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CONTAMINANTES EMERGENTES (2º Capítulo): Ftalatos e Parabenos

CONTAMINANTES EMERGENTES (2º Capítulo): Ftalatos e Parabenos

Juliana Maria Oliveira Souza, Lara Ferreira Azevedo, Bruno Alves Rocha, Fernando Barbosa Júnior

Laboratório de Toxicologia e Essencialidade de Metais, Departamento de Análises Clínicas, Toxicológicas e Bromatológicas, Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (FCFRP/USP)

Edição Vol. 2, N. 03, 11 de Novembro de 2014

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.11.10.002

Nos últimos anos, com os avanços industriais e o aumento excessivo da produção e consumo de produtos industrializados e de bens de consumo, a população mundial tornou-se mais exposta aos agentes químicos que causam danos irreparáveis à saúde humana e ao meio ambiente. A comunidade científica internacional tem dedicado atenção especial aos efeitos causados pelos contaminantes emergentes, compostos como bisfenóis, ftalatos e parabenos, dentre outros. Estes estão sendo amplamente estudados em pesquisas recentes, por diversos países, na busca para saber seus efeitos tóxicos e a sua presença em amostras biológicas e ambientais, tornando fonte de exposição à população (1).

No capítulo 1, discutimos um pouco sobre a classe dos contaminantes emergentes, o bisfenol A e análogos, que também são classificados como desreguladores endócrinos (2) (veja mais em http://www.nanocell.org.br/contaminantes-emergentes-1o-capitulo-bisfenol-a-e-analogos/). Segundo os órgãos oficiais responsáveis pelas legislações e no combate a estes tipos de substâncias, um desregulador endócrino é uma substância ou classe de substâncias químicas que pode agir sobre o sistema hormonal interferindo na síntese, secreção, transporte, ligação, ação ou eliminação destes. Alem do bisfenol A, dentre esta classe de contaminantes destacam-se também os ftalatos e os parabenos (3).

Ftalatos são ésteres de ácido ftálico obtidos sinteticamente por reações químicas com diferentes álcoois. Dependendo dos álcoois empregados, moléculas com diferentes propriedades físico-químicas são obtidas e podem ser classificadas em compostos de baixo e de alta massa molecular. Os ftalatos de alta massa molecular, como di-isononil ftalato e di-isodecil ftalato, correspondem a 80% dos ftalatos que são utilizados na Europa, inclusos no Registration, Evaluation, Authorization and Restriction of Chemical substances e não são tóxicos para a saúde humana. Já os compostos de baixa massa molecular como o dibutil ftalato (DBP) e o di-2-etil-hexil ftalato (DEHP) são classificados como perigosos por este mesmo órgão (4). A Figura 1 mostra estrutura química de alguns destes ftalatos e os principais alvos biológicos destes.

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Figura 1: Fontes de contaminação dos principais ftalatos e parabenos e os alvos dos seus efeitos deletérios no corpo humano.

Os ftalatos são encontrados em certas formulações farmacêuticas, principalmente como plastificante no revestimento de embalagens de formas farmacêuticas. São também utilizados como plastificantes para promover flexibilidade e durabilidade de plásticos como o PVC, podendo ser encontrados em brinquedos, embalagens de alimentos, materiais para aplicação médica (bolsas de transfusão sanguínea e outros dispositivos médicos), roupas fabricadas com material plástico (capas de chuva), materiais de construção, perfumes, esmalte para unhas, outros produtos cosméticos (sabonetes, xampu, spray para cabelo), detergentes, óleos lubrificantes e repelentes de insetos sendo que os seres humanos estão expostos aos ftalatos através da ingestão de água e alimentos contaminados, da inalação e do contato dérmico durante toda a sua vida, incluindo o período de desenvolvimento uterino (5).

Os ftalatos têm sido extensivamente estudados e alguns não demonstraram toxicidade significativa. No entanto, os ftalatos de baixa massa molecular, apresentaram efeitos tóxicos para o sistema reprodutor de animais, sendo classificados como tóxicos por autoridades Europeias (4, 6, 7). Neste sentido, estes ftalatos são considerados desreguladores endócrinos, interferindo com os processos de desenvolvimento e a homeostase endócrina no organismo. Estes mesmos ftalatos são suspeitos de serem desreguladores endócrinos também em humanos, decorrentes de exposição sistêmica (8). Por esta razão, estes compostos não devem ser utilizados na fabricação de brinquedos, artigos para cuidados infantil, cosméticos e dispositivos médicos (4-8).

Outra classe de contaminantes emergentes que vem sendo estudada pelas entidades responsáveis são os parabenos. Estes compostos são quimicamente denominados de ésteres do ácido para-hidroxibenzóico e são utilizados como conservantes antimicrobianos em cosméticos, produtos farmacêuticos e alimentos por mais de 50 anos. As principais substâncias listadas nesta classe são o metilparabeno, etilparabeno, propilparabeno e butilparabeno (Figura 1) sendo largamente empregados na fabricação de produtos de higiene pessoal tais como, loções, hidratantes, maquiagens, desodorantes, produtos para o cabelo. Além dos cosméticos podemos encontrar estes produtos em alimentos e medicamentos. O uso constante desses produtos pela população tornou uma importante fonte de exposição humana a esses agentes químicos (9-10).

