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BASES NEUROQUÍMICAS DO TRATAMENTO DA DOENÇA DE PARKINSON PELA ELETROACUPUNTURA

BASES NEUROQUÍMICAS DO TRATAMENTO DA DOENÇA DE PARKINSON PELA ELETROACUPUNTURA

Talitha Amanda Sanches Bretherick1, Josne Carla Paterno2, Silvia Honda Takada1, Alexandre Hiroaki Kihara1

1 Núcleo de Cognição e Sistemas Complexos, Centro de Matemática, Computação e Cognição, Universidade Federal do ABC

2 Medicina – Disciplina de Nefrologia, Universidade Federal de São Paulo

Edição Vol. 2, N. 17, 8 de Setembro de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.09.08.005

A Doença de Parkinson (DP) é muito conhecida por seu principal sintoma, o tremor. Trata-se de uma doença progressiva, sem cura até o momento e é a segunda desordem neurodegenerativa mais comum. A DP ocorre quando há destruição de neurônios na região cerebral conhecida por substância nigra (ou negra, em português), onde diversos sistemas de neurotransmissão estão presentes, entre eles o dopaminérgico, que são responsáveis pelas respostas motoras. Com a diminuição progressiva destes neurônios, os movimentos são prejudicados, ao ponto que o indivíduo acometido não consegue mais realizar atividades básicas de seu dia-a-dia.

Considerando este cenário, há pelo menos uma década iniciou-se o estudo relacionando técnicas de medicina tradicional chinesa (MTC) e um possível retrocesso ou impedimento do avanço da DP, uma vez que os medicamentos farmacológicos utilizados no tratamento trazem também muitos efeitos colaterais e não impedem a progressão da degeneração. Para a MTC, a saúde é prejudicada quando o indivíduo não está em harmonia com a natureza, seja internamente ou em relação ao ambiente onde está inserido, ou seja, para tratar a doença deve-se reequilibrar o organismo (1). A acupuntura é uma terapêutica que trabalha com pontos específicos, auxiliando o próprio organismo a liberar substâncias químicas que proporcionam efeitos analgésicos e/ou anti-inflamatórios. Entretanto, atualmente utiliza-se a acupuntura não só para tratamento da dor, mas também o auxílio ou no retardo de diversas doenças e distúrbios, tais como depressão, gastrite, rinite alérgica, entre outros. Em algumas doenças do sistema nervoso, o efeito da acupuntura parece ser atribuído à sua capacidade antioxidante de modular a inflamação pré-existente e a disfunção glial, mas pouco se conhece a respeito das bases neuroquímicas deste efeito (2).

Em um estudo realizado pelo Instituto de Distúrbios Cerebrais de Pequim, buscou-se avaliar os efeitos neuroquímicos da eletroacupuntura (EA) no tratamento para DP e a possível ação minimizadora dos efeitos colaterais previstos pelos medicamentos. Para tal experimento, utilizou-se uma linhagem de camundongos transgênicos que apresentavam uma proteína (α-syn A53T) geradora da mutação que resulta em neurodegeneração com padrão similar à DP. Os animais foram divididos em quatro grupos: controle (não transgênico) sem tratamento de EA, controle com tratamento de EA, transgênico sem tratamento de EA e transgênico com tratamento de EA. Os estímulos foram iniciados aos dois meses de idade (quando os animais atingem a idade adulta), sendo imobilizados sem anestesia num cilindro de plástico, de forma que seus membros posteriores ficassem acessíveis para a colocação das agulhas nos pontos ST-36 (Zuzanli) e SP-6 (Sanyinjiao) da acupuntura (Figura 1). Os estímulos foram gerados a partir do equipamento Hans® (Han´s Acupoint Nerve Stimulator), em 100Hz, aumentando de 1mA a 1,2 mA e posteriormente para 1,4 mA, sendo cada estágio em 10 minutos para totalizar 30 minutos de estimulação.

