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ELEIÇÃO NO HORÓSCOPO SINO-BRASILEIRO: Uma Fábula

ELEIÇÃO NO HORÓSCOPO SINO-BRASILEIRO: Uma Fábula

FLÁVIO CARVALHO

Edição Vol. 3, N. 5, 04 de Janeiro 2016

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2016.01.06.006

Ao passar pela porta da casa do Galo, o Boi foi cumprimentado pelo Rato, que corria ao redor da única mesa do recinto. Ele ainda acenou para o Porco, que num canto qualquer já devorava algo impossível de ser identificado, e para o Coelho, que do lado oposto observava a violência com que o suíno se alimentava.

Sobre a mesa estava o anfitrião, que cuidava de posicionar as tigelas de água de cada convidado e já em seu lugar se encontrava a Cabra, cabisbaixa e chorosa:

– Querida, o que foi? – perguntou o Boi.

– Eu estraguei tudo! Tudo! Esse ano foi horrível e foi tudo culpa minha! – e se pôs a chorar junto do bovino.

– Ora, não seja tão dura consigo mesma… Nossa atuação tem limites, e ninguém aqui é tão justo quanto você!

– Mas eu queria que fosse tudo perfeito, sabe? Cuidei de tudo com tanto carinho, mas nada deu certo!

O Galo, que acabava de estender as últimas toalhas sobre os assentos, interveio para tentar acalmar a colega:

– Olha, eu também tentei tudo certinho no meu ano, mas ele não foi grandes coisas. Não fique se punindo… No final o tempo passa e ninguém nem vai se lembrar…

– Não é justo! Eu esperei tanto e deu tudo tão errado…

A conversa foi interrompida com o barulho da porta batendo na parede. Todos se viraram para ouvir o Macaco, que foi o primeiro da nova turma a entrar:

– Fala, bicharada! Tudo tranquilo? Todo mundo pronto pra me passar o comando?

Atrás dele vieram o Tigre e o Cão, acompanhando o animado amigo. O Macaco prosseguiu:

– Fala, seu Rato! Tranquilo? Não precisa cumprimentar mais não, beleza? Uma vez só já está bom! E você, seu Porco! Já mandando ver na janta, né? E que servicinho foi esse, dona Cabra? Que aninho, hein?

O Tigre e o Cão começaram a rir, mas a brincadeira para eles perdeu a graça quando viram o choro da amiga. O felino foi até a mesa e se colocou ao lado da Cabra, o que o outro imitou imediatamente. Já o Macaco tentou não dar chance para a tristeza:

– Sem estresse, pessoal! O ano já acabou, é hora de eu assumir e esse negócio aqui vai bombar! Pode me passar a faixa, vamos logo! Cadê aquela serpente? Só falta ela, não é?

– Estou aqui, meu lindo! – disse a Serpente enquanto passava pela porta. – Mas não acho que seja uma boa ideia você assumir, não é mesmo? Você não gosta tanto de agito? Quando eu fiquei com a faixa, há dois anos, foi tudo bem agitado, não foi?

– Ai, ai, ai! Lá vem a cobra arrumar problema! – disse o primata.

– Problema não, meu amor! Solução!

Nessa hora o Coelho já não sabia mais se observava o Porco, que seguia estraçalhando alguma coisa na tigela, a Serpente, que sempre lhe causou estranhamento, ou o Cavalo, que acabara de chegar atropelando a porta e derrubando as prateleiras.

– Mas como é burro esse Cavalo, viu… – disse a cobra. – Talvez mais burro até que você, meu símio lindo!

– Olha aqui, sua peçonhenta… Aliás, por que você não estica essas pernas e volta correndo pra sua casa, hein?

Os demais riram da piada, exceto o recém-chegado Cavalo, que ficou apenas olhando de boca aberta, e o Porco, ocupado demais para gracinhas.

– Engraçadinho… Passa lá em casa mais tarde e a gente resolve tudo, tá? Enquanto isso, proponho façamos a eleição desta vez!

– Eleição? – perguntou o Boi. – Senhor Galo, isso ainda é possível?

A ave então saltou da mesa e foi até um dos quartos. De lá retornou com um pequeno livro antigo, colocou o mesmo no chão e foi passando página por página, até encontrar o que queria:

– Aqui está, pessoal. É possível sim. Não fazemos isso há tanto tempo que não me lembrava mais, mas está aqui no artigo 62. Se um de nossos colegas conseguir cinco votos, somos obrigados a abandonar a sucessão natural e temos que realizar uma eleição para o próximo mandato.

– Então vamos logo com isso, meus amores! – disse a cobra. – Quem mais quer fazer a eleição? Basta dizer “Sim”!

Ninguém se manifestou, o que fez com que a Serpente começasse a correr atrás seus votos. Sibilando, ela aproximou-se do Rato, o que já foi o suficiente para que ele se amedrontasse e dissesse sim. Para coagir o Coelho, bastou um olhar. O voto do Cão foi ainda mais fácil, bastou perguntar se ele iria votar junto dela e dos outros dois.

Faltava ainda o último voto, e a cobra já sabia onde deveria procurar. O Cavalo, que continuava sentado com a boca aberta, estranhou quando a Serpente se aproximou para dizer:

– Meu alazão, você viu que o Macaco chamou você de burro há um tempinho, não viu? Quando você derrubou tudo ao passar pela porta?

