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CÉLULAS-TRONCO TRANSGÊNICAS NA REGENERAÇÃO DA PELE

CÉLULAS-TRONCO TRANSGÊNICAS NA REGENERAÇÃO DA PELE

Patrícia de Carvalho Ribeiro, Daniel Mendes Filho, Rodrigo R Resende, Ricardo Cambraia Parreira

Edição Vol. 5, N. 03, 7 de Dezembro de 2017

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2017.12.07.001

O que lhe atrai quando você vê uma pessoa pela primeira vez? Seus cabelos, sua pele, seu olhar? Certamente serão as características mais visíveis e prontamente avistadas por você. Pode ser sua roupa; depois, seu cabelo ou a falta dele; em seguida, sua pele se é clara, escura e seus gradientes de tonalidade, se é lisa ou com deformações, seus olhos, seu olhar, enfim, outras características mais finas que necessitam de maior atenção. A falta da pele pode ser o que separa você da morte, do ataque de micro-organimos. Aqui você verá que cientistas salvaram a vida de uma criança, através do uso de células-tronco transgênicas, pela reconstituição da pele! Só continuar com o melhor de todos os prazeres, a leitura!

A pele é o maior órgão do nosso corpo, reveste e assegura grande parte das relações entre o meio interno de nosso corpo, e o meio externo, em que vivemos. Além disso atua na defesa e colabora com outros órgãos para o bom funcionamento do organismo, como no controle da temperatura corporal e na elaboração de metabólitos. É constituída de derme e epiderme, tecidos intimamente unidos, que atuam de forma harmônica e cooperativa (Figura 1). É nela que crescem os pelos que nos protegem do frio, dão as características sexuais masculinas e femininas, inclusive com associação para acasalamento entre machos e fêmeas; glândulas sebáceas e sudoríparas, para controle de lubrificação e temperatura, células receptoras que percebem os estímulos de frio, calor, mecânicos e suas variações; é da pele que também surgem as unhas e córneos (ou chifres, nos animais… não pensou que fosse chifre de traição, né?!…) (Figura 1).

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Figura 1: A pele, suas divisões em derme e epiderme e seus anexos. Fonte: Adaptado de https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Histology_of_skin#/media/File:Anatomy_The_Skin_-_NCI_Visuals_Online.jpg

A epidermólise bolhosa juncional é uma doença caracterizada pela formação de bolhas pelo corpo, afetando a pele e membranas mucosas. Pode ser classificada em dois tipos: a epidermólise bolhosa juncional Herlitz (letal), e epidermólise bolhosa juncional não-Herlitz (não-letal). Na forma letal da doença, as bolhas são manifestadas desde muito cedo, desde o nascimento ou no período neonatal, e podem ser observadas malformações congênitas do trato urinário e bexiga desde o nascimento ou até mesmo antes disso (durante a gestação). Já na forma não letal, as manifestações clínicas podem ser leves, com a presença de bolhas nas mãos, pés, joelhos e cotovelos, com ou sem acometimento dos rins e vias urinárias. Alguns outros sintomas da epidermólise bolhosa juncional podem incluir ausência congênita (que está presente desde o seu nascimento) localizada de pele, milium (erupções cutâneas), hipotricose (escassez de pelos/cabelos), alterações na textura das unhas e ainda outras manifestações clínicas (Figura 2).

 

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Figura 2: Exemplo de epidermólise bolhosa juncional com ausência congênita localizada de pele e milium (erupções cutâneas). Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hand_from_a_case_of_epidermolysis_bullosa_Wellcome_L0061885.jpg

Devido à natureza e gravidade dos sintomas, a qualidade de vida dos pacientes acometidos pela doença se torna bastante prejudicada. Além disso, as feridas crônicas na pele predispõem às infeções, cicatrizes e aumentam o risco de desenvolvimento de câncer.

A epidermólise bolhosa juncional é causada por mutações nos genes: LAMA3, LAMB3 ou LAMC2, que são responsáveis pela produção de laminina-32 (uma proteína presente nas células de nosso corpo), e também por mutações nos genes que produzem colágeno XVII e ?6?4 integrinas (outras duas proteínas também presentes em nossas células). Alterações nos genes responsáveis pela produção de laminina-32, que levam à ausência dessa proteína, são comumente letais. Não há cura para a doença.

Em junho de 2015, médicos da Alemanha, do Hospital da Criança da Universidade de Ruhr, receberam um paciente de 7 anos de idade, com mutação no gene LAMB3. A criança apresentava um quadro grave de epidermólise bolhosa juncional, com presença de bolhas por todo o corpo e infecções na pele – que podem ter piorado devido ao estresse da migração, já que a criança e seus pais são refugiados sírios. Houve ainda perda da epiderme (camada mais exterior da pele) em 60% da superfície de seu corpo. A criança não tinha essa pele com sua cor e seus anexos protetores que falamos anteriormente. Ela estava passiva a ataques de quaisquer micro-organismos. Após as demais formas de tratamento falharem e seus pais aprovarem uma terapia alternativa, os médicos iniciaram os procedimentos para tratamento da criança, baseado em terapia celular e gênica.

Três meses depois da entrada do jovem paciente ao hospital foi removida uma pequena porção (4 cm2) de sua pele, de uma região saudável, sem bolhas. Esse fragmento de pele foi levado a um laboratório e as células obtidas a partir dele foram tratadas de modo a se corrigir a mutação no gene LAMB3, gerando células transgênicas, próprias da criança. Tais células, que se tornaram então saudáveis, foram mantidas em laboratório de forma a crescerem em número e até que formassem uma epiderme transgênica, de tamanho suficiente para o tratamento do paciente. A criança recebeu, por meio de cirurgias, a pele gerada em laboratório durante os meses de outubro e novembro de 2015, e também no mês de janeiro de 2016. 

Sua epiderme já estava regenerada após as cirurgias, e em fevereiro de 2016 ela já apresentava uma pele estável, sem bolhas, que não coçava, e não necessitava de medicamentos. 

Até o momento, não foi observada formação de tumores, preocupação constante relacionada à manipulação genética de células. O paciente tem sido acompanhado e, também até o momento, não foram observados quaisquer efeitos adversos do tratamento.

Os autores do trabalho concluíram ainda que a pele regenerada do paciente é mantida por células-tronco da epiderme (células com grande capacidade de renovação), as quais possuem longa duração de vida, e dão origem a outras células, de vida mais curta, também capazes de gerar células da pele. Ou seja, as células transgênicas são capazes de se auto-renovarem, assim como as células da nossa pele normalmente o fazem.

Os resultados obtidos com o tratamento do paciente com epidermólise bolhosa juncional, através do uso de pele transgênica, são extremamente animadores e representam o salto da Ciência na busca constante pelo conhecimento e desenvolvimento de melhores terapias (veja mais sobre terapia com células-tronco em: CÉLULAS-TRONCO PARA O TRATAMENTO DA DOENÇA DE PARKINSON e CURANDO FRATURAS COM CÉLULAS-TRONCO E… BOLHAS!). 

É por isso que podemos sempre dizer: ciência não é luxo, é sobrevivência!

Referências

Hirsch T, Rothoeft T, Teig N, Bauer JW, Pellegrini G, De Rosa L, et al. Regeneration of the entire human epidermis using transgenic stem cells. Nature. 2017 Nov 16;551(7680):327-332.

Pfendner EG, Lucky AW. Junctional Epidermolysis Bullosa. In: Adam MP, Ardinger HH, Pagon RA, Wallace SE, Bean LJH, Mefford HC et al, editors. GeneReviews®. Seattle (WA): University of Washington, Seattle; 2008.

 

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