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BICHO-PAPÃO

BICHO-PAPÃO

Flávio Carvalho

Edição Vol. 2, N. 17, 8 de Setembro de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.09.08.008

– Papai, o que é propina?

– Ha-ha! Propina, meu amor? De onde você tirou isso?

– Do moço da TV que você estava vendo…

– Ah, filha, isso é tão complicado… É coisa de adultos, ok? Posso te explicar quando você já for mais mocinha?

– Você sempre fala isso, papai!

– Vamos dormir, filha. Já vou apagar a luz, ok?

– Fica mais um pouquinho! Por favor, papai! Você fica?

– Mas já é hora de dormir, filhota! Amanhã cedinho é hora de ir para a escola…

– Mas e se o Bicho-Papão aparecer?

– Ô, pequena… O Bicho-Papão não existe, ele é de mentira…

– Não é não! Ele mora ali no armário, papai…

– Como que ele mora lá, filhona? Ninguém nunca viu… Nem eu, nem a sua mãe, nem o seu tio Carlinhos…

– Mas os meninos todos conhecem ele! Eu tenho medo, Papai!

Mesmo vivendo a mesma novela todas as noites, que pai pode ficar insensível quando a filha ameaça chorar de medo do Bicho-Papão? Tudo bem, é claro que para o adulto seria bem mais fácil se a garota entendesse que o monstro é só fantasia dela, mas vamos dar um crédito à pequena Joana: afinal, quantos dos nossos medos também só existem na nossa imaginação?

O pai, no entanto, já tem também o seu protocolo na hora de colocar a garota para dormir. E é hora de usar o seu trunfo:

– E se eu trouxer o Bolota? Aí você dorme tranquila?

– Isso, papai! Traz o Bolota!

– Ora, por que você mesma não chama, pequena?

– Bolota! Vem pra cá, Bolota! – grita a garota. – Chama ele também, papai!

– Bolota! Vem, Bolota, hora de você vir proteger aquela menina linda!

A mãe de Joana, também profunda conhecedora dos procedimentos noturnos, já entra no quarto carregando Bolota em seus braços.

– Eba! Coloca ele aqui, mamãe! Põe ele aqui em cima!

A mãe obedece e coloca o feroz guardião na cabeceira da cama. E lá está o cão em posição de sentinela, bem de frente para o armário. Hora de deixar a mocinha dormir.

– Boa noite, pequena! – disse o pai, beijando a testa da garota. A mãe faz o mesmo e sai logo atrás dele depois de ajeitar as orelhas do cão e de apagar a luz. Com o quarto escuro e com Bolota na segurança, Joana pode dormir tranquila.

Depois de algum tempo sem nenhuma movimentação no quarto, a porta do armário se move. Da pequena fresta que foi aberta, um único olho cinza pisca e vira para todos os lados, observando o que pode do cômodo.

Do armário, o Bicho-Papão avalia o cômodo e planeja seu trajeto: vai sair pela fresta, passar à direita da escrivaninha, caminhar com cuidado até chegar ao tapete que fica ao pé da cama e pular sobre a menina. Hoje é o dia do monstro!

Ele abre um pouco mais a porta e começa a colocar a sua escamosa pata com oito dedos no chão do quarto. Papão depois coloca a cabeça para fora do armário até que todo o seu pescoço esteja fora do guarda-roupa e por fim completa a sua saída colocando as suas outras cinco patas no solo.

Um, dois… Ele inicia o trajeto até Joana, que continua dormindo. Depois de mais alguns passos, contudo, ele freia, arregala os olhos e volta correndo para sua casa.

É Bolota.

Ah, Papão… É só um cachorro de pelúcia, ele não vai sair dali! Vamos lá, crie um pouco de coragem!

Mas o monstro não sabe disso. Quando olha para a cama da garota, o que vê é um cão peludo parado na cabeceira. Ele imagina seu próprio destino no meio daqueles dentes horríveis e afiados que aquela criatura vigilante deve ter. E com certeza ela foi criada especialmente para devorar Bichos-Papões um pouco mais atrevidos! Enquanto o cão fica lá, parado sobre a cabeça da menina, Papão sua e treme dentro do armário, ao passo que Joana segue tranquila com seu sono, confiante na capacidade do seu guarda-costas.

Aos poucos o monstro para de tremer, mas seu tempo vai ficando cada vez mais curto. Já é a quinta ou sexta vez que ele perde toda a noite intimidado pelo terrível cão de pelúcia. É hora de agir, Papão!

De dentro do armário da menina ele decide que vai jogar alguma coisa, talvez uma roupa ou um brinquedo, o que estiver mais fácil na hora. Assim que o objeto tocar o chão, ele imagina que aquela fera vai sair correndo atrás do engodo e então o caminho vai ficar livre. Até que o plano não parece tão ruim, Papão…

Bem, é evidente que o plano não seria tão ruim se Bolota não fosse um cachorro de pelúcia, mas se considerarmos a sua natureza inanimada, fica claro que a última coisa que ele vai fazer é correr atrás de uma bola rolando no chão.

