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CONTAMINANTES EMERGENTES (1º Capítulo): Bisfenol A e análogos

CONTAMINANTES EMERGENTES (1º Capítulo): Bisfenol A e análogos

Bruno Alves Rocha, Fernando Barbosa Júnior

Laboratório de Toxicologia e Essencialidade de Metais, Departamento de Análises Clínicas, Toxicológicas e Bromatológicas, Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (FCFRP/USP)

Edição Vol. 2, N. 1, 01 de Outubro de 2014

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.09.29.002

Os produtos químicos industrializados são cada vez mais utilizados na sociedade mo­derna, sendo produzidos mundialmente em larga escala para as mais variadas aplicações. No entanto, a desvantagem da produção e utilização destes está nos resíduos que são gerados, sejam eles derivados diretamente das atividades industriais ou produzidos após seu consumo pela sociedade, que podem impactar de forma negativa no meio ambiente e na saúde das populações (1).

Recentemente, um dos principais focos das comunidades científicas e regulatórias refere-se à presença de um grupo de contaminantes de interesse, denominados de contaminantes emergentes. Segundo uma agência Norte-Americana, a USGS (do inglês, United States Geological Survey), um contaminante emergente pode ser definido, como uma substância química, de ocorrência natural ou antrópica, ou qualquer micro-organismo que não é normalmente controlado no ambiente, mas que tem potencial para entrar no ambiente e causar efeitos adversos ecológicos e (ou) sobre a saúde humana, sendo estes efeitos conhecidos ou suspeitos.” (2). Outra definição, com um enfoque maior nas possíveis legislações pertinentes, é dada pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (USEPA, do inglês United States Environmental Protection Agency). Segundo a USEPA, contaminantes emergentes são “poluentes que, atualmente, não são incluídos em programas de monitoramento e que podem se tornar candidatos para legislações futuras dependendo de pesquisas sobre a toxicidade, efeitos sobre a saúde, percepção pelo público e dados sobre sua ocorrência em vários ambientes” (3).

Ainda, segundo a USEPA (3) estas substâncias podem ser classificadas como: substâncias persistentes bioacumulativas e tóxicas; contaminantes orgânicos globais; produtos de higiene pessoal e produtos farmacêuticos; perturbadores endócrinos e ainda, mais recentemente, foram incluídos as nanopartículas. Os contaminantes classificados como perturbadores endócrinos também são conhecidos como disruptores endócrinos, desreguladores endócrinos ou interferentes endócrinos e são substâncias exógenas capazes de assumir ou inibir a função de hormônios naturais nos seres vivos, alterando assim as funções do sistema endócrino/hormonal e, consequentemente, prejudicando a saúde humana (4). Segundo a USEPA “um interferente endócrino é um agente exógeno que interfere na síntese, secreção, transporte, ligação, ação ou eliminação de hormônios naturais que são responsáveis pela manutenção da homeostase, reprodução, desenvolvimento e/ou comportamento”. Dentre esta classe de contaminantes destacam-se substâncias como os fitoestrogênios (sitosterol e isoflavonóides), hormônios sintéticos (etinilestradiol e mestranol), ftalatos (dietilhexilftalato e dihexilftlato), praguicidas (atrazina e endosulfan) e os fenóis (bisfenol A e bisfenol S).

Estes contaminantes químicos estão em sua grande maioria presentes nos alimentos e se tornaram uma grande preocupação para saúde pública, principalmente no que se refere a intoxicações crônicas oriundas de exposições prolongadas a baixas concentrações. Dentre estes contaminantes destaca-se o bisfenol A, por sua contaminação indireta, através da liberação a partir de embalagens para os alimentos ali contidos, e direta, através do contato com recibos contaminados ou cédulas de dinheiro. Desta forma, a exposição humana ao bisfenol A ocorre principalmente por meio da dieta além do contato com a pele (5).

O bisfenol A, 2,2-bis (4,4’-dihidroxifenil) propano, (Figura 1) é um composto químico industrial utilizado para a síntese de plásticos de policarbonatos e resinas, como também para revestimentos de embalagens metálicas de alimentos e bebidas. Possui ação antioxidante, não biodegradável e altamente resistente à degradação química sendo produzido em larga escala em todo mundo, a estimativa da produção total é de aproximadamente 6 milhões de toneladas por ano (6-8).

O bisfenol A é considerado um disruptor endócrino, pois interfere no sistema hormonal, promovendo uma série de efeitos adversos tais como a proliferação de células de câncer de mama, hiperprolactinemia e a proliferação de células do útero e da vagina alem da diminuição do tamanho da próstata, testículos, epidídimos e vesícula seminal, e ainda, na diminuição dos níveis de testosterona e a contagem de espermatozoides (4).

Estudos têm demonstrado a presença de quantidades significativas de bisfenol A não apenas em amostras ambientais como ar, água, solo, poeira, alimento, recibos de cartão de crédito e banco bem como cédulas de dinheiro, mas também em amostras biológicas de humanos, tais como urina, sangue e fluido amniótico, o fluido folicular, saliva e leite materno. Uma das principais fontes de contaminação são as embalagens de alimentos compostas de policarbonatos, apesar da vantagem da durabilidade, liberam BFA, sendo associado aos efeitos deletérios deste em humanos. Portando, temos a dieta como a principal fonte de exposição a este contaminante (9-13).

