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ELEVADOR

ELEVADOR

Flávio Carvalho

Edição Vol. 2, N. 05, 23 de Dezembro de 2014

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.12.22.005

A apresentação já chegava à sua terceira hora e não havia nenhum sinal de que estava próxima do fim. A diretora regional ainda falava sobre como a economia local tinha sofrido um declínio e o próximo ponto seria sobre como a descentralização do setor de logística teria sido a responsável pela diminuição do indicador de eficiência da unidade em questão.

Carlos sabia que era esse o rumo da apresentação: foi ele quem produziu os mais de cem slides que a diretora deveria ler naquele dia. A direção nacional estava infeliz com os resultados do ano e começou a percorrer todas as unidades regionais em busca de explicações. Na verdade, as viagens eram para determinar quais unidades seriam fechadas. Pelo menos era o que todos os colegas de Carlos supunham.

Um ponto que não depende de suposição é o quanto esses encontros são puro desperdício. É de conhecimento de todos – exceto de quem convoca a reunião – de que nenhuma pessoa normal envolvida em um processo desses quer estar ali. E Carlos, que não tinha nada de anormal, tratou de escapar do auditório. Aproveitou seu lugar próximo à saída e, sabendo que ainda restava um bom tempo para que sua presença fosse solicitada, resolveu tomar um ar fora do prédio.

Ele saiu do auditório e começou a caminhar em direção ao único elevador do edifício. Passou a reparar na mancha de café derramada na camisa do seu uniforme e no quanto os seus sapatos já estavam gastos: ele precisaria comprar outros se não quisesse ser repreendido pela diretora. Somente ao chegar até o botão do elevador foi perceber que o mesmo já estava aberto.

Um homem segurava a porta. Ele era uns dois centímetros mais alto e pesava uns cinco quilos a menos que o novo ocupante do elevador, mas era estranhamente familiar. Talvez se o rapaz que aguardava dentro do ascensor não estivesse com roupas tão bem escolhidas e sapatos tão limpos, poderia ser o próprio Carlos. Na atual condição, parecia ser seu irmão mais jovem.

– Oh, boa tarde! – disse Carlos. – Me desculpe, não vi que você estava aguardando. Obrigado!

– Por nada.

Quando a porta se fechou, Carlos viu que o botão para o térreo já estava apertado e apenas se recostou no espelho olhando para as luzes acima da porta: o mesmo que qualquer pessoa normal faz quando em companhia estranha no elevador. Aguardou algum movimento, mas a descida não se iniciou.

– Que esquisito! Já era para termos descido! – falou Carlos, enquanto apertava repetidamente o botão para descer. A luz da tecla continuava acesa, mas o elevador não se movia.

– Bem, que tal se nós esperarmos aqui um pouco?

Carlos não gostou nem um pouco da sugestão de seu companheiro. Já tinha achado estranho encontrá-lo esperando dentro do elevador e agora ele ainda queria que ele esperasse um pouco?

– Melhor não, amigo! – disse ele ao estranho. – Vou descer mais tarde. Até mais!

Carlos então pressionou o botão para abrir a porta, mas ela não se abriu. Ele continuou apertando o acionador várias vezes, mas sem efeito. O elevador não se movia e, depois de apertar o alarme, tentar fazer contato com a portaria e socar a porta para tentar sair, desistiu e sentou-se no banco do ascensorista. Seu colega de prisão apenas observava suas tentativas e reiterou:

– Acho que devemos esperar um pouco, não é mesmo?

– Fazer o quê, não é? Mas não estou gostando muito da ideia.

– Por quê?

– Porque é bem esquisito você estar aqui me esperando e o elevador dar problema justo agora, você não acha?

O homem riu de Carlos antes de responder:

– Então você está com medo?

– Bem, medo eu não sei. Mas que isso não é algo normal, não é.

– Não precisa se preocupar. – disse o estranho. – Eu não sou má pessoa. Você não é má pessoa, não é?

– Eu não. Então, já que vamos esperar sozinhos aqui, é normal que a gente converse, não é? Como você se chama?

– Carlos.

– Ah, claro! Isso aqui já não estava esquisito o suficiente, não é mesmo?

– É, deve ser esquisito para você mesmo. Você dá uma escapadinha da reunião e dá de cara com alguém bem parecido com você e com o mesmo nome. É de se estranhar mesmo.

– E como você sabe que eu venho de uma reunião? Eu não te falei nada!

– Eu sei de muita coisa, Carlos. Sei que você trabalha aqui, mas detesta o que faz e que não vê sentido nenhum no trabalho. Sei também que você não consegue uma companheira para manter um relacionamento decente. Sei do quanto você chora sozinho em casa pelo menos uma vez por semana. Sei que você sonhava em ser jogador de futebol e isso te incomoda até hoje… Preciso mesmo continuar?