Papão, todavia, prossegue com seu plano. Assim que joga uma bola de algodão para fora do armário, ele sai de salto do guarda-roupa para tentar pegar o cão desprevenido. Ele consegue chegar até a escrivaninha e ergue a cabeça para ver a situação. Para seu desespero, Bolota permanece no mesmo lugar.

A imagem dos olhos do cachorro novamente afugenta o monstro, que mais uma vez volta para dentro do armário. Joana e Bolota permanecem imóveis, enquanto mais suor gelado e desespero tomam conta do guarda-roupa. Poxa, Papão! Vai perder mais uma noite? Esse cachorro nem é de verdade…

Pensando bem, que diferença faz o objeto de terror ser autêntico para quem já está amedrontado? Uma vez instalado o medo, por mais fantasioso que seja o motivo, o sentimento em si é real e nesse momento é ele quem prende o monstro dentro do seu armário e o impede de conseguir passar por um cachorro de pelúcia para atacar uma garotinha adormecida.

Mas Papão não está refletindo sobre a natureza de sentimento nenhum agora. Ele ainda treme e coça o pescoço suado com suas garras. Dessa vez ele leva mais algumas horas para se acalmar, mas ainda resta tempo para mais uma investida antes de o dia amanhecer.

Sua última tentativa vai ser passar bem lentamente pelo caminho que ele já havia planejado. A diferença, porém, é que desta vez ele vai passar coberto em roupas da pequena Joana, e, se ele for devagar o suficiente, talvez o cachorro nem veja que a pilha de roupas está se movendo. É, Papão… Você não é exatamente o mais brilhante dos monstros, não é mesmo?

Mas vamos dar um desconto para o monstrinho também, coitado… Quem vai pensar direito depois de uma noite inteira de trabalho infrutífero e envolvido pelo terror de ter uma fera observando cada um de seus passos?

Papão decide sair de novo do seu esconderijo. Sob uma pilha de pequenas meias, camisetas e pijamas coloridos, ele deixa o seu armário e vai pisando, pata por pata, até que todas as seis estejam sobre o chão do cômodo. Ele avança passo a passo, completamente coberto. Mesmo não tendo sentido movimento nenhum do cachorro, o monstrinho ainda não teve coragem para fazer um buraco na sua camuflagem e ver se Bolota ainda está no mesmo lugar.

Ele prossegue, passando pela escrivaninha e chegando ao tapete. O monstro não ouve nenhum barulho e também não sente nenhum cheiro diferente, o que faz com que ele conclua que talvez seu plano tenha funcionado: Bolota não deve nem ter reparado na pilha de roupas se movendo.

A vitória está próxima, Papão já está junto ao pé da cama da criança. Ele agora começa a retirar algumas peças de cima de sua cabeça e a preparar o processo de ataque. Ele continua jogando as roupas da menina no chão, acelerando o ritmo até chegar à última peça: a camisa de pijama que cobre seus olhos.

Quando ele finalmente pode ver todo o cômodo, a luz da manhã começa a entrar no quarto, iluminando os olhos de Bolota, que ganham um brilho a mais e continuam apontados para o monstrinho. Mesmo tão perto da garota, mesmo o cachorro estando no mesmo lugar, sem se mover para lhe cravar os supostos dentes, o medo é mais forte e Papão corre chorando de volta para o armário. É, ainda não foi dessa vez.

A manhã chega e o pai volta ao quarto de Joana para acordar a filha. A porta aberta por ele golpeia a bola de algodão no chão e a joga contra um monte de roupas espalhadas pelo tapete. Ele pausa por um segundo, observa a bagunça e se coloca sentado na cama, ao lado da garota:

– Bom dia, filhona! – e passa a mão pelo rosto da menina.

– Bom dia, papai! – ela responde, coçando os olhos.

– Dormiu direitinho, filha?

– Dormi sim! – ela se levanta e abraça o pai.

– Não teve nenhum pesadelo, mocinha?

– Nada não!

– Tem certeza? Pode contar, não tem problema!

– Tive não, papai! Dormi um montão!

– E essa bagunça aqui no chão? – e aponta para a pilha de roupas.

– Não fui eu papai, não fui eu!

– Ah, filha… Você deve só ter sonhado e feito um pouco de bagunça…

– Eu não sonhei, papai! – grita a menina. – Foi o Bicho-Papão!

– Bicho-Papão, Jô? Hum… Vamos, vem se arrumar! – ele então pega a garota no colo e a leva para o banho. Quando sai do banheiro para buscar as toalhas, puxa a mãe de Joana que está no corredor:

– Amor, acho melhor a gente levar a Joana ao médico… Acho que ela anda sonâmbula…

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  • BICHO-PAPÃO
  • 3
  1. Ariana disse:

    Quem tem pena do Bicho-Papão?

    09/setembro/2015 ás 19:18
  2. eliana mara disse:

    O bicho-papão aqui é o pai, que não ouviu a filha o suficiente.

    10/setembro/2015 ás 21:43
  3. Nós criamos nossos próprios medos.

    25/setembro/2015 ás 22:39

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