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Isabelle D. Cavalcante1, Augusto D. Cavalcante1, Northon O. R. Brito1, Marcello R. Brito Júnior2 e Ricardo C. Parreira3

1Acadêmico(a) de medicina da Universidade Evangélica de Goiás (UNIEVANGÉLICA), 75083-515, Anápolis-GO, Brasil.

2Acadêmico de medicina do Centro Universitário de Mineiros (UNIFIMES), Campus Trindade, 75380-307, Trindade-GO, Brasil.

3Professor do curso de medicina do Centro Universitário de Mineiros (UNIFIMES), Campus Trindade, 75380-307, Trindade-GO, Brasil.

Edição Vol. 8, N. 11, 29 de Novembro de 2021

Em 1954, foi encontrado em Nippur (atual Iraque), o que se acredita ser a primeira lista de medicamento do mundo. Datada de 2.100 a.C., essa lista menciona a “planta da felicidade”. Os vários estudos conduzidos até o momento permitem concluir que essa planta é a Papoula. O suco extraído do fruto dessa planta, conhecido como Ópio (contém cerca de 12% de morfina), era utilizado como sedativo. Ademais, existem indícios de que os egípcios cultivavam grandes plantações de papoula ao redor da capital Tebas, por volta de 1.300 a.C. Nota-se, portanto, que desde a Antiguidade, a humanidade busca alívio para suas dores (1,2).

No século IX, registros apontam que médicos árabes utilizavam, para os procedimentos cirúrgicos, uma anestesia administrada por inalação composta por ópio, mandrágora, cicuta e hiosciano. Anos mais tarde, no final do século XII, relata-se a utilização de um anestésico com composição muito similar na Europa. Outrossim, historiadores apontam também, que os chineses usavam para aliviar a dor, além da acupuntura, o fumo do cânhamo, o meimendro e o álcool (1,2).

Em 1804, no Japão, o cirurgião Seishu Hanaoka fez uso, com sucesso, da escopolamina, substância extraída de uma planta chamada estramônio, para anestesiar uma paciente. Em homenagem ao cirurgião, a imagem dessa planta está representada, até os dias de hoje, na logomarca da Sociedade Japonesa de Anestesiologistas (1).

Anos mais tarde, iniciou-se o uso de éter para fins anestésicos. Ele era administrado sobre uma toalha que em seguida era aplicada sobre o nariz do paciente. No entanto, sem o efetivo controle do volume aplicado, em 1818, Michael Faraday advertiu sobre a necessidade de maiores cuidados ao se usar o éter. Além disso, Faraday notou muitas semelhanças entre a inalação do éter e a do óxido nitroso, o que sugeriu uma possível substituição ao éter. Porém, com a documentação de algumas mortes após a inalação de óxido nitroso na Inglaterra, houve o regresso ao uso do éter (3).

Nesse contexto, em 1846, Willian Morton desenvolveu um inalador de éter, sendo considerado o primeiro dispositivo para anestesia da história. Diante desse feito, estudiosos afirmam que Morton marcou decisivamente o mundo com a primeira resposta efetiva ao velho anseio da humanidade de controlar a dor (3,4).

O médico londrino John Snow, identificou alguns riscos dos anestésicos e procurou estratégias para superar limitações nos procedimentos cirúrgicos com anestesias. Pelo seu interesse pioneiro pela insensibilidade cirúrgica, ele é considerado o primeiro médico anestesista do mundo. Outrossim, ele analisou profundamente o inalador de éter de Morton e percebeu que havia necessidade de otimização do equipamento, desse modo, em 1847, projetou um novo inalador com uma câmara de vaporização (1).

Nesse mesmo ano, James Young Simpson introduziu o uso do clorofórmio como anestésico. Anos depois, em 1862, Joseph Thomas Clover desenvolveu um equipamento para administração precisa do clorofórmio na anestesia, auxiliando na prevenção de sobredoses do anestésico. Outros dispositivos similares ao de Clover foram projetados, a exemplo tem-se o inalador de Sansom (1865) e o aparelho de Junker (1867) (4).

Outro importante legado no campo da anestesiologia foi o desenvolvimento da técnica de anestesia epidural (com uso da novocaína como anestésico) pelo médico espanhol Fidel Pagés, há 100 anos atrás (1921). Sua técnica foi utilizada para várias intervenções cirúrgicas, tais como a apendicectomia, herniorrafia, colecistectomia e hemorroidectomia. Anos mais tarde, em 1935, a anestesia epidural começou também a ser explorada na obstetrícia (5).

Até meados do século XX, os anestesiadores não possuíam formação específica. Nesse contexto, o médico norte americano Ralph Waters, que também praticava anestesia, iniciou a reflexão sobre a necessidade de profissionalização de médicos na anestesia. Nesse sentido, impulsionado por demandas, principalmente no contexto de guerras, foram criados cursos e estágios em anestesiologia. É importante ressaltar, que os americanos e ingleses tiveram uma expressiva contribuição para progresso da anestesiologia nesse período (3).

Em 1952, registrou-se uma grave epidemia de poliomielite na Dinamarca. Alguns doentes chegavam aos hospitais com paralisia dos músculos da deglutição e consequente risco de aspiração e/ou dificuldade respiratória. Sem uma terapêutica eficaz, o anestesista dinamarquês Bjørn Ibsen, propôs o recurso a ventilação manual com intubação traqueal. O resultado foi a redução da mortalidade de 90% para menos de 20%. A partir de então, surgiu a primeira Unidade de Cuidados Intensivos. Desse modo, o anestesista Bjørn Ibsen é considerado o fundador da Medicina Intensiva (1,3).