Assim como os ftalatos, estudos in vitro com os parabenos demonstraram que esta classe de substâncias é um potencial disruptor endócrino, com atividade estrogênica crescente de acordo com o comprimento da cadeia lateral de alcano (11). Oishi (12) observou que o butilparabeno apresentava um efeito adverso no sistema reprodutivo de ratos machos, e que este composto danificava as últimas etapas da espermatogênese nos testículos destes animais. Vários autores demonstraram que o uso de produtos de cuidados pessoais está diretamente relacionado com o aumento da concentração urinária dos metabólitos dos parabenos. O estudo Environment and Reproductive Health analisou a concentração urinária de 3 metabólitos de parabenos e a sua relação com o uso de produtos de cuidados pessoais em mulheres grávidas da cidade de Boston nos EUA e observou que as grávidas que utilizavam loção corporal apresentaram concentrações de butilparabeno e propilparabeno 2 a 3 vezes maiores do que aquelas que não utilizaram (13).

Em resumo, a desregulação endócrina ocasionada por estas classes de contaminantes emergentes tem sido foco de atuais discussões e estudos por parte de pesquisadores e de órgãos regulamentadores. Estes componentes tóxicos podem facilmente sofrer migração dos materiais e serem encontrados contaminando ar, água, alimentos e até mesmo entrar em contato com a saliva de crianças expostas por meio de brinquedos e artigos infantis.

Por isso os estudos envolvendo o biomonitoramento humano de bisfenol A, assim como ftalatos e parabenos em matrizes biológicas é de extrema importância, visto que esses compostos demonstraram ser disruptores endócrinos em diversos estudos, afetando o desenvolvimento de embriões e/ou crianças potencialmente expostas. Os países mais desenvolvidos já estão realizando estudos bem elaborados de biomonitoramento em suas populações, com o intuito de obter dados que possam auxiliar médicos, cientistas e agências responsáveis pela saúde pública a determinar níveis aceitáveis de exposição, bem como implementar medidas de redução da exposição à esses agentes químicos, para proteção da saúde da população. No entanto, no Brasil ainda há carência de dados referentes aos de estudos de biomonitoramento na população brasileira o que requer maior divulgação dos efeitos tóxicos e os perigos que estes contaminantes representam.

Referências

1- Silva CGA, Collins CH. Aplicações de cromatografia líquida de alta eficiência para o estudo de poluentes orgânicos emergentes. Química Nova. 2011; 34:665-676.

2- Rocha BA, Barbosa F. Contaminantes emergentes (1º capitulo): Bisfenol A e análogos. Nanocell News. 2014; 01/10/2014.

USGS United States Geological Survey. Disponível através do link <http://toxics.usgs.gov/regional/emc/index.html>.

3- USEPA. United States Environmental Protection Agency. Disponível através do link <http://www.epa.gov/esd/bios/pdf/contaminants-biosolids2.pdf>.

4- Ventrice P, Ventrice D, Russo E, Sarro G. Phthalates: European regulation, chemistry, pharmacokinetic and related toxicity. Environmental Toxicology and Pharmacology. 2013; 36:88-96.

5- Heudorf U, Mersch-Sundermann V, Angerer J. Phthalates: Toxicology and exposure. International Journal of Hygiene and Environmental Health. 2007; 210:623-634.

6- Kim, JH, Yun J, Sohng JK, Cha JM, Choi BC, Jeon HJ, Kim SH, Choi CH. Di(2-ethylhexyl)phthalate leached from medical PVC devices serves as a substrate and inhibitor for the P-glycoprotein. Environmental Toxicology and Pharmacology. 2007; 23:272-278.

7- Plasticisers and Flexible PVC Information Centre. Disponível através do link <http://www.plasticisers.org/>

8- Jurewicz J, W Hanke. Exposure to Phthalates: Reproductive Outcome and Children

Health, A Review of Epidemiological Studies, International Journal of Occupational Medicine and Environmental Health. 2011; 24:115-141.

9- Guo Y, Kannan K. A survey of phthalates and parabens in personal care products from the United States and its implications for human exposure. Environmental Science & Technology. 2013; 47:14442-14449.

10- Soni MG, Carabin, IG, Burdock, GA. Safety assessment of esters of p-hydroxybenzoic acid (parabens). Food and Chemical Toxicology. 2005; 43:985-1015.

11- Boberg J, Taxvig C, Christiansen S, Hass, U. Possible endocrine disrupting effects of parabens and their metabolites. Reproductive Toxicology. 2010; 30:301-312.

12- Oishi S. Effects of butyl paraben on the male reproductive system in mice. Archives of Toxicology. 2002; 76:423-429.

13-Braun JM, Just AC, Williams PL, Smith KW, Calafat AM, Hauser R. Personal care product use and urinary phthalate metabolite and paraben concentrations during pregnancy among women from a fertility clinic. Journal of Exposure Science & Environmental Epidemiology. 2014; 5:459-466.

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  • 1
  1. André Andreatta disse:

    Excelente artigo!

    11/novembro/2014 ás 13:49

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