Carlos, o funcionário, não podia responder. Na verdade, ele não era capaz nem mesmo de se mover. Estava perplexo, olhando para aquela figura desconhecida que conhecia toda a sua vida. Percebendo que a pergunta óbvia ia demorar a ser feita, seu interlocutor se antecipou:

– Bem, como você parece que não vai conseguir perguntar, eu vou responder de uma vez. Carlos, eu sou o que você poderia ter sido.

– Como assim?

– Você se lembra de quando você teve aquela chance de fazer sua pós-graduação? Você acabou desistindo, porque estava apertado demais aqui na empresa, não é mesmo? Perder todas as noites da semana seria terrível! Ia atrapalhar seu trabalho nos outros dias, a sua vida fora do serviço… Pois é, eu fiz.

– Mas não tinha jeito! Não dava pra fazer tudo!

– Dava sim. Bastava se dedicar um pouco mais, não?

– Mais? Você está louco?

– Nem um pouco. Lembra-se de quando você ainda namorava a Joana? Ela era uma excelente parceira, vocês se amavam e tinham tudo pra dar certo. Então, por que você não está com ela agora?

– Ora, você não sabe de tudo? Porque ela não quis ficar!

– Ah, mas comigo ela ficou! E está lá no térreo com nossos dois filhos.

A confusão não era o único sentimento de Carlos nesse momento. Ele olhava para o sujeito no elevador e só conseguia pensar em agressão. O homem tinha tudo o que ele havia perdido e ainda tripudiava?

– Isso é ridículo! Só pode ser brincadeira! Quem te mandou aqui, senhor perfeito?

– Perfeito não, Carlos. Como eu disse, sou só você mesmo. A única diferença é que eu não fiz as coisas pela metade.

– Pela metade? Só pode ser piada! Eu faço tudo o que posso!

– Tem certeza disso? Você não completou a sua formação. Parou no meio do caminho porque não tinha certeza se era isso mesmo o que você queria fazer. Você também não investiu no seu relacionamento porque não tinha certeza se queria mesmo se comprometer e acabou fazendo a moça perder a paciência e ir embora. Sem falar no curso de inglês, nas aulas de violão… Carlos, você já terminou alguma coisa na vida?

Ele não conseguiu responder. Sua agressividade agora não era mais tão forte contra o senhor perfeito, mas começava a mudar de alvo. Carlos passava a sentir raiva de si mesmo. Começou a ficar mais agitado e a gritar com seu companheiro de elevador:

– E você quer que eu faça o quê agora? Agora não adianta!

– Carlos, tente se acalmar um pouco, o que não adianta mesmo é começar a gritar agora. Enquanto você não assumir algum compromisso, não se dedicar de verdade às coisas que você faz, tudo o que vai conseguir é ser como você é agora: triste e frustrado.

– Mas como? Eu não sou um super-homem, eu sou normal!

– Normal? Não, você só é conformado. Você está acostumado a apenas cumprir o aceitável, apenas atingir a média. Quem faz apenas o suficiente não é normal. É medíocre.

Carlos ficou parado olhando para o seu interlocutor.

– Então, vamos lá? Só estou aqui para não deixar você voltar para a sua floresta escura e para te empurrar pra subir montanha da salvação. Ou, se quiser ouvir com outras palavras, para te oferecer a pílula vermelha, te empurrar para a toca do coelho… Você escolhe a metáfora. O importante é que você saia desse elevador disposto a se comprometer e a fazer algo além da mediocridade.

Carlos já não estava mais tão agressivo. Ele somente olhava para baixo e concordava movendo a cabeça. Seu novo mentor prosseguiu:

– Que ótimo. Ainda bem que não precisei parar no segundo andar e te mostrar a sua versão que parou de reclamar do treinador e resolveu encarar os treinos de verdade. Essa seria pesada demais. Posso abrir a porta agora?

Carlos novamente apenas fez sinal de positivo com a cabeça. Ele então deixou o elevador e voltou para o auditório. A apresentação já havia terminado e os diretores nacionais já tomavam café e se preparavam para ir embora. A diretora regional fez sinal de dentro da sua sala para que ele entrasse para fazer o relatório anual do funcionário:

– Carlos, vou fingir que não vi seu sumiço. Vamos começar de uma vez. Como você avalia o seu desempenho neste ano?

– Medíocre, senhora. Medíocre.

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  • 3
  1. Ariana disse:

    Mais uma vez o autor nos convida à reflexão. Voltei a 1982 quando li um livro que agora, acabo de perceber, não saiu da minha memória. O título era – Seja você mesmo seu melhor amigo – e, dentre tantas outras coisas, dizia que: “Você é livre quando aceita a responsabilidade pelo que escolheu”.

    29/dezembro/2014 ás 18:17
  2. Ana Carolina disse:

    Mais uma obra incrível de pura reflexão e auto avaliação. Tenho imenso prazer em ler cada conto, um dia quero ser metade da escritora que você é. Parabéns!

    30/dezembro/2014 ás 22:12
  3. Refleti muito sobre a situação do Carlos.
    É tanta gente que deixou escapar oportunidades:
    inclusive EU!
    Parabéns, Flávio!

    04/março/2015 ás 17:34

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