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CONVITE

O CONVITE

Flávio Carvalho

Edição Vol. 3, N. 11, 06 de Junho de 2016

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2016.06.06.006

Vítor terminou de subir as escadas, colocou seu dedo no leitor e abriu a porta. Mais uma digital, desta vez para o relógio de ponto, e foi direto até sua baia. Ninguém precisa de calendário para saber que é sexta: o Jorge e o Fofão continuam enchendo o saco com esses Messi e Cristiano, as meninas histéricas do apoio estão com semi-joias novas e o Alê já deu bom dia pra metade do andar – sem sair da sua mesa, é claro. A Lu não. A Lu está concentrada no computador, com a caneca de café no mesmo lugar há sei lá quanto tempo. Deve estar com algum processo mais complicado, coitada.

Tia Carmem perguntou se estava tudo pronto. Pela expressão de Vítor, foi fácil deduzir que nada havia mudado. É, a festa já é amanhã, todo mundo já sabe, mas o momento certo ainda não veio… Sempre tem algo para atrapalhar, ou alguém. Essas coisas têm hora certa, não é tão simples assim, ora…

Depois de uma torcida de nariz, ela levou Vítor para tomar café. Desde que ele foi admitido os dois já se tornaram amigos. Talvez tenha sido o gosto em comum por chicletes de canela, ou talvez seja o desprezo em comum pelo Big Brother, quem vai se lembrar? Mas se o andar inteiro a chama de Tia, em poucos dias ele já era o sobrinho preferido.

Ela passou um café novo, moendo os grãos que eles guardam no cantinho da geladeira, e serviu os dois. Estendeu a xícara, mas puxou para perto dela quando ele estendeu seu braço. Mais uma vez a pergunta, mais uma vez o lembrete. Ele pediu calma, tudo ficaria tranquilo. Sem gostar muito da resposta, ela acenou para a estagiária do jurídico e apontou para a xícara. Lu sorriu e se levantou para ir até a copa.

Vítor pegou seu café e deu os primeiros passos para fora da cozinha, mas Carmem o segurou pelo cinto com um dedo. A xícara do estagiário quase caiu e uma camisa quase foi perdida para o café, mas ele conseguiu se recompor sem alarde. Enquanto isso, Lu se aproximava deles com a caneca em uma das mãos e a outra tentando fixar o prendedor no cabelo.

Enquanto a moça caminhava, ele tomou um gole do café, observando-a por cima da xícara. A Lu é meio sem jeito, anda com as pernas um pouco abertas e a cabeça parece que está sempre quicando… Mas nada que prejudique, aliás, até melhora… Deixa a menina meio charmosa, diferente! Perfeição é chato demais!

– Obrigada, Carmencita! – disse a jovem enquanto tomava o primeiro gole. – E bom dia, Vítor! Conseguiu ver o filme que eu te passei ontem?

Ele balançou a cabeça e disse que havia gostado. Na verdade o filme é meio sem nexo nenhum, mas depois de ouvir durante uma semana sobre o quanto o roteiro era maravilhoso, como dizer que é tudo uma bobagem descabida? Quem sabe com ela explicando tudo não fique mais fácil…

– Você tem que ver também, Tia! Você vai amar! – completou a moça, antes de se despedir e retornar à sua mesa. Vítor olhava para o fundo da xícara, contando os restos do café moído no fundo… Prensa francesa, melhor deixar esse último gole aqui. E ver o filme os três juntos, até que a ideia da Carmem não é ruim, e é claro que ela ia sair mais cedo para buscar o cachorro no Pet Shop ou para levar o Jorginho ao dentista…

Vítor voltou para a sua mesa e Carmem reassumiu seu lugar na recepção. Antes mesmo de o rapaz se sentar, seu telefone já tocava. Não, Tia Carmem, não é só uma quadrilha… Ela não entende que as coisas não são tão simples assim! Não é só chegar e convidar, parece bobo, mas esse pode ser o dia perfeito e tudo tem que ser feito do jeito certo! Envolve todo o planejamento da festa, de buscá-la em casa, escolher qual música colocar no carro, ver qual dos bares que tem o show do cover do U2 naquela noite e ouvir, ou melhor, aguentar um sujeito desafinando durante umas duas horas até que chegue a música de que ela gosta…

Depois de verificar a documentação de alguns cadastros e ouvir pelo telefone que já tinha que ter falado com ela há pelo menos umas duas semanas, Vítor foi avisado pelo seu estômago de que era hora de almoçar. Levantou-se e foi até a recepção para mais uma leitura de digital. Por que eles não trocam esse relógio? Sempre fila, todos os dias na hora do almoço e na hora de fechar. E sempre tem aqueles que não conseguem nem colocar um dedo no leitor… Como esse povo consegue respirar, hein? Enquanto isso, Lu aguardava atrás dele na fila:

– Vai almoçar no restaurante do Marquinhos hoje, Vítor?

No Marquinhos… Até que a ideia não é ruim… Mas ele já havia combinado de comer com seu primo na cantina da Mônica, não é legal desmarcar assim, em cima da hora. Até que tem jeito, ele deve levar mais alguém da faculdade com ele, talvez nem sinta tanta falta… Mas não, ele não poderia descumprir o compromisso, não seria certo.

