Ciência é INVESTIMENTO! Vamos transformar o Brasil em uma Nação rica e forte!

CEGUEIRA E O AGUÇAR DA AUDIÇÃO: o senso comum e a observação científica

CEGUEIRA E O AGUÇAR DA AUDIÇÃO: o senso comum e a observação científica

Fernanda Maria Policarpo Tonelli, Rodrigo R Resende

Vol. 1, N. 7, 20 de fevereiro de 2014
DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.02.20.004

Você já deve ter ouvido dizer que pessoas cegas possuem os outros sentidos mais apurados; o senso comum prega que, uma vez prejudicada a visão, aguçam-se, por exemplo, a audição e/ou o tato. Esta ideia mostra-se verdadeira observando-se alguns exemplos amplamente conhecidos. Um pianista e cantor de música soul, que inovou o estilo musical R&B; um compositorcantor e ganhador de vinte e cinco Prêmios Grammy; e um produtor musical, compositor e tenor. Três grandes cegos com incrível talento para música; respectivamente: Ray Charles, Stevie Wonder e Andrea Boccelli.

Porém, existe fundamento científico para este aguçar de audição e consequente talento musical devido à falta de visão?

Nos Estados Unidos um grupo de pesquisadores liderados pelo professor Dr Patrick O. Kanold, da University of Maryland resolveu testar esta hipótese. Para isso utilizaram dois grupos de camundongos adultos (1): sendo um destes grupos mantido no escuro por uma semana, para se simular a cegueira, e outro no claro.

Eletrodos foram então posicionados no córtex auditivo primário (região do cérebro associada à percepção de sons) dos animais de ambos os grupos, com a intenção de se medir a atividade de neurônios (células do cérebro que captam, transformam e transmitem as informações que percebemos e pensamos)quando eram submetidos a diferentes sons. Os sons utilizados possuíam diferentes frequências e intensidades. Só por uma questão de detalhe que muitos se confundem, vamos explicar as diferenças entre som, tom e timbre.

timbre é o conjunto das propriedades sonoras que vem de determinado instrumento, resumindo, é o “som” que você escuta do instrumento.O tom é a entonação do som que, dependendo de fatores externos, pode ser mais alto ou mais baixo, resumindo, é a “nota” em que se baseia aquele som… por exemplo, um guitarrista escolher o “timbre” de sua guitarra é parecido com um pintor escolher a “cor” que vai usar em determinada parte da pintura. Outro exemplo, o “tom” da música é aquilo que, provavelmente, você já deve ter ouvido muito por aí… essa música está em Dó, está em Ré… são as notas musicais.

Os animais que foram previamente mantidos em ambiente escuro mostraram-se capazes de identificar até mesmo sons mais leves. Discriminaram melhor que o outro grupo com os diferentes tons dos sons aos quais foram expostos (Figura 1).

cegueira_audicao

Figura 1: Os camundongos utilizados no estudo foram submetidos a diferentes sons, após passarem ou não por privação de luz por uma semana. Através de eletrodos no córtex auditivo primário (área destacada em vermelho na representação do cérebro nesta figura) dos animais, foi possível se determinar diferenças na percepção dos sons.

Os cientistas em questão foram além; verificaram a nível celular o que a privação de visão acarreta nos neurônios para que se observe uma audição mais apurada numa situação de cegueira simulada. Identificaram que era induzida alteração na força das sinapses (é como os neurônios conversam entre si, ou seja, a comunicação interneuronal) entre neurônios dos camundongos adultos que sofreram a privação de luz.

Apesar de a alteração sensorial nos camundongos ter sido transitória no estudo, acredita-se que as observações realizadas possam ser utilizadas para se auxiliar pessoas adultas surdas que queiram recuperar sua audição. Aliado ao implante coclear, a privação de visão por períodos determinados de tempo pode vir a contribuir para se melhorar a capacidade de percepção de sons.

No entanto, ainda se fazem necessários estudos em seres humanos para que se determine se estas privações surtirão o efeito esperado, e por qual período de tempo elas devem ser realizadas.

Glossário:

Implante coclear: dispositivo eletrônico utilizado com fim de oferecer aos seus usuários sensação auditiva próxima ao normal. A cóclea é a parte auditiva do ouvido interno. O implante coclear é visto como uma boa opção aos portadores de surdez neurossensorial de severa a profunda que não têm condições de escutar e compreender a fala, ou mesmo que escutando alguns sons, essa sensação não é suficiente para o uso social ou profissional. Outro fator relevante à avaliação da possibilidade de realizar o IC é o uso prévio, sem resultados satisfatórios, de aparelhos auditivos clássicos.

Neurônio: célula do sistema nervoso responsável pela condução do impulso nervoso; neurônios próximos comunicam entre si por meio de sinapses.

Sinapse: regiões de íntima proximidade entre neurônios que permite que os impulsos nervosos passem de um neurônio para o seguinte, por meio de mediadores químicos, através de um estreito espaço conhecido como fenda sináptica.

Referências Bibliográficas:

1. Petrus E, Isaiah A, Jones AP, Li D, Wang H, Lee HK, et al. Crossmodal Induction of Thalamocortical Potentiation Leads to Enhanced Information Processing in the Auditory Cortex. Neuron. 2014;81(3):664-73.

Print Friendly

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>