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COMBATENDO O CÂNCER DE PELE COM UM VÍRUS GENETICAMENTE MODIFICADO

COMBATENDO O CÂNCER DE PELE COM UM VÍRUS GENETICAMENTE MODIFICADO

Marcos Alexandre Bezerraa, Nathália Alves dos Santosb

a Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo/USP

b Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo/USP

Edição Vol. 2, N. 14, 06 de Julho de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.07.06.004

Um tratamento eficaz para acabar com o câncer de pele, e talvez, com outros cânceres também! Imagine só, usando o vírus da Herpes!

Infelizmente, não costumamos pensar na pele do nosso corpo como um órgão, mas é isso o que ela é, o maior órgão do nosso corpo, responsável pela troca de calor e água com o ambiente, encarregada de proteger os nossos órgãos internos contra traumas, radiação ultravioleta, temperaturas extremas, toxinas, bactérias, vírus e outros micro-organismos, e responsável por captar e enviar para o cérebro informações sobre calor, frio, dor e tato. Por estes e outros motivos é extremamente importante se prevenir contra o câncer de pele (1). Este tipo de câncer é definido como um conjunto de células na pele que se proliferam de uma maneira desordenada e se multiplicam com muitas alterações formando um nódulo ou uma lesão, podendo se evidenciar de uma maneira maligna. Segundo a Sociedade Americana de Câncer, a cada ano que passa há mais casos de câncer de pele do que a somatória da incidência dos cânceres de mama, próstata, pulmão e cólon (2).

Existem basicamente dois tipos de câncer de pele: melanoma e não melanoma. O mais perigoso deles é o melanoma, que se inicia justamente nas células responsáveis pela produção de pigmento (Figura 1). Estima-se, atualmente, que entre 2 e 3 milhões de novos casos de cânceres de pele do tipo não melanoma e 132 mil novos casos do tipo melanoma sejam diagnosticados anualmente. De acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA) só em 2012 foram diagnosticados 6.230 novos casos de melanomas no Brasil, o que representou 25% de todos os casos de neoplasias (3).

Para combater a progressão de novos casos de câncer de pele, pesquisadores de diversos centros biotecnológicos têm empregado e aperfeiçoado uma técnica chamada de viroterapia, a qual faz uso de vírus oncolíticos (VOs) – vírus geneticamente modificado que possui a capacidade de penetrar a célula cancerígena ou tumor, multiplicar-se no interior dessa célula e promover a lise da mesma – constituindo assim, uma terapia biologicamente promissora para o tratamento do câncer (4). Os recentes avanços na engenharia genética têm facilitado a geração de VOs, os quais podem explorar um conjunto único de mutações em um determinado tipo de câncer, como por exemplo, no câncer de pele resultando em atividade anti-neoplásica. Resultados promissores obtidos a partir dessa técnica foram publicados recentemente por um grande grupo de pesquisa do Instituto do Câncer de New Jersey, nos Estados Unidos (publicação da pesquisa em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Talimogene+Laherparepvec+Improves+Durable+Response+Rate+in+Patients+With+Advanced+Melanoma). Um grupo de 436 pacientes com melanomas malignos inoperáveis foram tratados com uma versão geneticamente modificada do vírus que causa herpes, chamado de Talimogene laherparepvec (T-Vec), programado para se replicar seletivamente em células tumorais, promover a lise dessas células e a imunidade antitumoral local e sistêmica (5).

cancer-pele

Figura 1:Tratando o melanoma (câncer de pele) com o vírus da herpes geneticamente modificado. 1) Modificações genéticas no vírus da Herpes. Os pesquisadores modificaram geneticamente o vírus da herpes T-Vec, fazendo com que ele se tornasse incapaz de causar herpes, incapaz de crescer nas células saudáveis e se tornasse atraente para o sistema imunológico. O vírus foi geneticamente programado para se replicar seletivamente dentro do melanoma maligno, ocasionar a lise ou quebra da célula tumoral e promover a imunidade antitumoral local e sistêmica. 2) Ação do vírus sobre as células do melanoma. 2A) Devido a modificação genética, o vírus da herpes reconhece os receptores específicos na superfície das células tumorais, ligam-se a esses receptores e conseguem penetrar a célula tumoral. 2B) O vírus consegue se multiplicar rapidamente no interior da célula tumoral comprometendo as principais funções da célula. 2C) Por final, o vírus ocasiona a lise da célula tumoral levando-a à morte.

