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DOUTORES, POLÍTICOS E TERRÁQUEOS

DOUTORES, POLÍTICOS E TERRÁQUEOS

Flávio Carvalho

Edição Vol. 3, N. 4, 15 de Dezembro 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.12.16.007

– Você sabe que ele vai ficar maluco! Ele vai incendiar isso aqui!

– Que ele fique bravo o quanto quiser, meu jovem! O importante é que nós vamos encerrar esse projeto hoje. – disse o emissário do governo ao chefe do laboratório.

– Olha, eu não gosto dessa ideia. Só quero ver você dizer isso ao Doutor, ele não vai…

– Não quero nem saber, acabou! Ele pode morrer junto com o projeto se quiser! Mas de hoje não passa, é impossível!

O chefe do laboratório já havia passado quase trinta anos ao lado do Doutor, e essa pequena alteração de voz do emissário não chegava nem perto do dia em que ele viu o seu companheiro destruir dois anos de resultados por causa de uma redução no orçamento do laboratório. Mesmo assim, resolveu retrucar:

– Meu amigo, vamos com calma. Não precisa gritar, está vendo porque nós gostamos mais das máquinas do que de vocês? Elas não chegam cheias de bravata e invadem o seu espaço…

– Não invadiam, na verdade.

A conversa foi interrompida pela chegada do Doutor. Carregando uma bolsa e uma pilha de papéis desorganizados, ele passou pela porta mastigando aquilo que parecia ser o último pedaço do seu almoço:

– Boa tarde, senhor.– disse enquanto olhava para a mão estendida do emissário. – Sejamos breves, a presença de pessoas do seu tipo não nos agrada aqui, não é mesmo? – e virou seu olhar para o chefe do laboratório.

– Sem dúvida, Doutor. Já estou bem incomodado e há bastante tempo.

O emissário recolheu a sua mão e sentou-se. Enquanto retirava seu relatório da pasta, iniciou a reunião:

– Pois bem, Doutor… Como é de seu conhecimento, existem diversos problemas com o projeto que o senhor comanda neste momento. Segundo a normativa D, somos obrigados a intervir de forma a garantir a…

– Seja breve, rapaz! Pare de me enrolar! – interferiu o Doutor com um tapa na mesa. – Ninguém tem tempo para bobagens, vamos logo!

O emissário, terminando de fechar a sua pasta, jogou o relatório sobre a mão do Doutor:

– Está aí, então! São quatrocentas páginas explicando os problemas com as máquinas de vocês! Enviamos há bastante tempo, mas nunca obtivemos resposta! Vocês não têm responsabilidade nenhuma?

O chefe do laboratório olhou para o emissário e ameaçou se levantar, mas foi contido pelo toque do Doutor no seu braço:

– Se ler aquela porcaria é o que você chama de responsabilidade, então não temos mesmo. Nem um pouco.

– Irresponsáveis! Mas não importa, se o que você deseja é brevidade, já estou terminando nossa reunião. Não adianta conversar com gente grosseira como vocês. O projeto está encerrado. Fechado! Passar bem. – e levantou-se.

O emissário começou a caminhar até a porta, mas foi obrigado a parar quando o Doutor agarrou seu braço esquerdo:

– Sente-se. Você não vai fechar nada aqui. – e mantendo o controle do punho do outro, o Doutor o conduziu até sua cadeira.

– O senhor sabe o meu sobrenome, emissário? É Vinte e Seis. Doutor Linus Vinte e Seis. Sabe o motivo, seu acéfalo?

– Sim. Você é o vigésimo sexto a comandar o projeto.

– Meus parabéns. Sendo assim você também entende que me chamo Linus não por vontade dos meus pais, mas porque esse é o nome do projeto. Veja bem, meu nome e meu sobrenome foram entregues a essas máquinas. E você acha que vai entrar aqui e acabar com tudo? Inclusive com a minha identidade?

O chefe do laboratório, vendo que a conversa havia sido retomada, levantou-se e foi servir água para os três.

– Já está decidido. – disse o emissário. – O seu projeto saiu do controle, não podemos arriscar a nossa espécie por causa dele!

