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CUIDADOS NA GRAVIDEZ: Você Sabe o que é Pré-Eclâmpsia?

CUIDADOS NA GRAVIDEZ: Você Sabe o que é Pré-Eclâmpsia?

Vânia Goulart, Rodrigo R Resende

Vol. 1, N. 12, 03 de Junho de 2014
DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.06.03.003

A pré-eclâmpsia foi descrita pela primeira vez em 1843, quando John Lever do Hospital de Guy, em Londres verificou a presença de proteinúria (perda excessiva de proteínas na urina) em mulheres com convulsões no parto (1). A causa exata da doença ainda é desconhecida. Atualmente, a pré-eclampsia é classificada como uma desordem multissistêmica que se desenvolve a partir da vigésima semana de gravidez e tem como principais sintomas o aumento da pressão arterial e a presença de proteinúria. O diagnóstico da doença é clínico, se baseia no histórico da gestante e em medições da pressão arterial e exames de urina. A realização de duas medições da pressão arterial em um intervalo de 4 h, com o resultado maior ou igual 140/90 mmHg, juntamente com a presença de proteínas em amostras de urina com concentrações superiores a 300 mg/dia, são suficientes para diagnosticar a doença (2). Estima-se que a pré-eclâmpsia afete de 2-10% das mulheres grávidas no mundo, sendo considerada uma das principais causas da mortalidade e morbidade materna e mortalidade perinatal (período entre a vigésima segunda semana de gravidez e os sete primeiros dias que precedem o parto) (3).

A placenta é o órgão central na patogênese da pré-eclâmpsia. A placenta é formada por uma porção fetal que se origina do saco coriônico e pela porção materna derivada do endométrio uterino (Figura 1). A placenta, dentre outras funções, é a principal responsável pelas trocas de substâncias e oxigênio entre a mãe e o feto. Mulheres que desenvolvem pré-eclâmpsia apresentam anormalidades durante o processo de formação da placenta. Essas anormalidades podem ser causadas por algum fator de predisposição à doença, principalmente por hipertensão (4).

Durante a placentação normal, células do embrião, chamadas citotrofoblastos, invadem a parede do útero materno e desencadeiam vários processos que promovem a remodelação das artérias espiraladas uterinas, de modo que elas têm seu diâmetro aumentado e se tornam mais flácidas, permitindo uma maior perfusão de sangue para os espaços intervilosos (lacunas formadas pela invasão dos citotrofoblastos e compartimentalizadas pelos septos placentários). Os espaços intervilosos contêm o sangue materno e secreções endometriais que nutrem o embrião, inicialmente por difusão (Figura 1). Em mulheres que desenvolvem a pré-eclâmpsia não ocorre, ou ocorre parcialmente, o processo de remodelamento vascular provocando uma redução do suprimento nutricional para o embrião (Figura 2) (5). As anormalidades no processo de placentação, além de colocar a vida do embrião em risco, também causam graves problemas para a gestante. Durante uma placentação aberrante, vários fatores placentários (proteínas e hormônios) são liberados na circulação materna. Esses fatores atuam nas células que formam as paredes dos vasos sanguíneos maternos (endotélio), causando lesões e vasoconstrição, provocando o aumento da pressão arterial que leva a um déficit de suprimento sanguíneo para todo o organismo materno, atingindo órgãos vitais como o fígado e coração (2). Nos rins, os danos endoteliais provocados pelos fatores placentários podem resultar em endoteliose capilar glomerular (as células dos vasos glomerulares tornam-se inchadas, impedindo a passagem e a filtração adequada do sangue materno) e perda de proteínas do plasma sanguíneo e de células danificadas dos vasos na urina (1).

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A complicação mais temida da pré-eclâmpsia é a eclâmpsia propriamente dita, que é definida pelo surgimento de crises convulsivas durante a gestação e o parto. Essas crises podem causar lesões cerebrais, incluindo acidente vascular cerebral e hemorragia cerebral que são os principais responsáveis pelas mortes maternas. As principais complicações relacionadas com eclâmpsia que afetam o feto em desenvolvimento incluem a prematuridade (em muitos casos faz-se necessário adiantar o parto), restrição do crescimento fetal intra-uterino, perda de líquido amniótico, displasia broncopulmonar (doença que acomete recém-nascidos prematuros com síndrome de desconforto respiratório submetidos a oxigenoterapia e ventilação mecânica) e aumento do risco de morte perinatal (4).

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Fatores de risco e probabilidade:

  • Idade: mulheres acima de 40 anos têm o dobro de probabilidade de desenvolver a doença (3). Um levantamento realizado nos Estados Unidos, pela equipe do pesquisador Saftlas do Centro de Controle de Doenças, em Atlanta, demonstrou que após a mulher completar 34 anos, a cada ano que se passa aumenta 30% as chances de desenvolver pré-eclâmpsia (6);

  • Paridade: mulheres nulíparas (que nunca tiveram um parto), apresentam um risco três vezes maior de ter a doença do que mulheres que já tiveram filhos (3);

 

  • Pré-eclâmpsia na primeira gravidez: mulheres que tenham tido a doença na primeira gravidez, possuem sete vezes mais risco de ter novamente a doença na segunda gravidez (3);

 

  • Histórico familiar: mulheres com histórico familiar em que a mãe ou irmã já tiveram pré-eclâmpsia, possuem um risco três vezes maior do que mulheres que não tem casos na família (3);

 

  • Gravidez múltipla: mulheres grávidas de gêmeos também possuem risco aumentado em três vezes em relação a mulheres grávidas de apenas um filho (3);

 

  • Condições médicas pré-existentes:

 

- Diabetes: a probabilidade de pré-eclâmpsia quase quadruplica se o diabetes está presente antes da gravidez (3);

