Ciência é INVESTIMENTO! Vamos transformar o Brasil em uma Nação rica e forte!

BOCA DO FORNO

BOCA DO FORNO

Flávio Carvalho

Edição Vol. 1, N. 17, 07 de Setembro de 2014

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.09.08.007

Os meninos já estavam todos em frente à casa da Moniquinha. Ela não se chama Mônica, é bom que fique claro, mas como vive com cara de brava e adora vestir qualquer coisa vermelha, as crianças resolveram chamá-la assim. Mas Moniquinha não gosta muito do apelido: gosta mesmo é que a chamem de Chefa. E é ela quem comanda a brincadeira.

Essas crianças não trocam o jogo: é “Boca do Forno” e fim de papo. Todos os dias, depois da escola, se juntam no mesmo lugar e seguem brincando até o anoitecer. Moniquinha foi escolhida a mestre na segunda-feira passada e hoje já chegou começando a brincadeira:

− Oi, gente! Vamos lá? Boca do Forno!

Enquanto metade da turma começou a responder a mestre, Netinho interrompeu a brincadeira:

− Moniquinha, querida, quem te fez mestre aqui? – perguntou Netinho, com um sorriso no rosto. Tinha o mesmo nome do pai, mas como a turma conhecia mesmo era o Vovô, ficou chamado de Netinho mesmo.

− Vocês mesmos! Na segunda-feira! – respondeu, com a rispidez habitual.

− Mas hoje já é segunda de novo! Hora de escolher outro mestre!

Netinho tinha razão. Todas as segundas-feiras era dia de trocar o mestre, e ele já não aguentava mais esperar chegar a sua vez. Será que os coleguinhas vão escolhê-lo hoje? Ou pelo menos deixar que ele dispute dessa vez?

− Isso mesmo! – disse Nina, levantando a mão. – E eu também quero ser a mestre!

− Ai, lá vem a Nina de novo! – disse um garoto no meio da turma.

− É, ela é muito chata! Ninguém gosta de você, Nina! – gritou outra menina, do outro lado do bolinho.

− Isso é maldade! – esbravejou a aspirante a mestre. – Só porque eu não sou da turma da Moniquinha e do Netinho!

− Não é não, Nina! – berrou outra criança. − É porque você não sabe de nada! E porque não tem nenhum amigo! Vai procurar sua turma! – e começou a gargalhar.

Enquanto a maioria caiu na risada e seguiu ridicularizando a garota, alguns meninos começaram a ir para perto da menina. Muitos já estavam cansados de ver sempre os mesmos grupinhos de mestres e talvez a Nina não fosse tão ruim assim. Alguns nunca tinham nem conversado com ela, não sabiam sequer em que casa morava, mas só o fato de ela não se dizer amiguinha de Moniquinha ou Netinho já era o suficiente.

− Posso entrar na disputa também? – Perguntou outro garoto.

Esse era o Guelzinho. Morava na parte de cima da rua e era “bem legal”, segundo a maior parte da turma. Já tinha ajudado o Luizinho a organizar a brincadeira quando este foi o mestre, mas depois passou o resto das semanas com as crianças do seu prédio.

− Mas é claro, Guel! Ninguém aqui é proibido de participar! – respondeu rapidamente Netinho, com a etiqueta aprendida na casa do Vovô.

− Mas e eu? – retrucou Nina. – Porque ele pode e eu não posso?

− Nina, para de encher o saco! Você vai ser mestre de quem? Ninguém gosta de você! Ainda mais depois que você brigou com o Luizinho! – disse Moniquinha.

− É, é isso aí! – gritou a barulhenta turma da menina de vermelho.

− Calma, gente! – intercedeu Guelzinho, segurando a mão de Nina. – Já que eu vou tentar ser mestre, você vem comigo? Você topa me ajudar?

− Topo!

− Então está tudo certo! Amigos, já podemos começar a escolher o mestre? – perguntou Netinho.

− Vamos logo com isso que eu quero brincar hoje ainda! – ordenou Moniquinha. – Mais alguém quer ficar no meu lugar?