– Saiu do controle? Foi um episódio isolado que…

– Episódio isolado? A sua máquina despertou sozinha, abriu a cápsula em que estava e destruiu outras setenta iguais a ela! Acabou com todo um lote! Mas não, ela não havia terminado… Ainda quebrou a porta do galpão e saiu às ruas, agredindo tudo o que encontrava pela frente! Fez oito vítimas até que nossas forças conseguiram contê-la! Oito vítimas! E você considera isso pouca coisa?

– É claro que não! Mas já tomamos as medidas para que não aconteça novamente, ora! Vocês não eram fãs do nosso projeto? Como suas opiniões podem mudar dessa forma?

– Vocês fizeram um trabalho avançadíssimo, sem dúvida. Mas também é inegável o quanto vocês foram irresponsáveis! Vocês criaram máquinas incríveis, Doutor. Tão incríveis que elas se tornaram prejudiciais.

– De jeito nenhum! É só uma questão de adaptá-las!

– Quando vocês começaram o projeto das máquinas era para que elas nos servissem. E de pequenos terminais capazes de fazerem matemática simples, em poucas gerações vocês avançaram nossa tecnologia a pontos perigosos…

– E o que você lá sabe de ciência? Quem sabe se é perigoso ou não sou eu!

– Veja bem, nós sempre observamos tudo o que vocês faziam. Primeiro vieram as máquinas com a nossa forma. Tudo bem, foi interessantíssimo aproximá-las da nossa população, facilitou muito a aceitação… Mas aí vocês dobraram a aposta e fizeram exemplares tão perfeitos que são visualmente indistinguíveis de nós! Imagine só, você está na rua e não consegue saber se o sujeito que está na sua frente é de fato um sujeito ou é apenas uma máquina!

– Eles não têm toda a nossa estrutura, ainda não conseguimos a…

– Eu não terminei, Doutor! Não me interrompa! E mesmo que fosse só isso já seria problemático, mas vocês tiveram que avançar ainda mais, não é mesmo? Essas máquinas, que antes precisavam ser operadas diretamente por um de nós, passaram a não depender mais dos nossos comandos!

– E qual o problema disso?

– Se ficasse por aí, até que não seria tão grave, mas a loucura de vocês não conhece freio nenhum! Vocês tinham que fazê-las capazes de aprenderem sozinhas, não é mesmo? Ficamos então com máquinas indistinguíveis de nós e que ainda por cima têm capacidade de aprendizado! Podem aprender qualquer habilidade técnica, inclusive a de fazer oito vítimas num único passeio!

– Mas também podem aprender a construir casas, abrir estradas, cozinhar, limpar…

– Vocês realmente não têm noção do perigo… E ainda por cima tinham que fazê-las capazes de se reproduzirem? É sério isso?

– Esse foi o maior avanço de todos! Ainda não conseguimos uma reprodução como a nossa, é claro, mas se queríamos fazê-las como nós, esse passo seria inevitável!

– Quer dizer que vocês criaram máquinas independentes, capazes de reprodução e aprendizado e que ainda se parecem conosco! E vocês ainda não percebem a asneira que fizeram? Vou repetir: oito vítimas na primeira saidinha sem supervisão!

– Vocês não podem tomar uma decisão desse tamanho com base numa anedota! Nós ainda temos muito a desenvolver nesse projeto!

– Ah, e o que falta agora então? Capacidade de perceber o ambiente? Sentimentos?

– É o que completamos neste mês, seu alienado! Como você não sabe disso?

– Mais um motivo para eu acabar com isso agora! Essas máquinas vêm equipadas com tudo isso, mas sem nenhuma ética para guiar suas decisões? Sem nenhum caminho programado a ser seguido?

– E que caminho seria esse? Nós já descobrimos o que é certo e errado?

– Não seja ridículo! Elas não têm moral! Elas não foram educadas por ninguém, ainda mais sendo fruto de vocês dois! Elas nunca serão como nós! Nunca! Seu projeto nunca vai ser completado!

– E quem é você pra falar em moral, seu político inútil! – gritou o Doutor. – Vocês têm medo do avanço, só isso! Vocês querem apenas que tudo continue como vocês conhecem, só assim vocês conseguem se manter no controle!

