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COMO FUI DORMIR EM UM CAIXÃO

COMO FUI DORMIR EM UM CAIXÃO

Flávio Carvalho

Edição Vol. 2, N. 12, 18 de Maio de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.05.19.006

Eu hoje durmo em um caixão. E não, não pense em nada bonitinho como aqueles vampiros dos desenhos animados, que abrem a tampa quando o despertador toca e vão tomar alguns mililitros de sangue de café da manhã (ou da noite, na verdade). Não, com esse vampiro, a única semelhança que eu tenho é a preferência pela noite.

Sempre gostei das madrugadas, pois nessa hora as pessoas chatas estão descansando para se prepararem para a sua escravidão matinal, enquanto aqueles mais divertidos, como eu, têm toda a cidade para si, para ocupá-la do jeito certo! É a melhor hora para se divertir, conhecer gente interessante, parecida comigo, e no final de tudo voltar pra casa no sentido contrário à massa dentro dos ônibus. Nunca quis ser como eles.

Eu era, ou melhor, ainda sou um legítimo artista. Mexo com música desde moleque, quando fazia qualquer material que estivesse na mochila virar instrumento musical. Nunca gostei nem um pouco de Matemática e Química, Geografia era muito chato, Português era puro desperdício de tempo e Educação Física era para aqueles mais burros, que não davam certo com nada que exigisse um pouco de cérebro. Bobagem minha: esse desprezo era só pretexto pra passar mais tempo com o que realmente me fazia feliz.

A música me alimentava, fazia com que eu me sentisse acordado, alegre! Eu poderia me dedicar o dia todo, a semana toda para fazer com que minha produção ficasse ainda mais refinada, ainda mais precisa. Era fácil abandonar o mundo todo enquanto estivesse nos ensaios, na produção ou nas composições. Não tinha problema: eu me identificava como músico, e é isso que músicos fazem, não é mesmo?

Apesar de todo esse amor à arte, chegou um momento em que eu precisava também de sucesso. Quanta gente havia por aí na mídia, compondo e gravando coisas que eu considerava até mesmo bem piores que as minhas, enquanto eu não conseguia aparecer? Tudo bem que a atividade em si já era o que me fazia feliz, mas quando é que o pessoal iria ver que eu era bom, que eu merecia estar lá também, cercado de sucesso e dinheiro?

Comecei a trabalhar mais e mais, a fazer mais contatos e mais propaganda. Não dormia mais, não comia direito, nunca mais almocei com meus pais no domingo e o último filme que eu tinha visto já fazia três anos. Tudo em busca do reconhecimento dos outros.

Até que um dia esse tão almejado sucesso chegou. Conseguimos jogar na mídia aquele hit, fruto da ajuda de um amigo de outro amigo do primo do baixista, que acabou colocando a gente para tocar num desses programas de auditório sem sal, feitos para serem vistos enquanto se prepara o almoço. Sabe esses que juntam as coisas mais insossas e sem nexo possíveis, e que todo mundo fica com aquele sorriso engessado no rosto durante duas horas no palco? Então, esse mesmo.

Mas acabou que justamente no dia em que estávamos lá o programa virou confusão e a audiência disparou. De tabela, seria justo até chamar de dano colateral, nós acabamos também ficando famosos na internet e conseguimos aquele empurrão de que precisávamos. E como milhares de outros bons artistas por aí, esperando a chance para explodir, bastou a primeira exposição na grande mídia para que a carreira deslanchasse.

E foi aí que a trajetória até o caixão começou. Poucas semanas depois, eu era reconhecido em qualquer lugar que eu fosse e assim que alguém me notava, chovia gente em volta. Tira uma foto comigo? Assina aqui a minha camisa, minha câmera, minha carteira, minhas chaves do carro, meus cadarços dos tênis… Essa gente não parava de colar em mim, de tentar pegar um pedacinho para elas mesmas.

Até de símbolo sexual me chamaram, mesmo tendo reduzidos 53 quilos preenchendo um metro e oitenta de altura, orelhas de guidão de bicicleta e esse jeito de andar de quem carrega dois sacos de arroz amarrados na nuca.

Mas para mim isso ainda estava ótimo, eu era pura autoestima. Eu me alimentava desse carinho das pessoas, isso me fazia feliz e orgulhoso! Era tudo tão simples, tão condizente com o que eu esperei durante todo esse tempo! É verdade, a relação direta entre o sucesso do meu trabalho e o amor que as pessoas têm por mim de fato existe!