– Eu? Você está louca? – intercedeu o Macaco. – Foi você quem o chamou de burro! Não caia nessa, seu Cavalo imbecil! Ops, quero dizer… Seu Cavalo ligeiramente desprovido…

O Boi, a Cabra e o Galo se entreolharam, e a antiga dona do mandato até esboçou uma risada com a impulsividade do primata. O sorriso, no entanto, desapareceu com o “Sim” dito pelo Cavalo, e ela se entregou:

– Ah não… Boi, Galo, me desculpem, mas é demais para mim. Já estou chateada demais e não vou aguentar mais uma bobagem dessas. Se isso é uma votação, eu me abstenho, não vou cometer mais um erro na saída do meu mandato. O mais justo é que eu me vá e deixe vocês resolverem. Boa sorte, meu amigos!

E assim a cabra se foi. A cobra e o primata, no entanto, nem prestaram atenção e continuaram a trocar gentilezas:

Fonte:http://www.grupoescolar.com/pesquisa/coronelismo-e-voto-de-cabresto.html

– Sua víbora! – esbravejou o Macaco. – Tudo bem! Se é assim, vamos votar logo! Você nunca vai conseguir ganhar mesmo!

– Então vamos ver, meu simião maravilhoso! Eu começo a votação então! E voto na Serpente, é claro!

– E eu em mim mesmo! Vocês sabem que sou eu quem deve assumir agora! É questão de direito!

Nesse momento a janela mais próxima à porta se espatifou e seus cacos voaram por toda a mesa. Enquanto uns cobriam suas cabeças e outros saíam correndo, os menos desesperados se viraram para a origem do barulho e viram a cabeça do dragão, que chegara atrasado:

– Que palhaçada é essa aqui? Eleição? Vocês são todos imbecis mesmo… Todo mundo sabe o único forte o suficiente aqui sou eu. Dessa turma eu sou o único líder de verdade, mas vocês são egoístas demais. Já que é assim, voto em mim e me vou. Vocês que se virem aí! E depois me manda a conta da vidraça, Galo!

E assim o Dragão também se foi. Depois de o Boi e o Galo juntarem todos os cacos, todos perceberam que o Coelho e o Rato tinham fugido. Já o Porco continuava em seu mundo de tigela.

Fonte: Imagem da internet

– Vamos prosseguir então. – disse a Serpente. – Já temos um voto para mim e um para o Macaco. Senhor Galo? Boi?

– Acredito que o mais justo seja o Macaco ser o eleito. – disse o Boi. – Afinal, não concordo com a sua manobra para tentar roubar a vez dele.

– Concordo. – disse o Galo. – Agora são três para o Macaco.

A Serpente teria dado de ombros se os tivesse. Decidiu então continuar o processo pelo suíno:

– E você, imundície? Vai parar de comer ao menos para votar?

O Porco somente ergueu a cabeça e grunhiu apontando para seu próprio peito antes de voltar a devorar seu jantar.

A cobra então se virou para a dupla do Tigre e do Cão, que já estavam correndo entre risadas ao redor do Cavalo:

– E vocês, irresponsáveis? Dá pra acabarem com a brincadeira? Isso aqui é coisa séria!

Eles ainda correram por alguns segundos, até que o Tigre se virou para a víbora:

– O Cavalo é meu amigo, e você o chamou de burro! Não foi mesmo, Cão?

O cachorro assentiu com a cabeça e o felino já ia concluir seu voto quando a cobra se antecipou:

– Tudo bem, mas você também não vai votar no Macaco, não é mesmo? Ele também chamou o Cavalo de burro… Ou melhor, de imbecil!

– Então tudo bem, não voto em você e nem nele! Eu voto no Porco! E você, Cão? Vai comigo, não vai?

O cachorro concordou e empatou a votação. Todos os presentes então olharam para o Cavalo, que continuava sentado sobre as patas posteriores e lambendo um de seus cascos.

– E então, seu burro! – perguntou a frustrada Serpente. – Porco ou Macaco? Você que resolve!

O Macaco então se dirigiu ao equino:

– Você não vai votar naquele imundo, não é mesmo? Olha aqui, o direito era meu! Desculpe-me pelo “imbecil” de antes, eu não quis te ofender, meu amigo… É que me escapuliu…

– Escapuliu a verdade, né? – disse a Serpente.

– Cale a boca, sua escorregadia! – respondeu o Macaco.

Enquanto o debate entre eles recomeçava, o Porco se levantou. Ele pegou sua tigela com a boca e começou a caminhar na direção do Cavalo. Todos pararam para observar o caminhar subitamente pomposo do suíno, com sua corrente de ouro balançando em seu pescoço.

Chegando próximo ao Cavalo, ele deixou seu pote no chão. Lá havia apenas restos do jantar do Porco, que empurrou a tigela para perto do focinho do equino e passou a acariciar um dos cascos do outro.

O bovino olhou para o Galo e ambos abaixaram as cabeças. O Boi então perguntou:

– É, meu amigo… Será que nós vamos ver o Burro eleger o Porco?

O Macaco, por sua vez, nem pôde tentar intervir. O Cavalo, depois de dar a primeira mordida nos restos deixados pelo suíno, começou a gritar:

– Porco! Porco! Meu voto é Porco!

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  • 2
  1. Ariana disse:

    Interessante essa abordagem do autor, inspirada no horóscopo chinês, e também o final da narrativa, permitindo uma analogia com o comportamento humano.

    23/janeiro/2016 ás 20:40
  2. Márcio Rodrigues Teixeira disse:

    Tenho certeza de que não é analogia com eleições de um país que conhecemos.

    18/maio/2016 ás 18:29

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