CHOCOLATE ESCURO É BOM PARA VOCÊ E PARA SEU ‘CORAÇÃO’

CHOCOLATE ESCURO É BOM PARA VOCÊ E PARA SEU ‘CORAÇÃO’

Vol. 1, N. 8, 11 de Março de 2014
DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.03.10.006

Pode parecer bom demais para ser verdade, mas o chocolate escuro é bom para você e os cientistas agora sabem o porquê. Que maravilha! Novamente estou apto a receber chocolates como presentes… E você também! O chocolate escuro ajuda a restaurar a flexibilidade das artérias e previne as células brancas do sangue de colabarem as paredes dos vasos sanguíneos. Tanto a rigidez arterial e a adesão de células brancas do sangue são fatores conhecidos em desempenharem um papel significativo na aterosclerose. Além disso, os cientistas também descobriram que o aumento do teor de flavonoides do chocolate escuro não altera este efeito.

Por que um pouco, com moderação, pode ser benéfico?

O chocolate tem sido objeto de muito frenesi da mídia nos últimos anos, porque se acredita que ele pode ajudar a proteger o sistema cardiovascular. O raciocínio é que o grão de cacau é rico em uma classe de nutrientes das plantas chamado flavonoide.

Os flavonoides ajudam a proteger as plantas de toxinas ambientais e ajudam a reparar os danos causados pelas mesmas nas plantas. Eles podem ser encontrados numa variedade de alimentos, tais como frutas e legumes (Figura 1 e Tabela 1). Quando comemos alimentos ricos em flavonoides, parece que também somos beneficiados com este poder “antioxidante”.

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Figura 1: Alimentos ricos em flavonoides. À esquerda, frutas vermelhas, uva, vinho, suco de uva, espinafre, chocolates, são alguns exemplos de alimentos ricos em flavonoides, substâncias com atividade antioxidante que protegem as plantas de toxinas ambientais e ajudam a reparar os danos causados pelas mesmas nas plantas. À direita, relação estrutura-atividade de flavonol e flavona, dois tipos de flavonoides. Em azul, substituintes menos importantes à atividade antioxidante. Em vermelho, substituintes importantes para a atividade antioxidante dos flavonoides.

Tabela 1: Relação de alimentos e tipos de flavonoides presentes nos mesmos

Grupo de Flavonoides

Alimento

Flavonoides

Espinafre, pimentas e cebola

Flavonas

Salcinha e aipo

Flavonones

Frutas cítricas

Flavonois

Chá, cacau e vinho (suco de uva)

Anticianinas

Frutas vermelhas, uvas e vinho

Isoflavonas

Derivados de soja com tofu

Antioxidantes são creditados em ajudar as células do organismo a resistirem aos danos causados ​​por radicais livres, que são formados por processos fisiológicos normais, tais como a respiração, e de contaminantes ambientais, tais como a fumaça do cigarro, a poluição da queima de combustíveis (de carros, por exemplo), inclusive das queimadas de pastos secos em cidades pequenas e de médio porte (um bom motivo para pararem de queimar o mato de terrenos baldios). Se o seu corpo não tem antioxidantes suficiente para combaterem a quantidade de oxidação que ocorre, ele pode ser danificado pelos radicais livres. Por exemplo, um aumento na oxidação pode levar as lipoproteínas de baixas densidades (LDL, do inglês, low-density lipoprotein), também conhecida como o “mau” colesterol, em formar placas ateroscleróticas ou ateromas nas paredes das artérias. As artérias são vasos sanguíneos contráteis que ajudam ao coração no bombeamento do sangue para todo o corpo. As placas ateroscleróticas ou ateromas é a deposição de gorduras no vaso sanguíneo, formando uma placa de gordura, que pode prejudicar a passagem de fluxo sanguíneo, obstruindo a luz do vaso que é a parte oca deste por onde circula o sangue (Figura 2). As suas causas principais são a alimentação rica em gorduras animais e o açúcar refinado, o tabaco, a obesidade e o sedentarismo. Às vezes é assintomático, mas com frequência causa complicações derivadas da obstrução arterial na meia-idade e na idade avançada da vida (por exemplo, a angina do peito, o ataque cardíaco, a apoplexia e a gangrena). O melhor tratamento é a sua prevenção, embora alguns sintomas se possam melhorar com a terapêutica medicamentosa (por exemplo, na angina de peito, a trinitoglicerina) ou o bypass cirúrgico (curto-circuito ou exclusão) da obstrução arterial.

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Figura 2: Placas ateroscleróticas em formação em vasos sanguíneos. Em 1 os vasos normais, sem acúmulo de gordura. Em 2, início de deposição de gordura, lipídeos modificados, principalmente LDL e VLDL. No estágio 3, há ativação das células endoteliais, que revestem o interior dos vasos sanguíneos, levando também à migração e ativação das células inflamatórias (fase 4), iniciando-se o processo inflamatório. Este, que deveria controlar a evolução do problema, acaba por complica-lo (estágio 5), recrutando células musculares lisas (que também revestem as artérias e que dão força para que ajudem ao coração a bombear o sangue) e induzem a proliferação da matriz, endurecendo as artérias, que perdem sua flexibilidade e elasticidade, não conseguindo mais impulsionar o sangue, e instala-se a capa fibrosa (6) que pode ser rompida, formando os trombos, levando ao entupimento dos vasos sanguíneos. O entupimento de vasos sanguíneos no coração é chamado infarto do miocárdio, no cérebro é chamado de acidente vascular cerebral (AVC), no pulmão de embolia, e em membros, trombose.

