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APAGAR A MEMÓRIA: Verdade ou Ficção?

APAGAR A MEMÓRIA: Verdade ou Ficção?

Luiz Fernando Rodrigues Gall, Vera Paschon, Alexandre Hiroaki Kihara

Laboratório de Neurogenética / Núcleo de Cognição e Sistemas Complexos / Centro de Matemática Computação e Cognição / Universidade Federal do ABC

Vol. 1, N. 12, 03 de Junho de 2014
DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.06.03.004

Uma possibilidade abordada frequentemente na ficção científica é o processo de apagar a memória de um indivíduo, seja por equipamentos sofisticados, drogas ou hipnose. Mas seria tal possibilidade apenas ficção? Seria possível de fato apagar algum evento da memória de um indivíduo? Esse assunto tem recebido grande atenção da comunidade científica e levanta discussões sobre a natureza da memória. Existem diversos paradigmas, ou modos como se entende o que é a memória. O paradigma utilizado em um estudo conduzido por pesquisadores britânicos divide o processo de memorização em três etapas: a memória sensorial, a de curto prazo e a de longo prazo, cada qual com suas funções e características distintas (Figura 1). De acordo com evidências encontradas é de fato possível apagar informações da memória de curto prazo, porém ainda está em debate se o mesmo é possível na memória de longo prazo.

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Figura 1: Modelo de memória de curto prazo: a informação é processada inicialmente no nível sensorial (ou memória sensorial) e posteriormente pela memória de curto prazo. Após estas etapas, a informação pode ser esquecida ou consolidada na memória de longo prazo.

Estes pesquisadores realizaram um experimento em que indivíduos foram apresentados a um cenário virtual. O cenário era uma oficina contendo diversas ferramentas (martelo, furadeira, etc.) que apareciam e desapareciam. Os indivíduos foram instruídos a sinalizar quando um objeto aparecesse, e manter a atenção fixa nele até que desaparecesse e aparecesse um novo objeto. Em cada teste, foram apresentados de 6 a 10 objetos pareados. Para ter certeza de que os indivíduos fixavam os objetos, seus olhos foram monitorados por uma câmera ocular. Ao final do experimento realizou-se um novo teste discriminatório checando a memória em relação a algum objeto presente durante o teste. Para indicar qual objeto apareceria, a apresentação deste era seguida de um som. Um som agudo indicava um possível objeto a ser checado no final e um som grave um menos provável. Quando o som agudo aparecia duas vezes surgia uma situação em que o indivíduo passava a priorizar o segundo objeto e o primeiro era “apagado” da memória. Os cientistas perceberam que a memória dos objetos “apagados” era similar à memória dos objetos que não foram sinalizados, enquanto os mais sinalizados foram “mais lembrados” que os restantes. Assim, concluiu-se que quando um objeto era julgado irrelevante pela pessoa, este era descartado da memória de curto prazo, mesmo que já tivesse sido sinalizado como importante anteriormente.

Outro experimento abordou a análise neurofisiológica de indivíduos instruídos a “esquecer” determinados grupos de objetos. Examinou-se o potencial elétrico relativo (EPR) e a atividade contralateral de atraso (CDA), conhecidos por indexar e manter itens na memória de curto prazo. Quando os indivíduos eram instruídos a esquecer-se de determinados objetos, ocorria algo semelhante ao experimento anteriormente, e a CDA responsável por estes desaparecia.

Estes experimentos restringiam-se apenas a manipulação da memória de curto prazo e não indicavam alteração na memória de longo prazo. Um fator determinante que dificulta o estudo desta é o modo como os experimentos são realizados, através da repetição de estímulos. Esta metodologia pode comprometer a credibilidade do estudo sobre os efeitos do experimento na memória de longo prazo. Os cientistas ainda tentam entender como de fato funcionam os mecanismos destas memórias: seria a memória de curto prazo um subconjunto da memória de longo prazo? Ou, alternativamente, um “filtro” das informações que chegam nesta? De fato, alguns pesquisadores argumentam que impedir, ou suprimir, uma informação na memória de curto prazo impede que esta chegue perfeitamente na memória de longo prazo, causando uma memória “ruim”, alterada, ou imprecisa sobre esta informação.

O paradigma de três memórias ainda está em debate e alguns cientistas não acreditam na existência de uma memória de curto prazo. Entretanto, o estudo realizado utilizando tal paradigma nos oferece informações interessantes a respeito do funcionamento da memória e levanta ainda mais questões a serem feitas sobre a natureza desta. Existiriam outras “partições” além da memória de curto prazo? Seria possível manejar o conteúdo das memórias? Seria realmente possível um júri separar uma linha de questionamento durante um julgamento? No momento, os cientistas planejam experimentos sem estímulos repetitivos, que não interfiram na memória de longo prazo, para que no futuro seja possível fazer mais descobertas e talvez responder tais questões.

 

Referências bibliográficas:

1. Maxcey AM, Woodman GF. “Can we throw information out of visual working memory and does this leave informational residue in long-term memory?”, 8 de abril de 2014.

2. “Human memory”. http://aaboori.mshdiau.ac.ir/FavouriteSubjects/human_memory.htm 

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  • 1
  1. Luan disse:

    Isso pode existir?

    10/julho/2017 ás 23:20

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