Devido ao conhecimento das ações danosas do bisfenol A sobre a saúde da população em geral, vários países através das suas instituições pertinentes vêm tomando medidas de segurança e controle deste composto. A União Europeia estabeleceu uma ingestão diária aceitável para o bisfenol A de 0,05mg/Kg de peso corpóreo por dia, valor este proveniente do Non-Obseved-Adverse-Effect Level aceito pela mesma instituição (5mg/Kg) em razão do fator de segurança 100. A União Europeia, mediante edição da EU Commission 2004, ainda fixou um limite máximo de migração especifica de 0,6 mg/Kg de material plásticos. Já no Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, ANVISA, elaborou uma legislação que trata da migração em materiais, embalagens e equipamentos plásticos destinados a entrar em contato com alimentos. Recentemente, foi editada uma nova resolução que proíbe a presença de bisfenol A em mamadeiras a partir de 2012 (14).

Para cumprir com os regulamentos voltados paras as restrições do bisfenol A, os fabricantes estão gradualmente substituindo este composto por outros compostos análogos (Figura 1) tais como, bisfenol S (4,4’-sulfonilbisfenol), bisfenol B (2,2-bis(4-hidroxifenil)butano), bisfenol F (4,4’-diidroxidifenilmetano) e o bisfenol AF (2,2-Bis(4-hidroxifenil)hexafluoropropano). Estes análogos também são usados na produção de plásticos e resinas e têm sido descritos na literatura a presença destes em quantidades significativas em diversas matrizes ambientais e biológicas (alimentos enlatados, recibos de cartão, cédulas de dinheiro, água e soro humano). Cabe-se destacar ainda que estes compostos, assim como o bisfenol A, possuem toxicidade aguda, genotoxicidade e atividade estrogênica (12; 15). Por isso, estes análogos não podem ser ignorados nos estudos de exposição humana frente a este grupo de contaminantes. Sendo assim, cada vez mais são necessários estudos detalhados sobre a exposição da população, sobretudo a brasileira, ao bisfenol A e aos compostos correlatos.

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Figura 1: Fontes de contaminação do bisfenol A e análogos e seus principais efeitos deletérios.

Referências

1- Silva CGA, Collins CH. Aplicações de cromatografia líquida de alta eficiência para o estudo de poluentes orgânicos emergentes. Química Nova. 2011; 34:665-676.

2- USGS United States Geological Survey. Disponível através do link <http://toxics.usgs.gov/regional/emc/index.html>.

3- USEPA. United States Environmental Protection Agency. Disponível através do link <http://www.epa.gov/esd/bios/pdf/contaminants-biosolids2.pdf>.

4- Rochester JR. Bisphenol A and human health: A review of the literature. Reproductive Toxicology. 2013; 42:132-155.

5- Doerge DR, Twarddle NC, Van Landigham M, Brown RP, Fisher JW. Distribution of bisphenol into tissues of adult, neonatal and fetal Sprague-Dawley rats. Toxicology and Applied Pharmacology. 2011; 255:261-270.

6- Garcia-Pietro A, Lunar ML, Rubio S, Perez-bendito D. Determination of urinary bisphenol A by coacervative microextraction and liquid chromatography-fluorescence detection. Analytica chimica Acta. 2008; 630:19-27.

7- Beronius A, Ruden C, Hakansson H, Hanberg A. Risk to all or none? A comparative analysis of controversies in the health risk assessment of bisphenol A. Reproductive Toxicology.2010; 29:132-146.

8- Daas A, Handaoui O. Extraction of bisphenol A from aqueous solutions by emulsion liquid membrane. Journal membrane Science. 2010; 348:360-368.

9- Yamamoto T, Yasuhara A. Quantities of bisphenol A leached from plastic waste samples. Chemosphere. 1999; 38:2569-2576.

10- Lim DS, Kwack SJ, Kim KB, Kim HS, Lee BM. Potential risk of bisphenol A migration from polycarbonate containers after heating, boiling, and microwaving. J. Toxicology and Environmental Health A. 2009; 72:1285-1291.

11- Vandenberg LN, Chahoud I, Heindel JJ, Padmanabhan V, Paumgartten FJ, Schoenfelder G. Urinary, circulating, and tissue biomonitoring studies indicate widespread exposure to bisphenol A. Environmetal Health Perspectives. 2010; 118:1055-1070.

12- Liao C, Kannan K. Determination of free and conjugated forms of bisphenol A in human urine and serum by liquid chromatography-tandem mass spectrometry. Environmental Science & Technology. 2012; 46:5003-5009.

13- Zhang T, Sun H, Kannan K. Blood and urinary bisphenol A concentrations in children, adults, and pregnant women from china: partitioning between blood and urine and maternal and fetal cord blood.Environmental Science & Technology. 2013 47:4686-4694.

14- Brasil. Ministério da Saúde. ANVISA. RDC nº 41, de 16 de setembro de 2011. Dispõe sobre a proibição de uso de bisfenol A em mamadeiras destinadas a alimentaçãode lactentes e dá outras providências. Diário Oficial Nº 152 – DOU – 11/08/09 – seção 1 – p.39. Disponível em <FTP://FTP.saude.sp.gov.br/ftpsessp/bibliote/informe_eletronico/2010Iels.nov.10/Iels226/U_RS-MS-Anvisa-RDC-51_261110.pdf>.

15- Liao C, Liu F, Kannan K. Bisphenol S, a new bisphenol analogue , in paper products and currency bill and its association with bisphenol A residues. Environmental Science & Technology. 2012; 46:6515-6522.

16- Liao C, Liu F, Kannan K. Bisphenol S, a new bisphenol analogue , in paper products and currency bill and its association with bisphenol A residues. Environmental Science & Technology. 2012; 46:6515-6522.

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  1. Aline Cristina Pinheiro Amorim de Melo disse:

    Parabéns pela qualidade dos texto!

    12/novembro/2014 ás 18:09

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