- Hipertensão: das mulheres com hipertensão crônica, 25% desenvolvem pré-eclâmpsia (7);

- Doenças renais: insuficiência renal e até mesmo infecções urinárias podem ser consideradas fatores de risco para a pré-eclâmpsia. O risco pode chegar a uma taxa de 7,3 vezes maior quando comparado com uma gestante saudável (1);

- Doenças autoimunes: mulheres com lúpus eritematoso sistêmico (LES) e artrite reumatoide (AR) têm um risco aumentado de desenvolver pré-eclâmpsia; o LES está associado com um aumento de 2-6 vezes do risco e AR está associada com um aumento de 1,4-2 vezes (8);

- Síndrome antifosfolípide: é uma doença crônica na qual o organismo produz anticorpos que afetam a coagulação do sangue, tornando-o mais propenso a coagular. Essa doença também aumenta significativamente o risco de desenvolvimento de pré-eclâmpsia (3).

  • Intervalo entre as gestações: um longo intervalo entre uma gravidez e outra está associado com um risco significativamente mais elevado de pré-eclampsia na segunda gravidez, quando a pré-eclâmpsia não foi desenvolvida na primeira gravidez (3);

  • Índice de massa corporal: o risco de pré-eclâmpsia é quatro vezes maior para mulheres que antes da gravidez possuem índice de massa corporal superior a 35 (considerado obesidade), quando comparado com mulheres com índice de massa corporal entre 19 e 27 (considerado normal) (3).

 

Prevenção e tratamento

O primeiro passo para uma mulher que pretende engravidar é procurar um médico especialista para avaliar se ela possui algum fator de predisposição à pré-eclâmpsia. Para as mulheres que possuem algum fator de risco para a doença, o ideal é que o acompanhamento médico seja iniciado antes da concepção. O monitoramento adequado, o diagnóstico preciso, a oportuna intervenção com medicação e a preparação para o parto formam a essência da gestão de pré-natal das síndromes hipertensivas da gravidez, principalmente da pré-eclâmpsia. Dependendo da severidade da doença a internação hospitalar da gestante é recomendada.

A hipertensão pode ser controlada com terapia anti-hipertensiva adequada (9, 10). Medidas profiláticas, tais como uso de agentes antiplaquetários (aspirina), suplementação com cálcio, antioxidantes (vitaminas C e E), magnésio, óleos de peixe, alho e baixa ingestão de sal têm sido investigados, tendo resultados positivos em alguns casos (9, 11). A pré-eclâmpsia ocorre somente enquanto a placenta estiver presente no útero materno, sendo que na maioria dos casos ocorre o desaparecimento da doença após o parto. Em casos mais severos onde há risco de morte da mãe ou do feto, o parto prematuro é indicado (5).

Nossos laboratórios, junto com o laboratório da Profa Dra Valéria Sandrim, da UNESP de Botucatu, estão pesquisando novos biomarcadores para a realização de um diagnóstico ultrassensível para a detecção precoce ou de possíveis futuras portadoras da pré-eclâmpsia, com isso os cuidados necessários para a mulher e seu filho estarão melhores resguardados.

 Referências 1. Munkhaugen J, Vikse BE. New aspects of pre-eclampsia: lessons for the nephrologist. Nephrology Dialysis Transplantation. 2009 October 1, 2009;24(10):2964-7. 2. Roberts JM, Pearson G, Cutler J, Lindheimer M. Summary of the NHLBI Working Group on Research on Hypertension During Pregnancy. Hypertension. 2003 March 1, 2003;41(3):437-45. 3. Duckitt K, Harrington D. Risk factors for pre-eclampsia at antenatal booking: systematic review of controlled studies. BMJ. 2005 2005-03-10 22:59:59;330(7491):565. 4. Powe CE, Levine RJ, Karumanchi SA. Preeclampsia, a Disease of the Maternal Endothelium: The Role of Antiangiogenic Factors and Implications for Later Cardiovascular Disease. Circulation. 2011 June 21, 2011;123(24):2856-69. 5. Roberts JM, Cooper DW. Pathogenesis and genetics of pre-eclampsia. The Lancet. 2001 1/6/;357(9249):53-6. 6. Saftlas AF, Olson DR, Franks AL, Atrash HK, Pokras R. Epidemiology of preeclampsia and eclampsia in the United States, 1979-1986. American journal of obstetrics and gynecology. 1990 Aug;163(2):460-5. PubMed PMID: 2386132. Epub 1990/08/01. eng. 7. Magon N, Chopra S, Joneja GS. Hypertension in pregnancy: The endocrine and metabolic aspect. Indian journal of endocrinology and metabolism. 2011 Oct;15 Suppl 4:S380-2. PubMed PMID: 22145143. Pubmed Central PMCID: PMC3230093. Epub 2011/12/07. eng. 8. Palmsten K, Hernández-Díaz S, Kuriya B, Solomon DH, Setoguchi S. Use of disease-modifying antirheumatic drugs during pregnancy and risk of preeclampsia. Arthritis Care & Research. 2012;64(11):1730-8. 9. Chandiramani M, Waugh JJS, Shennan AH. Management of hypertension and pre-eclampsia in pregnancy. Trends in Urology, Gynaecology & Sexual Health. 2007;12(3):23-8. 10. Steegers EAP, von Dadelszen P, Duvekot JJ, Pijnenborg R. Pre-eclampsia. The Lancet. //;376(9741):631-44. 11. Turner JA. Diagnosis and management of pre-eclampsia: an update. International journal of women’s health. 2010;2:327-37. PubMed PMID: 21151680. Pubmed Central PMCID: PMC2990902. Epub 2010/12/15. eng.

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