Nessa época nada poderia me afetar. Tudo era pequeno ao meu redor: eu era do tamanho dos edifícios do centro, andava pelas ruas como se as casas batessem na altura dos meus joelhos e os prédios não chegassem ao queixo. Era como qualquer criança que, depois de adulto, volta ao pátio da escola e percebe que aquele tubo de cimento em que ela e mais algum outro coleguinha entravam não passava de um metro de altura. E para caber uma pessoa desse tamanho, precisei de casas grandes, carros grandes e, é claro, uma cama de casal king size. Só pra mim.

E aí é que está a parte mais importante da história, o gatilho para o caixão: tudo isso era só para mim. Não havia ninguém pra ocupar nada disso comigo. Aquelas pessoas que me adulavam tanto não voltavam comigo pra casa e dormiam ao meu lado. Veja bem, não dormiam. Vestiam a roupa e iam embora.

Podia eu tomar café da manhã com algum bajulador? Podia caminhar no parque ou passar uma noite jogando baralho com um daqueles apresentadores de sorriso costurado ao rosto?

E ali caiu a ficha. Foi como descobrir que o Papai Noel é, na verdade, o Tio Júlio que coloca a roupa vermelha e nos distrai enquanto o Tio William coloca os presentes embaixo das camas. Um horror, mas um horror que é necessário: a hora de trocar a fantasia pelo real, aquela passagem que todos nós temos que encontrar um dia e que nos torna adultos de verdade.

Demorei pra entender, mas eu não era mesmo o vampiro; era eu quem era sugado o tempo todo.

Aquelas pessoas, na verdade, não tinham por mim nem um pingo de carinho a mais do que eu tinha por elas. Esses mil amigos, esse milhão de seguidores, não nutriam por mim sentimento algum. Era tudo tão verdadeiro quanto as histórias que eu canto por aí.

Ah, como dói estar imerso em elogios sem lastro e amor de mentira! E o mais triste da minha condição não era nem mesmo a falsidade em si, mas me dar conta de quanto tempo foi perdido, quanto esforço para conquistar algo que na verdade não vale nada! Ninguém pode se alimentar disso, tentar satisfazer a necessidade de ser amado com esse tipo de amor é o mesmo que matar a fome com jujubas toda hora.

E então tive que escolher: tentar alimentar-me desse amor de mentira, fingindo que nada havia mudado e que eu ainda me validava pelo carinho daquelas pessoas que eu nem conhecia e já não gostava? Ou assumir que eu estive errado durante esse tempo todo e passar um bom tempo sem esse tipo de afago, mas pelo menos tentando fazer o que eu agora acho que é certo?

Bem, quando colocamos a escolha dessa forma, a resposta fica fácil, não é mesmo? Não dá para continuar comendo doce na hora do almoço: é preciso se alimentar igual gente grande, de coisas sólidas e saudáveis. Sendo assim, era melhor fugir disso logo, abandonar essa vida de amor mentiroso e recuperar o que de fato me faz bem.

E para cada um que sai desse sistema, outro toma o seu lugar. Na semana seguinte já havia mais um no meu lugar, passando a ser bajulado na TV, a distribuir seus sorrisos enormes e a acreditar que era maior que os prédios.

E eu? Eu morri. E quem é morto dorme em um caixão. Morri primeiro para eles, porque é isso que acontece com quem não quer mais participar desse ciclo de mentiras. E depois para mim mesmo, afinal, precisamos de uma morte para começar de novo, não é mesmo?

Mas, quando eu acordo, não tiro um pacote de sangue da geladeira para o café. Eu pego o telefone e ligo pros meus pais, só pra perguntar se eles ainda querem jantar comigo na quinta. Ou então pro meu irmão que está perdido lá na Flórida, só pra saber se ele está comendo direito e se vai voltar antes do natal.

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  • 3
  1. Ariana disse:

    Parabéns Flávio, gostei demais desse conto!

    20/maio/2015 ás 20:46
  2. Excelente conto, Flávio, primeiro porque, de uma maneira simples, você nos presenteou com um valioso momento de reflexão sobre as nossas reais necessidades, e segundo porque o resultado da leitura é a certeza de que todos os dias temos o livre arbítrio de escolher quem queremos ser, a certeza de que o que realmente importa é caminhar junto àqueles que nos faz feliz, é ter paz, é fazer o que realmente alegra o coração…. nada mais.
    Parabéns, e muito obrigada pela oportunidade que nos foi dada em ler esse conto tão envolvente, e de grande valia.

    21/maio/2015 ás 13:54
  3. Excelente, Fávio, para cada um que sai do sistema, outro toma o lugar
    mas o bom é que há o recomeço e no seu caso específico ninguém tomará
    o seu lugar. Parabéns.

    09/junho/2015 ás 17:58

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