Outras sete ou oito crianças levantaram a mão, mas ninguém ligou muito. A turma se decidiria mesmo entre os três.

− Então vamos lá! Vamos começar logo! – gritou Moniquinha.

− É, é isso aí! – berraram seus amigos. Eles eram a maioria, e quanto mais rápido a turma votasse, melhor seria para Moniquinha.

− Amigos, vamos com calma. – disse Netinho ao ver que a menina de vermelho provavelmente seria a escolhida. – Vamos pensar direito, não vamos escolher de novo a Moniquinha. Ninguém anda gostando do jeito que ela manda em todo mundo. Anda tudo errado por aqui, ninguém tem respeito, ninguém tem educação… E só os amiguinhos dela que ganham sempre! Não dá mais, ela fez tudo errado!

O Vovô ficaria orgulhoso do quanto Netinho já se expressa como adulto.

− E os seus amigos, Netinho? – Moniquinha gritou sem nem saber se ele tinha terminado a frase. − Mês passado, quando o Rick era o mestre, vocês que sempre ganhavam!

− É, é isso aí! – veio o coro.

− Moniquinha fala mentira de novo, pessoal. – disse Netinho, se voltando para os outros meninos. – Na verdade, desde quando o Luizinho começou como mestre isso aqui está uma bagunça. Vou trazer de volta tudo o que o Rick fazia antes dele, pessoal! Aquele sim foi um bom mestre!

Seus amigos balançaram a cabeça positivamente, enquanto os amigos da Moniquinha nem queriam ouvir falar no Rick.

− Moniquinha, se você for chefa de novo a gente pode montar as duplas do jeito que a gente quiser desta vez? – interrompeu um dos meninos no meio da turma. – É que semana passada eu já perguntei isso e você falou que ia ver, mas não mudou nada…

− Meu filho, eu já passei isso pra turma decidir. O que mais você quer que eu faça? – respondeu a chefa.

Netinho aguardou a colega terminar e já foi falando o contrário:

− Eu não vejo problema algum, meu amigo. Vocês vão poder jogar com o parceiro que quiserem!

− Eu também vou deixar! – intercedeu Guelzinho. Nina olhou para ele com cara de quem não gostou muito da ideia.

− Guelzinho, você é meu amigo ou não é, hein? – indagou Moniquinha.

− É, é isso aí! – bradaram seus amigos.

Netinho rapidamente interrompeu:

− Guelzinho, não tenho problema nenhum com você, viu? A Moniquinha é que está nervosa porque tudo anda dando errado para ela. Vocês não estão vendo, gente?

Guelzinho então respondeu com calma:

− Moniquinha, eu acho que você não está fazendo as coisas direito, então eu quero tentar mudar. Vamos fazer diferente, pessoal? Eu vou…

Guelzinho, no entanto, foi interrompido. Quando os meninos perceberam, ele já estava sendo carregado no colo e colocado no carro sem que pudesse nem se despedir dos amigos. O caminhão de mudança já o esperava na porta de sua casa.

O menino foi levado para ficar junto do avô.

Todos levaram um susto com a partida de Guelzinho. Depois de um breve momento de silêncio em que os meninos se entreolharam com expressões de espanto, Netinho falou:

− Puxa, o Guelzinho era um garoto bacana. Gostava bastante dele.

− Eu também. – disse Moniquinha. – Fico muito feliz de ter sido amiga dele e principalmente de ele gostar de mim também.

Enquanto todos que não eram da turma dos barulhentos olhavam com estranhamento para a resposta de Moniquinha, Nina resolveu falar:

− Já que eu era a amiga dele, quero ser a mestre!

Nina parece que não vai sossegar enquanto não for ela a escolhida.

− Mas você não é o Guelzinho! Você vai fazer a mesma coisa que ele? – perguntou um dos meninos.

− Vou sim! – respondeu rapidamente. Só vou mudar umas coisinhas, mas nada muito importante. A gente tem que mudar os mestres de sempre, gente! Isso que importa!

