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COBERTOR

COBERTOR

Edição Vol. 3, N. 13, 20 de Julho de 2016

Flávio Carvalho

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2016.07.21.006

– Beto, pega o Bu pra mim? – disse Emília, enquanto fechava o zíper da mala.

– Ah não, essa história de Bu já cansou, né?

– De novo, Beto? Por favor, hoje não! Eu tenho que sair logo!

Dessa vez, no entanto, ele não estava disposto a ceder:

– Chega dessa criancice! Você já é mulher feita, ora! Você está indo pra Nova Iorque palestrar pra gente do mundo inteiro e não pode deixar um cobertorzinho pra trás?

– Querido, por favor… – disse ela, agora de pé. – Dá licença, eu mesma pego então. – e começou a caminhar para buscar a sua manta que carrega desde criança.

– Não, Emília. – disse Roberto, sem sair da frente da moça. – Já chega! Deixar o marido não tem problema nenhum, né? Mas o cobertor? Ah não, o cobertor tem que ir!

– Isso tudo é ciúme do Bu, meu bem? – disse, acariciando a orelha do marido. – Meu amor, é só um cobertor cheiroso, macio, felpudo…

– Emília, é claro que não é ciúme! Só não aguento mais essa bobagem! – respondeu, retirando a mão dela do seu rosto e cruzando os braços.

– O Bu cabe na bolsa, meu bem… – recolocando a mão. – E se você coubesse eu também o levaria… Claro, se você também não tivesse que cuidar dos motoristas e daquele monte de rotas…

– Não é nada disso! Pra quê você tem que ficar carregando esse pano dependurado pra todo lugar?

– Eu gosto dele! Precisa de mais alguma coisa?

– Precisa! Tem que ter algum motivo, ué!

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Emília suspirou e voltou ao sofá enquanto ele continuou de pé. Depois de alguns segundos com a cabeça entre as mãos, ela voltou à conversa:

– Beto, vai ser assim pra sempre? Toda vez que eu tiver que viajar nós vamos brigar?

– Só porque toda vez você tem que levar esse maldito!

– Não é possível. – e afundou a cabeça de volta nas mãos.

– Não faz sentido, Emília! Só isso! Se fizesse algum sentido eu não ia falar nada, mas não faz!

– E as minhas coisas lá têm que fazer sentido pra você? – gritou enquanto se levantava. – O Bu é meu! Meu!

– Mas é claro que têm! Nós somos seres racionais, ora!

– Então pensa no que você está fazendo! Pensa! Você está me prendendo aqui por causa de uma discussão infundada e interminável!

– Você pode acabar com ela quando quiser, ué! É só deixar o cobertor…

– Nossa, que ridículo… Essa é a maior infantilidade que eu já vi!

– Infantil é ter que ficar apegada a brinquedinho de infância!

– Não, Beto. – disse, sentando-se novamente. – Infantilidade é inventar uma crise toda vez que eu fecho a mala.

Os dois pararam por um momento. Ela continuava sentada, com o olhar parado em uma das cadeiras, enquanto ele se mantinha de pé e com os braços cruzados.

– Viu? Nós não avançamos nem um pouco e olha quanto tempo já perdemos, Beto. Chega, né?

– Isso é importante pra mim! Não estou preocupado com tempo!

– Pra você, né? Sempre pra você. – e ficou novamente de pé. – Por favor, dá licença.

– Não, você não vai levar o cobertor!

– Eu deixo e levo o que eu quiser! Seu moleque!

Espremendo o corpo entre a parede e o corpo do marido, ela então foi até o quarto com passos pesados. Ele foi atrás, mas parou apoiado no batente. Lá dentro, ela puxou o cobertor que estava sobre o seu travesseiro e deu dois passos até onde Roberto estava.

De frente para o seu marido, fechou os olhos e colocou o cobertor contra o seu próprio rosto. Assim ficou por algum tempo, até que abriu os olhos, acariciou a manta e deu um beijo. – São só três dias, tá? Vou sentir sua falta. – e colocou o Bu sobre o seu travesseiro, deixando-o pela primeira vez. De seu marido, despediu-se com um rápido beijo na bochecha. – Parabéns, Beto. – e saiu para o aeroporto.

Depois de fechar a porta atrás de Emília, ele foi até o quarto dos três e parou de pé ao lado da cama, olhando para o objeto da discussão. Ali ficou parado por algum tempo, entre suspiros e algumas lágrimas, até que se deitou para dormir, acariciando o cobertor sobre o travesseiro vazio.

Seu celular vibrou na manhã seguinte. Ainda sonolento, ele tirou seu rosto de cima do Bu e se virou para ver a foto da neve acumulada na porta do hotel.

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  • 1
  1. Ariana disse:

    Que conto mais bonitinho!

    24/julho/2016 ás 21:59

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