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Figura 1: Esquema ilustrando a eletroacupuntura (EA) realizada em experimentos com ratos. Em detalhe, é possível observar a localização dos pontos de acupuntura ST-36 (Zuzanli) e SP-6 (Sanyinjiao).

Para avaliação motora dos animais, após 4 semanas de tratamento os mesmos foram submetidos a uma série de testes. No labirinto de campo aberto, teste que avalia a locomoção, observou-se que o grupo transgênico sem tratamento de EA teve a movimentação menor em relação aos outros grupos. Além disso, observou-se uma melhora dessa capacidade de locomoção nos transgênicos com tratamento de EA. Um segundo experimento feito em um equipamento conhecido por Rotarod, mostrou que a coordenação motora estava prejudicada em animais transgênicos, entretanto com uma melhora parcial após o tratamento (Figura 2).

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Figura 2: A: Esquema representando Open Field (campo aberto). B: Ilustração do Rotarod.

 

O tratamento de EA (eletroacupuntura) mostrou ainda prevenir a perda de peso, atrasar a idade de início da paralisia e prolongar a expectativa de vida dos camundongos portadores da mutação para a DP (Doença de Parkinson).

Além disso, foram utilizadas técnicas conhecidas por imunohistoquímica, western blotting, HPLC (cromatografia líquida de alta performance), elisa (enzyme-linked immunosorbent assay) e PCR (reação em cadeia da polimerase). Estas metodologias indicaram um nível menor da proteína α-syn A53T no mesencéfalo e corpo estriado de animais tratados com EA em relação aos não tratados, apesar de não alterarem sua expressão gênica. Citocinas pró-inflamatórias, como TNF-α e IL-1β mostraram-se também reduzidas na substância nigra e no estriado com o tratamento de EA.

Em pessoas que apresentam doenças degenerativas ou sofrem lesões nervosas, ocorre um processo chamado de astrogliose, ou gliose reativa, que se trata da hipertrofia e do aumento abusivo de astrócitos (células que atuam no suporte metabólico de neurônios e da transmissão de informações). Sujeitos tratados com EA apresentaram diminuição de astrócitos, o que indica um possível retardo no processo da astrogliose, mantendo as conexões neuronais mais preservadas que em animais não tratados.

Uma descoberta muito importante deste estudo foi realizada a partir da avaliação por HPLC, onde foi detectada uma diminuição de dopamina no corpo estriado (outra região envolvida com o controle motor) de animais que não receberam o tratamento de EA e a reversão desta diminuição com o tratamento de EA. Mas os cientistas não pararam por aí. Através das técnicas de imunohistoquímica, descobriram que os neurônios dopaminérgicos da substância nigra e os neurônios motores presentes nas regiões cervical e lombar da medula espinhal foram preservados com o tratamento de EA, tanto em animais com a deficiência motora, como em animais controle, em relação aos animais que não receberam o tratamento.

No estudo apresentado, a EA se mostrou eficiente em diminuir a velocidade de progressão da DP em vários aspectos, tanto contendo o processo de neuroinflamação e a neurodegeneração, como prevenindo perdas funcionais. Portanto, juntamente com tratamentos farmacológicos, a terapêutica com EA poderia minimizar o sofrimento para os indivíduos acometidos pela doença, promovendo melhoras em sua qualidade de vida.

Referências

1. Marcucci FCI. Acupuntura na doença de Parkinson: revisão de estudos experimentais e clínicos. Rev. Neurocienc. 2007; 15/2;147-152.

2. Deng J, Lv E, Yang J, Gong X, Zhang W, Xibin L, Wang J, Jia J, Wang X. Electroacupuncture remediates glial dysfunction and ameliorates neurodegeneration in the astrocytic α-synuclein mutant mouse model. Journal of Neuroinflammation. 2015; 12:103.

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  1. carlos alberto disse:

    tenho parkinson a mais de 15 anos gostaria de mais conhecimentos.

    31/março/2017 ás 09:38

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