Já no contexto brasileiro, o médico Augusto Brandão Filho, implantou, em 1929, no hospital onde trabalhava, um departamento de Anestesia. Seu sucessor, Mário Castro d’Almeida Filho, foi o responsável por difundir os conhecimentos e experiências em anestesia por todo país. Ressalta-se ainda, que durante a Segunda Guerra Mundial, com o retorno da Força Expedicionária Brasileira da Inglaterra, o aprendizado prático das técnicas de anestesia em solo europeu foi difundido no Brasil, dando origem ao primeiro curso de Anestesia no país (1,6).

Ademais, destaca-se que uma reunião de iniciativa de Antonio Patury e Souza e Oscar Vasconcellos Ribeiro, culminou na fundação, em 1948, da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA), constituindo uma federação de associações regionais, com sede e foro na Cidade do Rio de Janeiro. A partir desse momento, houve um expressivo crescimento da anestesiologia no Brasil, sobretudo em 1951 com o lançamento da Revista Brasileira de Anestesiologia (RBA) que tinha como objetivo difundir no cenário brasileiro e internacional o fortalecimento da anestesiologia em suas diversas áreas, como por exemplo, a terapia intensiva, a reanimação cardiorrespiratória, o controle da dor e a medicina perioperatória (1,7).

Segundo as últimas atualizações do Conselho Federal de Medicina (CFM), o país conta com 25.484 anestesiologistas, além de 3.817 médicos cursando Residência Médica em anestesiologia. Com o cenário atual (2021) da pandemia causada pelo vírus SARS-CoV-2, houve a necessidade de uma reorganização dos serviços de saúde, evidenciando o papel crucial do anestesiologista, confirmando as suas competências em emergência, medicina intensiva e perioperatória, bem como, na salvaguarda da segurança dos doentes e profissionais de saúde (8).

É preciso alertar que estudos recentes apontam que a rotina desses profissionais é intensa e com alta probabilidade de desencadear manifestações clínicas de burnout, como fadiga, cefaleia, aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, distúrbios do sono e da alimentação e instabilidade emocional e nos casos mais graves o suicídio. Pelo contexto pandêmico vivido, os sinais e sintomas podem ser exacerbados. Por isso, a recomendação anterior a pandemia para o acompanhamento contínuo com psicólogos e psiquiatras, atualmente torna-se mandatória (3,9,10).

Por fim, nota-se o grande aprimoramento da Anestesiologia como ciência médica no decorrer dos anos. Desse modo, em pouco mais de um século, os “simples” dispositivos para a administração de anestésicos deram lugar a sofisticados aparelhos anestésicos com alta densidade tecnológica. Ressalta-se que esse avanço é resultado do empenho conjunto de vários profissionais, nos diferentes períodos da história, para se obter o máximo de analgesia com o mínimo de efeitos colaterais. Portanto, é imprescindível o ininterrupto investimento em pesquisas, bem como a valorização dos pesquisadores, a fim de dar continuidade a evolução da anestesiologia, honrando o legado secular que nos foi ofertado.

Referências

  1. MANICA, J. Anestesiologia. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
  2. DUARTE, D. F. Uma Breve História do Ópio e dos Opióides. Revista Brasileira de Anestesiologia, [S. l.], v. 55, n. 1, p. 135–146, 2005.
  3. TAVARES, J. A Anestesia de 1846 até à Anestesiologia de Hoje: Três Roturas. Revista da Sociedade Portuguesa de Anestesiologia, [S. l.], v. 30, n. 2, p. 74–77, 2021.
  4. ROMERO-ÁVILA, P.; MÁRQUEZ-ESPINÓS, C.; AFONSO, J. R. C. Desenvolvimento histórico do aparelho de anestesia: de Morton à integração do ventilador mecânico. Brazilian Journal of Anesthesiology, [S. l.], v. 71, n. 1, p. 148–161, 2021.
  5. VICO, M. Fidel Pagés: Centenário da Descoberta da Anestesia Epidural. Revista da Sociedade Portuguesa de Anestesiologia, [S. l.], v. 30, n. 1, p. 26–28, 2021.
  6. ACN – ACADEMIA NACIONAL DE MEDICINA. Augusto Brandão Filho. Disponível em: <https://www.anm.org.br/augusto-brandao-filho/>. Acesso em: 4 out. 2021.
  7. CARMONA, M. J. C. Sete décadas apoiando a pesquisa em anestesiologia. Brazilian Journal of Anesthesiology, [S. l.], v. 71, n. 6, p. 593–594, 2021.
  8. PEDREIRA, J. et al. Resposta da Anestesiologia Portuguesa à Pandemia por COVID-19. Revista da Sociedade Portuguesa de Anestesiologia, [S. l.], v. 29, n. 2, 2020.
  9. SOUSA, A. R. C.; MOURÃO, J. I. B. Burnout em anestesiologia. Revista Brasileira de Anestesiologia, [S. l.], v. 68, n. 5, p. 507–517, 2018.
  10. SCHEFFER, M. et al. Demografia Médica no Brasil 2020. Disponível em: <https://www.fm.usp.br/fmusp/conteudo/DemografiaMedica2020_9DEZ.pdf>. Acesso em: 6 out. 2021.

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