Ciência é INVESTIMENTO! Vamos transformar o Brasil em uma Nação rica e forte!

CAFÉ EM DOSES MODERADAS PODE MELHORAR A ATIVIDADE CEREBRAL

CAFÉ EM DOSES MODERADAS PODE MELHORAR A ATIVIDADE CEREBRAL

Felipe Fernandes Correia, Danilo Luna Campos, Alexandre Hiroaki Kihara, Vera Paschon

Laboratório de Neurogenética / Núcleo de Cognição e Sistemas Complexos / Centro de Matemática, Computação e Cognição / Universidade Federal do ABC

Edição Vol. 2, N. 16, 17 de Agosto de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.08.17.005

Segundo a Associação Brasileira de Indústrias de Café (ABIC), o consumo de café no Brasil chegou a 4,89 Kg por pessoa em 2014, correspondendo a uma média de 81 litros por pessoa. O café é uma bebida produzida a partir dos grãos torrados do fruto do cafeeiro que muda sua composição de acordo com a espécie, local onde é produzido e técnicas de agricultura envolvidas. A composição básica que fornece o aroma e sabor único dessa bebida possui aproximadamente 100 itens, tendo como principais representantes o cafetol, ácido p-cumárico, flavanoides, ácido cafeico, tocoferol, melanoidina e cafeína.

A cafeína é um dos principais compostos ativos do café e apresenta efeitos psicoativos e estimulantes, ou seja, estimula o sistema nervoso (1) (veja mais em http://www.nanocell.org.br/o-habito-de-tomar-cafe-e-genetico/). A cafeína é um antagonista competitivo de receptores de adenosina do tipo A1 e A2a. Em outras palavras, quando a cafeína está presente no organismo pode se ligar nestes receptores, não impedindo a ação da adenosina. Este bloqueio resulta em um dos efeitos mais conhecidos do café que é o aumento do estado de alerta e diminuição do cansaço (Figura 1). O consumo moderado do café pode ter efeitos benéficos com relação à depressão e a perda da memória, pelo fato de que doses moderadas da cafeína causa regulação da plasticidade sináptica e contribui para o ajuste dos padrões de sono, do estado emocional, da memória e do aprendizado (2, 3) (veja mais em http://www.nanocell.org.br/chocolate-pode-aumentar-a-capacidade-de-memorizacao-e-beneficiar-o-cerebro-com-alzheimer/).

cafe-cerebro

Figura 1: Esquema representativo da ação da adenosina e da cafeína em receptores no sistema nervoso e os efeitos esperados.

Um estudo da Universidade de Coimbra, Portugal, testou o efeito da cafeína sobre o comportamento, resposta eletrofisiológica e modificações neuroquímicas de camundongos controles quando comparados com camundongos extremamente estressados. Camundongos que foram submetidos ao protocolo de estresse repetitivo por imobilização por três semanas apresentaram as seguintes características:

  • baixo peso corpóreo,

  • altos níveis de corticosterona (hormônio que em altas concentrações pode diminuir a atividade do sistema imunológico) no sangue,

  • comportamento de ansiedade

  • e perda de memória.

Além das alterações de comportamento, os animais estressados apresentaram alterações moleculares como diminuição da plasticidade sináptica e da densidade de proteínas sinápticas no hipocampo, região do cérebro responsável pela formação da memória.

Por outras três semanas, tanto os camundongos do grupo controle como os estressados receberam:

  1. altas doses de cafeína;

  2. bloqueador farmacológico (um inibidor) seletivo para receptor de adenosina;

  3. bloqueador da expressão gênica (que impede a produção de RNAm pelas células) não seletivo para receptores de adenosina;

  4. bloqueador da expressão gênica seletivo para receptores de adenosina do hipocampo.

Após a administração, os animais foram testados no campo aberto, nado forçado e labirinto elevado, testes comportamentais que permitem a compreensão do estado emocional e a capacidade cognitiva dos animais (4) (veja mais em http://www.nanocell.org.br/composto-experimental-melhora-a-aprendizagem-e-memoria-em-camundongos-com-sindrome-de-down/). Os resultados encontrados mostraram que a cafeína pode normalizar o humor e diminuir a ansiedade devido à regulação da plasticidade sináptica (5).

Pesquisadores americanos relataram efeito neuroprotetor da cafeína no modelo do Mal de Parkinson produzido por injeção de 6-hidroxidopamina (6-OHDA) diretamente no cérebro de ratos. Ratos machos foram divididos em 3 grupos:

  1. controle (animais lesionados por 6-OHDA) sem cafeína,

  2. cafeína 3mg/Kg e

  3. cafeína 15mg/Kg.

