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CIÚME

CIÚME

Flávio Carvalho

Edição Vol. 3, N. 2, 03 de Novembro de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.11.03.006

O Marcão sempre fala comigo: “Cara, mas você a deixa sair assim, numa boa? Não fica preocupado com essa tal “Noite das amigas”? Isso não te incomoda?” Ah, Marcão! Até parece que eu, sujeito crescido desse jeito, vou ficar sofrendo de ciúme… Isso é coisa de moleque, não é mesmo?

Eu nunca entendi gente como o Marcão. Agora, por exemplo, ela está lá na tal “Noite das amigas” e eu não poderia estar melhor! Já comi a minha pizza com pimentão e muita cebola, já que com ela aqui só entra quatro queijos, vi um filme do Braddock com o volume que eu quis e ainda deixei o Sly dormir em cima da cama e babar em tudo! E ainda não são nem dez horas! Garanto que a última coisa que me preocupa agora é se tem algum sujeito mais bonito que eu dando em cima dela.

Até parece… Ciúme é coisa de gente insegura, gente que não tem relacionamento maduro! Com certeza se fosse o Marcão aqui ele já teria mandado umas doze mensagens para a mulher dele! Eu não, nem olhei para o celular! Tenho os outros dois filmes para ver, mais pizza para comer também… Aposto que ele também deve abrir o telefone da mulher dele na hora que ela volta para casa e entra no banheiro!

Calma aí, só para esclarecer, eu sei que disse “também”, mas eu jamais faria isso! A gente tem que dar alguma privacidade ao outro, ora! E falando em celular, vou colocar o meu para carregar, só falta dez por cento da bateria… Que coisa, há vinte minutos eu ainda tinha vinte por cento! É melhor colocar na tomada logo… Mas e se ela ligar enquanto o telefone estiver no carregador? Talvez precise de alguma coisa, vai que a Sarah resolve que não vai deixá-la em casa…

Nessas noites eu acabo fazendo um esforço para entender melhor o Marcão e essa turma ciumenta. Ele sempre tem um papo de que relacionamento é como um investimento… É, até que eu entendo a analogia… Nós colocamos tanta energia, dedicamos tanto tempo construindo a relação, que fica difícil aceitar bem o risco de que o outro esteja pronto para fazer algo que possa prejudicá-la.

Mas talvez a questão não seja alguém colocar a sua construção no lixo de uma hora para a outra: o problema é você descobrir nesse momento que o outro não vinha depositando tantas moedas assim no porquinho e que ele não vai sentir tanto pesar quanto você com o fim de tudo. Acho que é a isso que ele se refere quando fala que o este é o investimento mais arriscado de todos. Se eu pago prestações de uma casa, no final de determinado tempo ela vai ser minha, não é mesmo? A mesma coisa acontece com uma poupança, com aquele curso que você faz depois do trabalho todos os dias…

Mas investir em um relacionamento é pagar um carnê de parcelas infinitas. E sem nenhum resgate de bens no final.

Tudo bem, até entendo o Marcão pensar assim, mas é melhor ele se lembrar de que o relacionamento não é um “Carnê do Baú”: nele a gente investe e colhe os frutos todos os dias, não vai haver o resgate no final do plano ou o dia em que o Sílvio Santos vai tirar seu papel da urna para você poder ir rodar a roda no palco. Felizmente, nesse caso o bem nunca vai ser seu. Ainda bem, senão a gente pendurava na parede e deixava acumular poeira.

É, sorte minha que no meu caso nós não temos esse tipo de problema. Aqui ninguém é dono de ninguém… Eu nem sequer preciso ficar com aquela coisa de ficar pegando e puxando ela pela mão quando estamos juntos de muita gente, ou ficar acompanhando com os olhos se ela vai cumprimentar alguém no meio da festa. Tudo bem que prefiro quando eu vou junto nessas horas, principalmente se o irmão da Sarah é quem ela está cumprimentando…

Aliás, ele deve estar lá agora, não deve? Claro que não, cara, claro que não! É que o Marcão vive falando para eu ficar de olho nele, que “o cara com quem sua mulher vai te trair é aquele que janta na sua casa” e blá, blá, blá…

Que preocupação esquisita o Marcão tem de ficar procurando e tentando evitar uma traição… É estranho, porque se ninguém possui ninguém e nem pode agir por outra pessoa, então que sentido há em querer controlar o incontrolável? Até parece que vai adiantar alguma coisa! Eu mesmo, quando resolvi dar uma vasculhada – bem rapidinha, viu? – no celular dela… Não serviu para nada! Eu não achei nada de errado, mas ela podia muito bem já ter apagado tudo ou até usar outro telefone para fazer essas coisas…

Ok, eu sei que não deveria ter olhado, mas eu tinha certeza de que o irmão da Sarah estava atrás dela! Detesto esse sujeito! Aliás, não sei por que ela ainda não o cortou de uma vez, ninguém aguenta ex-namorado que não some!

Está vendo? Já é quase uma hora e nada de ela chegar! Nada de mensagem, nem sinal de fumaça. Não que eu esteja imaginando que ela esteja com ele ou qualquer outro cara, nada disso! É só que eu me preocupo com ela na rua tarde desse jeito, tudo anda tão perigoso, não anda? Nada de insegurança de relacionamento, claro que não! Não deixo faltar nada para ela…

Pois é, talvez seja aí que esteja essa loucura do Marcão… Tudo bem, todos esses receios acabam fazendo com que ele tente arrumar alguma forma de se proteger, de evitar ser traído pela companheira. Mas eu acho que o temor não seja do evento em si ou do dano que ele cause ao relacionamento. Na verdade, o que o assusta é que talvez a traição acabe trazendo a ideia de que ele não é o suficiente, de que perdeu aquilo que tanto valorizava para alguém melhor.

Pelo menos é o que acho que sinto quando a vejo junto do irmão da Sarah. E se a própria suposição já faz essas ideias aparecerem, imagino como o sujeito que tem o fato consumado deve se sentir inferiorizado, pequeno, inadequado… E existe medo mais natural do que o da inadequação? Medo de não ser o bastante para o que se tem?

Opa! Isso é a chave cutucando a fechadura! Nossa, até que enfim! Agora é botar o Marcão para dormir e parar de remoer as ideias ruins dele!

Hora de correr para a cama e fingir que já estava dormindo.

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  • CIÚME
  • 3
  1. Não se deve , em absoluto, ter ciumes.
    Entretanto não custa nada checar o telefone
    dela 3 vezes ao dia. Agora, se a Sarah tiver um irmão
    coloque um chip em todas roupas dela.

    09/novembro/2015 ás 17:01
  2. Ariana disse:

    Constrangedora mesmo é a hora de correr para a cama e fingir que já estava dormindo.

    11/novembro/2015 ás 13:49
  3. eliana mara disse:

    Pior do que imaginar a situação, é ter um “Marcao” por perto, atiçando….atiçando…

    17/novembro/2015 ás 21:54

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