Os pesquisadores foram capazes de fazer três modificações genéticas importantes. Primeiro, fizeram com que o vírus parasse de causar herpes, tornando-o assim, inofensivo para as células normais do paciente. Fizeram com que o vírus crescesse apenas nas células cancerígenas, liberando substâncias que ajudam a combater o câncer. E, por último, fizeram com que ele se tornasse atraente para o sistema imunológico mediante a liberação de uma molécula chamada de GM-CSF (do inglês Fator de Crescimento de colônias de Macrófagos e Granulócitos). Estudos de fase inicial para avaliar o potencial infeccioso provocado por este vírus sobre as células tumorais revelaram uma replicação intratumoral e expressão de GM-CSF em um perfil de segurança aceitável aos pacientes (febre baixa, calafrios, dores musculares, reações no local de injeção) após a administração sobre o melanoma maligno (5).

Os resultados do estudo mostraram que 16,3% dos pacientes submetidos à injeção com T-Vec responderam positivamente ao tratamento e ainda apresentaram remissão após seis meses. Em comparação, 2,1% do grupo controle apresentaram a mesma resposta. Os 163 pacientes em estágio 3 e início do estágio 4 do melanoma tratados com T-Vec tiveram uma sobrevida média de 41 meses, enquanto 66 pacientes em estágio precoce no grupo controle viveram durante 21,5 meses (5).

Os resultados obtidos pelos pesquisadores parecem promissores por se tratar de um trabalho inicial que utiliza um vírus no tratamento do melanoma. Dessa forma, o tratamento com o vírus T-Vec, injetado dentro do tumor, oferece uma maneira de erradicar as células neoplásicas com precisão sem comprometer as células saudáveis do paciente e sem causar uma resposta imunológica adversa ao mesmo, apresentando inclusive, uma tendência a menos efeitos colaterais que a quimioterapia tradicional ou algumas das novas imunoterapias, com perspectiva de emprego, no futuro, para combater outros tipos de câncer. Entretanto, embora este vírus da herpes represente uma opção em potencial ao tratamento de pacientes com melanoma metastático injetável, há uma grande necessidade de compreender melhor a longo prazo a ação desse vírus geneticamente modificado sobre as massas neoplásicas e as células saudáveis ao redor.

Referênciass:

1. Anadolu-Brasie R, Amin SK, Irani K, Singh A, Nouri K. Normal skin. In: Nouri K, editor. Skin Cancer. New York: Mc Graw Hill. 2008.

2. American Cancer Society. Cancer Facts & Figures. Atlanta: American Cancer Society. 2012.

3. Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Coordenação Geral de Ações Estratégicas. Coordenação de Prevenção e Vigilância. Estimativa 2012: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA. 2011.118 p.

4. Chiocca EA & Rabkin SD. Cancer Immunol. Res. 2014;2: 295–300.

5. Andtbacka RHI, Kaufman HL, Collichio F, Amatruda T, Senzer N, Chesney J et al. Talimogene Laherparepvec Improves Durable Response Rate in Patients With Advanced Melanoma. Journal of Clinical Oncology. 2015; doi: 10.1200/JCO.2014.58.3377.

6. Bonieszka B, Chiocca EA. A cross-talk network that facilitates tumor virotherapy. Nature Medicine: News and Views. 2015; 21(5): 426-427. 

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