– Vocês é que não são capazes de controlar sua própria ciência! Vocês que são inúteis e incompetentes!

Nesse momento o Doutor arremessou o relatório contra o emissário, que se pôs de pé imediatamente. Caminhando apressado em direção à porta, berrou aos dois cientistas:

– Eu disse que acabou! E agora vocês têm dois dias para desocupar o prédio! Gente baixa, sem educação! Dois dias e isso aqui vira nosso novo escritório de gabinetes! E vou fazer questão de ficar com essa sala aqui!

– Vá embora daqui, seu abutre! Político burro! Acéfalo! Aproveitador! – gritou o Doutor enquanto jogava os copos na porta que acabava de se fechar.

Ele então pegou o relatório do chão e retornou à mesa. Sentou-se junto ao seu companheiro de projeto, arrancou a primeira folha do documento e começou a dobrá-la. Depois de quatro ou cinco dobras, cuspiu na folha e a jogou do outro lado da sala. O chefe do laboratório observava seu amigo, esperando que ele indicasse o que deveriam fazer.

Imaginou que o Doutor pudesse de fato colocar fogo no laboratório. Pensou que ele talvez quisesse quebrar tudo, e já havia decidido que ajudaria o companheiro a destruir cada pedacinho daquilo ali. Enquanto isso, o Doutor continuava arrancando, dobrando, cuspindo e arremessando cada folha do relatório.

– E então?

– Então o quê? – respondeu o doutor, sem tirar os olhos das folhas.

– O que fazemos, ora! Destruímos tudo?

– Como eu disse àquele demente, você realmente acha que eu vou deixar que ele destrua uma vida de trabalho? Na verdade, vinte e seis vidas? E por causa de um governante imbecil e de pavio curto? Não, meu caro… Não mesmo!

O chefe do laboratório ergueu os olhos, mas nem precisou fazer a pergunta.

– Temos dois dias para sumir com essas máquinas daqui, é simples. Vamos ter que escondê-las em algum lugar, meu amigo…

– Bem, e se você está dizendo que precisamos de algum lugar… – ele ergueu a cabeça e continuou os pensamentos do seu companheiro. – É claro que você já sabe qual vai ser, não é mesmo?

– Passei o último ano pesquisando essa nossa saída. Sempre soube que um dia esses animais poderiam fazer essa burrice! Me dê essa bolsa que eu trouxe, por favor.

– Mas como nós vamos fazer para enviá-las? São quase dez mil!

– Os detalhes estão no meu armário. A bolsa, por favor.

Depois de receber a pasta, o Doutor retirou dela um dispositivo que projetou um holograma com um mapa escuro cheio de pontos luminosos.

– Veja bem, meu amigo! Aqui estamos nós… – apontando para um pequeno ponto. – E aqui, nesse outro canto, temos um ótimo lugar para elas! Os últimos que reinaram por lá foram répteis, não vai ser tão difícil assim.

– Mas nós vamos deixá-las sozinhas?

– E quer experimento melhor? Por que não observar como elas se viram sozinhas, se esse é o medo de todos? Se não podemos fazer nossos experimentos aqui, vamos fazê-los de longe.

O Doutor seguiu tocando o dispositivo e o mapa holográfico foi girando e ganhando definição:

– Ok, já estou encontrando… Veja esse ponto branco aqui! – ele aproximou ainda mais o mapa.

– Agora deixe-me contar… um… dois… três!

E os dois aproximaram seus rostos do holograma, que agora focalizava apenas uma esfera rochosa e cheia de água na superfície. O dedo do Doutor apontava para o novo lar de seu experimento:

– Vamos deixá-las neste planeta azul aqui.

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  • 2
  1. Flávio
    Que incrível! Pensei que as máquinas já estivessem trabalhando nos
    escritórios de Brasília.
    A sua percepção aguçada nos mostra o perigo que estamos correndo.

    17/dezembro/2015 ás 18:24
  2. Ariana disse:

    E assim emergiram espécies tão distintas.

    24/dezembro/2015 ás 10:40

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