguns distúrbios comportamentais relacionados .

Apesar destes inconvenientes, há três evidências reais para se considerar que terapias nutricionais baseadas em ácidos graxos podem ter benefícios para várias doenças incuráveis do sistema nervoso central, como no caso da adrenoleucodistrofia, abordada no filme Óleo de Lorenzo, em que uma dieta controlada de ácidos graxos é dada às crianças portadoras desta doença para recuperarem seu desenvolvimento cerebral normal. A adrenoleucodistrofia altera a bainha de mielina, células que ficam em volta das caudas (axônios) dos neurônios, presente na parte branca do sistema nervoso central. O sistema nervoso funciona como uma espécie de circuito elétrico e a bainha de mielina tem a função de isolamento das células nervosas deste circuito. Quando há alteração na bainha de mielina, a condução deixa de ser feita corretamente, e o sistema nervoso vai perdendo suas funções. Os sintomas da adrenoleucodistrofia vão surgindo aos poucos. O indivíduo perde as funções adrenais, a capacidade de falar, interagir, tem que usar óculos devido ao estrabismo, tem dificuldades para andar, passa a se alimentar através de sonda, tem muitas convulsões, e em pouco tempo fica como que em estado de coma, pois seu corpo não consegue se manter sozinho, necessitando da ajuda de aparelhos.

1. Hussain G, Schmitt F, Loeffler JP, de Aguilar JLG. Fatting the brain: a brief of recent research. Front Cell Neurosci. 2013 Sep 9;7. PubMed PMID: ISI:000324575600001. English.

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  1. Comprei um produto para rugas que contém a formula: ácidos graxos poli-insaturados e ácidos linoleico e linolênico. Essas fomulas causa cãncer ou outro tipo de doença? Gostaria muito dessa resposta. Obrigada, Ana

    23/julho/2014 ás 23:28
  2. Rodrigo Resende disse:

    Olá Ana, tudo bem?
    Não causam. Esses compostos usados em cremes são geralmente usados como base ou veículos para o componente ativo. É como se fizessem volume ou carregam o componente ativo (fármaco) para o local de ação. Também são dermatologicamente testados, ou seja, devem passar por testes que provem que não causem danos aos seres humanos. Entretanto, podem causar alergia em algumas pessoas e, se isso ocorre, seu uso deve ser parado.
    Abc
    Prof. Rodrigo Resende

    28/julho/2014 ás 04:15

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