– Ah, tudo bem então! Daqui a pouco a gente se encontra aqui, hoje está bem corrido mesmo…

Melhor assim, ela também está com pressa, nem ia dar muito tempo para introduzir o assunto. Ainda mais no Marquinhos, sempre tem mais alguém do escritório lá e com certeza ia contar pra todo mundo e começar aquela fofoca toda de novo…

Depois do almoço ele retornou à mesa. Mais documentos, mais papel. E como o tempo voa quando se posterga algo urgente! Um paradoxo, já que não há período mais longo do que a tarde de sexta no escritório. Carmem ainda ligou por umas duas vezes, para lembrá-lo de que o relógio não espera por ninguém. Não que precise, ele já estava refazendo seus planos. Talvez seja melhor abrir uma planilha, dá pra colocar os gastos do lado direito, carteira de estagiário, sabe? Mas daí pra frente já vai ser mais fácil, vai dar pra juntar os vales-alimentação, o plano de saúde depois que o casal fosse efetivado…

Screen Shot 2016-06-06 at 6.23.54 PM

Figura 1: O fluxo e a direção do tempo.

– Diga, Vítor!

Ele ergueu a cabeça e lá estava Lu, aguardando alguma resposta. Ou pergunta. Como assim? É telepatia agora?

– A Tia Carmem disse pra eu passar aqui, que você tinha ligado pra minha mesa e tinha dado ocupado…

Ah sim… Claro. Recepcionista? Deviam contratá-la é pra ser a arquiteta do escritório… Ele pediu alguns segundos, enquanto terminava de arquivar o último formulário de algum cliente. Que hora para ela inventar essa história… E na base da surpresa, Carmem? Assim não funciona, ora! Ainda mais com a mesa atrapalhando, as outras baias todas com seus radares ligados… Não dá, assim não dá!

Enquanto terminava de guardar o dossiê, puxou as palavras cruzadas que Lu havia lhe dado e abriu numa página qualquer. Apontou para uma das que estavam sem resposta e perguntou se podia ser “estriônico” a palavra que faltava.

– Histriônico, seu moço! É com “Hi”… Aí vai encaixar certinho, olha só!

Enquanto ela completava os quadrados, ele tentava identificar se aquele era o Carolina Herrera ou o Gabriela Sabatini… Ela gosta mais do primeiro, mas por isso mesmo costuma usar o outro para trabalhar… Mas qualquer um dá certo também…

– Prontinho! Só isso mesmo, Vítor? Já vou indo então! Até daqui a pouco!

O relógio já estava quase dividido ao meio e Carmem já havia ligado pelo menos mais dez vezes para ele. Ela o lembrou de que ele teve dois meses desde que a festa foi marcada. Mas e daí? A hora certa não apareceu, não dava pra fazer…

Antes que Lu entrasse na fila do relógio, Carmem estendeu a mão e pediu para que a garota esperasse um pouco. A Tia não podia deixá-la ir sem que experimentassem as trufas de limão que estavam na gaveta. Enquanto a mais jovem aguardava, a outra acenou para Vítor, que passava por elas em direção à escada. Ele pegou a terceira trufa e os três começaram a mastigar.

Comeram em silêncio por alguns segundos. Carmem olhava para o rapaz, que por sua vez olhava para o recheio de sua trufa. Verde… Mas limão não é verde, pelo menos não por dentro… Deve ter alguma coisa a mais aqui… A Lu come com vontade, mas ela não é tão fã assim de limão, sempre faz careta com coisa azeda… Depois de um suspiro, Carmem pediu aos dois que cuidassem da sua bolsa e foi ao banheiro.

Como todos que aguardam a hora perfeita pra fazer alguma coisa, Vítor teve que agir na bacia das almas. Depois de mais alguns segundos em que ele cruzou e descruzou os braços umas seis vezes e quase abriu uma ferida no couro cabeludo, resolveu introduzir o assunto. Nada incisivo demais, só perguntou se ela ia mesmo à festa.

– Ai, é mesmo! A festa! Rapidinho, Vítor, só um segundo! – respondeu, antes de enfiar o último pedaço do doce na boca e revirar a bolsa. De lá ela tirou o celular e deu alguns passos de volta para dentro do escritório.

Vítor também terminou seu doce enquanto ela se afastava. É justo dar uns passinhos pra mais perto agora? Tudo bem que ela se afastou, mas se ela não quisesse ser ouvida de jeito nenhum ela teria ligado lá do térreo… Tudo bem, se aproximar é um pouco demais, mas também não é o caso de ficar surdo de repente:

– Ei, Rafa, tudo bem? Aqui, não sei se te falei ontem… Vai ter a festa junina aqui da empresa amanhã, você vai, né? Não, não tem problema, ué! Todo mundo vai levar o namorado! Não, seu bobo, eu sei que a gente não tem nem duas semanas que está saindo, mas é super tranquilo, você vai adorar a Carmem e o Vítor! E eu vou amar dançar quadrilha juntinho!

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  • CONVITE
  • 2
  1. Ariana disse:

    Quem muito espera, desespera…

    07/junho/2016 ás 20:58
  2. Márcio Teixeira disse:

    É esperando que se tem certeza.

    27/junho/2016 ás 22:50

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