Agora os meninos que gostavam de Guelzinho também foram pra perto da Nina. Juntando a esses novos amigos aquelas crianças que não gostam de nada, a garota ficou com colegas suficientes ao seu lado para deixar Netinho e Moniquinha preocupados.

− E o que você vai fazer, Nina? Além de reclamar de tudo? – perguntou Moniquinha.

− Ora, o que você não fez! Arrumar a sua bagunça!

− Bagunça? Não tem bagunça nenhuma aqui! Eu só fiz o que o Luizinho fez! E todo mundo gosta!

− É, é isso aí! – berraram os mesmos de sempre.

Netinho aproveitou que falaram em bagunça:

− Amigos, todos vocês estão vendo a confusão, não é mesmo? Pois é, nem nas semanas do Luizinho, que já foram piores que as do Rick, a gente não tinha uma brincadeira tão desorganizada. Moniquinha não sabe mandar!

Nesse momento um dos companheiros de Moniquinha rasgou uma folha do caderno e jogou uma bola de papel em Netinho. A bolinha, no entanto, acaba batendo em seu amigo Zé, que caiu no chão como se tivesse recebido uma bolada de verdade.

− Olha aí, pessoal! Essa turma da Moniquinha só serve para fazer baderna! A gente precisa acabar com isso! – prosseguiu Netinho.

Uns então começam a gritar para que Moniquinha saia, enquanto seus amigos berram com a mesma intensidade para que ela fique. Rapidamente a situação vai ficando mais caótica e começam os empurrões. Os outros garotos que queriam ser o novo mestre tentam falar alguma coisa, mas ninguém ouve mais nada.

E toda vez que um dos três aspirantes grita com os outros, o resto da turma fica mais cansado. É possível ouvir os meninos reclamando e perguntando se mais uma vez tudo ia acabar em confusão e se eles realmente têm que escolher um daqueles ali mesmo. As segundas-feiras têm ficado cada vez mais cansativas e muita gente já nem participa mais desses dias.

E os três seguem na briga sem falar nada que os meninos não tenham ouvido em todas as outras segundas. Também não parecem mais tão preocupados assim com o rumo da brincadeira – o importante para cada garoto é fazer com que todos vejam o quanto os outros dois são piores que ele.

Mas quem pode culpá-los? São apenas crianças, não é mesmo? Talvez quando crescerem um pouco eles aprendam…

Print Friendly
  • BOCA DO FORNO
  • 7
  1. Ariana disse:

    Será que o resta da turma, quando crescer, também vai aprender a escolher?

    11/setembro/2014 ás 19:50
  2. Larissa disse:

    Conto muito atual! Parabéns, Flávio!

    16/outubro/2014 ás 08:52
  3. Ana Cristina Costa disse:

    Parabéns Flávio! Texto gostoso, leve de ler. Ao mesmo tempo que tem um tom de “estória” infantil, apresenta um conteúdo bastante contextualizado com nossos adultos, com a política nossa que fica na disputa de quem é pior do que o outro em vez de focar na “brincadeira – Boca de Forno.”

    16/outubro/2014 ás 13:03
  4. Norma@samambaiagranitos.com,br disse:

    Nossa que belo escritor.Parabéns mesmo.

    16/outubro/2014 ás 15:30
  5. Vera disse:

    Parabens! Orgulhosa de vc! E que cada um coloque seu chapeu…

    22/outubro/2014 ás 04:34
  6. Lourdinha Medeiros disse:

    Parabéns Flávio!
    Que bela descoberta é a arte de escrever. Muito sucesso para você. Beijos

    26/outubro/2014 ás 23:26
  7. Flávio,
    na minha terra tinha também a brincadeira, só que o mestre gritava na rua:
    _Boca de forno!
    _Forno!
    _Fazem tudo que o mestre mandar?
    _FAZEREMOS TODOS!
    Automáticamente apareciam nas janelas de minha casa:
    minha mãe, diretora, minhas duas irmãs, professoras que também gritavam nos gozando:
    _É FAREMOS todos…
    Márcio Teixeira.

    01/dezembro/2014 ás 11:13

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>