DEBATE DE IDEIAS

DEBATE DE IDEIAS

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.03.31.001

Caio S. Lois é Professor, Cientista Social e Jornalista

Debater, pelo dicionário Michaelis, significa “Contender por meio de palavras ou argumentos; disputar, contestar, discutir, argui” e é o que considero o alicerce do processo de formação de pensadores, a ação pela qual se produz intelectos livres, pessoas destemidas, participativas, seguras em suas ações e palavras. É a mesma ação que permite que pessoas diferentes consigam trabalhar em equipe, expressar suas experiências sem temer o que o outro vai dizer e, esse outro, aprender com elas, é o processo de interação entre indivíduos totalmente únicos, diferentes, um processo que coíbe o sentimento de insegurança.

Pessoas que se permitem ao debate irrompem com a timidez e com o complexo de inferioridade, tornam-se pessoas mais confiantes, aceitam e embreiam-se sobre o novo, participam do processo criativo, aceitam, desculpam-se, voltam e corrigem seus erros, fazem novas rotas e enfrentam com dignidade as críticas.

Debater é a atitude que nos faz determinados e capazes de lutar pelo que cremos e aceitamos como aquilo que nos dignifica.

Debater deveria ser parte do cotidiano intelectual de alunos, professores, cientistas de nossas universidades, institutos, ONGs, ativistas de posições variadas que se colocam como tal. Porém, o que se vê é a privação da liberdade de pensar pela exclusiva vontade de acumular informações e não o debate, a troca de ideias, o raciocínio clínico, avaliativo que pode levar a direções totalmente diferentes da proposta inicial, mas, certamente, o que seria o ideal, ou o melhor, para a maioria.

Evidentemente que há exceções que não se subjugam a tolher uma boa troca de experiências, porém, o que se vê corriqueiramente, em centros de pesquisa, estudos avançados, centros de decisões políticas e, até organizações dedicadas ao próximo é a vaidade de ter seu ponto de vista, sua ambição, alçada como a melhor proposta. O conhecimento é regido por uma rigidez póstuma controlada pela vontade de poucos que estão no poder.

É o que podemos chamar de competição predatória. Competição é uma relação ecológica que ocorre tanto em indivíduos da mesma espécie (intra-específica), quanto em indivíduos de espécies diferentes (interespecífica), onde existe uma disputa de algum recurso como alimento, água, luminosidade, território, fêmea ou macho, entre outros. É uma relação reguladora da densidade populacional, que contribui para evitar a superpopulação das espécies, uma vez que os recursos pelos quais competem geralmente são limitados. Quando dizemos que a competição é predatória ela elimina a outra espécie, ou em casos da mesma espécie, elimina o indivíduo igual a você. A competição predatória anula os valores altruístas da inteligência e anula a humanidade dos competidores. Ela determina o controle do pensamento e a retração de ideias. O excesso de informação a que estamos expostos e nos é sobre julgados não tem fornecido bases para a sabedoria e o desprendimento do material, do querer ser melhor do que o outro que se apresenta com ideias diferentes, ou mesmo iguais. O importante é ser o centro e não coparticipar de um processo evolutivo mais humano e saudável. É por isso que o sistema educacional, o sistema imperativo em universidades, poder legislativo, judiciário, associativo apresenta-se em estado febril, doentio. Nestes sistemas, o indivíduo que se atreve a ter ideias diferentes do status quo, sugere novas linhas de raciocínio, quebra paradigmas, é objeto de ameaça, inveja, enquanto deveria ser aplaudido.

Grandes pensadores da nossa história foram estrangulados por colegas que não aceitaram suas ideias inovadoras, simplesmente porque não foram eles que a apresentaram.

Mas, e daí, perguntam-me, pode por ventura o rapaz iniciante, o jovem trabalhador, o novo ser um idealista, o motor pujante de uma nova era para uma estrutura arcaica, uma entidade aristocrática com maquiagem de um recinto nobre, reduto de intelectuais vorazes, não por conhecimento, mas pelo poder, vir a ser a mola que flexiona a vontade de persistir e melhorar um conceito abstrato, velho e ocioso? Para que se torne o emblema de uma nova era e deixe os antigos mestres como pacholantes? Não, não é isso que gostaríamos de fazer, mesmo porque não temos a pretensão do querer… é o simples barco que em meio de uma tempestade no meio do oceano, com ondas de 20 metros de altura, raios fumegantes querendo dilacerar o pequeno barquito, de passar por esse temporal oferecendo o que de melhor se pode fazer pelo próximo, pelo que necessita, pelo amor, pela graça de compartilhar o que adquiriu com seus grande mestres.

Um passo de cada vez, vejo que os 10% ou menos da população mundial _ oh, não é só no nosso mundinho, nosso reduto, nosso local de trabalho, nosso País, que a grande massa fica patinando sobre os esforços da esmagadora minoria, um dia passos largos poderão ser dados pelos nossos filhos.

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  1. Rodrigo Resende disse:

    melhor retrato das instituições…u

    01/abril/2014 ás 21:26

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