O grupo que foi apenas lesado por 6-OHDA apresentou menos atividade locomotora e maior número de comportamento rotativo devido ao desenvolvimento do Mal de Parkinson. Entretanto, a cafeína mostrou-se eficaz para abolir esse comportamento, aumentar a quantidade de dopamina no estriado e diminuir a ação de enzimas com ações pro-inflamatórias (6).

Pesquisas com o modelo do Mal de Alzheimer produzido por injeção de estreptozotocina no hipocampo de ratos demonstraram que a utilização crônica de cafeína pode inibir a produção de aglomerados beta-amiloide, proteína que é desregulada no Alzheimer, no encéfalo dos roedores, diminuindo a inflamação e a morte neuronal no hipocampo (7). Testes comportamentais também revelaram melhora na performance cognitiva dos animais (8) ou ao menos prevenção na redução da capacidade cognitiva ao longo da vida em ratos (9).

Entretanto, altas doses de café podem ter efeito prejudicial. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Bordeaux na França mostrou através de experimentos com camundongos, que a alta dosagem de cafeína é capaz de diminuir a capacidade de memorização e ainda elevar o estresse do indivíduo (2). Outros estudos também mostram que o consumo de mais de quatro copos de café por dia podem estar relacionados com o surgimento de úlceras gástricas, refluxo, perda de densidade óssea, aumento da pressão arterial, dores de cabeça, insônia, náuseas, tremores e aumento da ansiedade. O café também pode causar dependência, gerando irritabilidade, letargia e dores de cabeça intensas quando se interrompe o consumo (10). Porém, vale ressaltar que cada organismo processa (ou metaboliza) o café diferentemente, por isso os efeitos podem ser retardados ou acelerados e a sensibilidade à bebida pode variar de pessoa para pessoa.

Resumindo, o papel benéfico do café no sistema nervoso ainda permanece em debate.

Referências

1. Resende RR. O HÁBITO DE TOMAR CAFÉ É GENÉTICO. Nanocell News. 2014;2(3).

2. Pierard C, Krazem A, Henkous N, Decorte L, Beracochea D. Acute stress blocks the caffeine-induced enhancement of contextual memory retrieval in mice. European journal of pharmacology. 2015;761:70-8.

3. Nogueira NDR, Kihara AH, Paschon V. CHOCOLATE PODE AUMENTAR A CAPACIDADE DE MEMORIZAÇÃO E BENEFICIAR O CÉREBRO COM ALZHEIMER. Nanocell News. 2015;2(13).

4. Resende RR. COMPOSTO EXPERIMENTAL MELHORA A APRENDIZAGEM E MEMÓRIA EM CAMUNDONGOS COM SÍNDROME DE DOWN. Nanocell News. 2014;2(2).

5. Kaster MP, Machado NJ, Silva HB, Nunes A, Ardais AP, Santana M, et al. Caffeine acts through neuronal adenosine A2A receptors to prevent mood and memory dysfunction triggered by chronic stress. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America. 2015;112(25):7833-8.

6. Jones N, Bleickardt C, Mullins D, Parker E, Hodgson R. A2A receptor antagonists do not induce dyskinesias in drug-naive or L-dopa sensitized rats. Brain research bulletin. 2013;98:163-9.

7. Cao C, Cirrito JR, Lin X, Wang L, Verges DK, Dickson A, et al. Caffeine suppresses amyloid-beta levels in plasma and brain of Alzheimer’s disease transgenic mice. Journal of Alzheimer’s disease : JAD. 2009;17(3):681-97.

8. Arendash GW, Schleif W, Rezai-Zadeh K, Jackson EK, Zacharia LC, Cracchiolo JR, et al. Caffeine protects Alzheimer’s mice against cognitive impairment and reduces brain beta-amyloid production. Neuroscience. 2006;142(4):941-52.

9. Vila-Luna S, Cabrera-Isidoro S, Vila-Luna L, Juarez-Diaz I, Bata-Garcia JL, Alvarez-Cervera FJ, et al. Chronic caffeine consumption prevents cognitive decline from young to middle age in rats, and is associated with increased length, branching, and spine density of basal dendrites in CA1 hippocampal neurons. Neuroscience. 2012;202:384-95.

10. Nawrot P, Jordan S, Eastwood J, Rotstein J, Hugenholtz A, Feeley M. Effects of caffeine on human health. Food additives and contaminants. 2003;20(1):1-30.

Print Friendly

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>