Os Flavanois são o principal tipo de flavonoide encontrado no cacau e chocolate. Além de ter qualidades antioxidantes, a pesquisa mostra que os flavonoides têm outras influências potenciais sobre a saúde vascular, como a redução da pressão sanguínea, melhorando o fluxo sanguíneo para o cérebro e o coração, e fazendo das plaquetas do sangue menos viscosas e capazes de coagular (1).

Estes produtos químicos de plantas não são encontrados apenas no chocolate. Na verdade, uma grande variedade de alimentos e bebidas é rica em flavonoides (Tabela 1). Estes incluem uvas, maçãs, amendoim, cebola, chá e vinho tinto. O vinho pode muito bem ser substituído pelo suco de uva, então, não estou dizendo que você deva consumir álcool, só se quiser ficar bêbado, porque a quantidade que se tem de beber é muito grande. O melhor é beber o suco de uva que, além de não conter álcool, tem os flavonóis em maior concentração.

Será que todos os tipos de chocolate são saudáveis?

Antes de pegar uma barra de chocolate ou uma fatia de bolo de chocolate é importante entender que nem todas as formas de chocolates contêm altos níveis de flavonoides.

O cacau tem naturalmente um sabor picante muito forte, que vem dos flavonoides. Quando o cacau é processado em seus produtos de chocolate favoritos, ele passa por várias etapas para reduzir esse gosto. Quanto mais o chocolate é processado (através de processos como a fermentação, alcalinizantes, assar, etc), mais flavonoides são perdidos.

A maioria dos chocolates comerciais são altamente processados​​. Apesar de ter sido acreditado que o chocolate escuro contém os mais altos níveis de flavonoides, pesquisas recentes indicam que, dependendo de como o chocolate escuro foi processado, isso pode não ser verdade. A boa notícia é que a maioria dos grandes fabricantes de chocolate está procurando maneiras de manter os flavonoides em seus chocolates processados. Mas, por enquanto, as melhores opções para nós são os chocolates escuros ao invés do chocolate ao leite (especialmente chocolate ao leite que é carregado com outras gorduras e açúcares, o que piora o ateroma), e cacau em pó, que não tenha sofrido transformações Holandesas (o cacau, quando é tratado com um alcaloide para neutralizar sua acidez natural).

E sobre toda a gordura no chocolate?

Você pode se surpreender ao saber que o chocolate não é tão ruim para você, como se acreditava.

A gordura no chocolate vem da manteiga de cacau e é composta por quantidades iguais de ácido oleico (um tipo de ácido graxo ou gordura monoinsaturada que é saudável para o coração, também encontrada no azeite de oliva), ácido esteárico e ácido palmítico. Os ácidos esteárico e palmítico são formas de gordura saturada ou ácido graxo saturado, om duplas ligações entre os átomos de carbono (Figura 3). Você deve saber que as gorduras saturadas estão ligadas a um aumento nos níveis de colesterol LDL e no risco de doença cardíaca. Veja também http://nanocell.org.br/engordando-o-cerebro-uma-breve-pesquisa/.

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Figura 3: Origem dos ácidos graxos e ação negativa (saturados ou sem duplas ligações) e positiva (insaturados, com duplas ligações) sobre o corpo humano.

Mas, a pesquisa mostra que o ácido esteárico parece ter um efeito neutro sobre o colesterol, nem aumenta nem o abaixa. Embora o ácido palmítico afete os níveis de colesterol, só se perfaz um terço das calorias de gordura no chocolate. Ainda assim, isso não significa que você pode comer todo o chocolate escuro que gostaria. Nem eu também, e olha que sou um chocólatra assumido!

Em primeiro lugar, tenha cuidado com o tipo de chocolate escuro que você vá escolher: chocolate escuro em barra caramelizado com flocos crocantes, ou coberto com marshmallow, é de nenhuma maneira uma opção de alimento saudável para o coração. Cuidado com os ingredientes extras que podem adicionar muita gordura e calorias extras. Em segundo lugar, não há atualmente, nenhuma porção estabelecida de chocolate para ajudá-lo a colher os benefícios cardiovasculares que eles podem oferecer, e é necessária mais investigação nesta área. No entanto, sei que vocês não precisam se ​​sentir culpados se gostam de um pequeno pedaço de chocolate escuro de vez em quando. O ideal é saborear o chocolate, sem mastiga-lo, só o deixando derreter em sua boca, e comendo pedaços menores possíveis em um prazo de tempo maior que consiga.

Assim, por agora, desfrute de porções moderadas de chocolates (por exemplo, 25 gramas) algumas vezes por semana, e não se esqueça de comer outros alimentos ricos em flavonoides como maçãs, suco de uva, chá, cebola e uvas.

1. Esser D, Mars M, Oosterink E, Stalmach A, Muller M, Afman LA. Dark chocolate consumption improves leukocyte adhesion factors and vascular function in overweight men. FASEB J. 2014 Mar;28(3):1464-73. PubMed PMID: 24302679. Epub 2013/12/05. eng.

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  • CHOCOLATE ESCURO É BOM PARA VOCÊ E PARA SEU ‘CORAÇÃO’
  • 1
  1. Assunto médico

    12/março/2014 ás 09:11

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