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AFINAL, A CAFEÍNA FAZ BEM OU MAL? Relação Com Memória E Doença Renal Pocística

AFINAL, A CAFEÍNA FAZ BEM OU MAL? Relação Com Memória E Doença Renal Pocística

Edição Vol. 3, N. 8, 18 de Março 2016

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2016.03.18.002

A percepção popular da cafeína é tão variável como o tempo e para cada pessoa que afirma que a cafeína é prejudicial para a saúde haverá outra alegando que não faz mal. É como aquela história de que, antes a gordura era o mal que causava o infarto, hoje, ao contrário do que se pensava, os carboidratos em excesso é que levam ao acúmulo de gordura que, por conseguinte, levam ao entupimento das artérias (1, 2) (veja mais em http://www.nanocell.org.br/dieta-rica-em-vegetais-reduz-os-niveis-de-colesterol-ruim-em-seres-humanos-com-micrornas/).

Em outras situações, a cafeína mostra-se altamente favorável à saúde cerebral, claro, em doses moderadas. O consumo moderado do café pode ter efeitos benéficos com relação à depressão e a perda da memória, pelo fato de que doses moderadas da cafeína (4 doses de café diárias) causa regulação da plasticidade sináptica (a reformulação das ligações entre os neurônios, que em última instância, pode ser a formação de novas ideias) e contribui para o ajuste dos padrões de sono, do estado emocional, da memória e do aprendizado (3, 4) (veja mais em http://www.nanocell.org.br/chocolate-pode-aumentar-a-capacidade-de-memorizacao-e-beneficiar-o-cerebro-com-alzheimer/).

No entanto, e isso deve ficar bem esclarecido que, para determinadas doenças, a cafeína, seja do cafezinho ou dos chás, ou mesmo dos refrigerantes (sim, nos refrigerantes também há cafeína, seja para viciar e incentivar mais o hábito de bebe-los ou “para ajudar no sabor”) pode ser altamente prejudicial, mas não confirmado. Então, o uso de bebidas que contenham cafeína é desaconselhável! Como é o caso da doença real policística (DRP, ou em inglês, Polycystic Kidney Disease, PKD). Veremos abaixo que, 4 doses diárias de café, podem ser facilmente toleradas. Vejamos então!

A PKD é uma doença genética que afeta os rins e tem caráter progressivo. Ocorre em seres humanos e em alguns outros animais. A PKD é caracterizada pela presença de vários cistos (daí o termo “policístico”) em ambos os rins. A doença também pode acometer o fígado, o pâncreas, e mais raramente o coração e o cérebro. No caso dos rins pode levar a falência, isto é, perda total de sua função sendo necessário o transplante renal. A PKD é tema de outra matéria abordado aqui, no NANOCELL NEWS (http://www.nanocell.org.br/DOENÇA-RENAL-POLICÍSTICA-Novos-Tratamentos/).

Muitos pacientes de PKD, em algum momento, receberão a notícia de que devem limitar a ingestão de cafeína – um grande número de médicos, nutricionistas e acadêmicos propõem a ideia em clínicas, sites da internet e em artigos científicos, na medida em que cerca de 63% dos pacientes com PKD devem evitar o consumo de bebidas ou outros alimentos que contenham cafeína (5).

ALGUMA INFORMAÇÕES

O nome químico da cafeína é 1,3,7-trimetilxantina e tem a fórmula abaixo (Figura 1):

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Figura 1: Estrutura molecular da Cafeína (Image: chem242.wikispacesclassroom.com)

A cafeína tem várias ações, algumas das quais foram abordadas acima em relação a memória, mas a mais relevante para a PKD é que ela aumenta os níveis de cAMP (monofosfato de adenosina cíclico, do inglês, cyclic adenosine monophosphate). E o que é cAMP e o que ele faz na PKD?

O cAMP é uma molécula sinalizadora que age intracelularmente, dentro da célula. Quando um mensageiro, como a cafeína, atinge um receptor na superfície da célula, gera uma resposta dentro da mesma. Em outras palavras, esse receptor, que recebe a informação da cafeína, traduz essa informação para uma resposta dentro da célula (6) (veja mais em http://www.nanocell.org.br/vias-de-sinalizacao-celular-podem-ajudar-a-entender-melhor-o-ebola/).

Na PKD, o cAMP tem duas ações:

  • Primeira, exerce um efeito proliferativo, isto é, aumenta a divisão celular em células epiteliais tubulares renais (aquelas células que formam os cistos) e,
  • Segundo, regula positivamente o regulador da condutância transmembranar da fibrose cística (em inglês, cystic fibrosis transmembrane conductance regulator, CFTR). Calma, isso não é coisa do outro mundo. É apenas um canal na membrana das células epiteliais falada no parágrafo anterior. Quando esse canal é ativado ele faz com que uma maior quantidade de íons cloreto passem para dentro dos cistos promovendo o aumento de líquido dentro dos mesmos e, assim, aumentando o volume dos cistos.

Assim, o efeito esperado da cafeína que é o aumento de AMPc promoveria um aumento no número de cistos (mais células) e um aumento no tamanho dos cistos (mais fluido). Bom, mas espere aí. Isso ainda não foi demonstrado em pacientes humanos. O artigo que diz que a cafeína induz um aumento no cAMP demonstra isso em células em cultura, não em pacientes.

A cafeína é rapidamente absorvida e entra em todos os compartimentos dos tecidos. É metabolizada no fígado, um processo que é mais lento em fumantes inveterados, ou compulsivos, ​​e pessoas com cirrose hepática.

Em teoria, a cafeína desencadeará um aumento da pressão arterial (PA), aumentando a resistência vascular periférica, é como se os vasos sanguíneos aumentassem seu volume pressionando mais os rins para filtrarem seu conteúdo, porém nenhuma relação consistente foi encontrada entre a ingestão da cafeína e a PA (7) e, isso pode indicar que a ingestão regular leva à tolerância (8). Veja no próximo subtítulo sobre PRESSÃO ARTERIAL e CAFEÍNA.

E QUANTO DE CAFEÍNA TEM EM UMA XÍCARA DE CAFÉ?

A resposta depende de onde você pesquisa! Na verdade, depende de quão forte é seu café…

  • Pode variar de um café instantâneo contendo em torno de 50 mg a um café Starbucks com mais de 250 mg.
  • Pela PKDCure.org um copo com cerca de 150 mL, indicando uma grande faixa de concentrações. Isto, contudo, incluem chá e diferencia entre um sachê de chá de 3 minutos mergulhado em água quente e um sachê chá de 5 minutos, este último contendo potencialmente tanta cafeína quanto um café percolado do mesmo tamanho.
  • A Clínica Mayo nos EUA inclui bebidas descafeinadas que possam conter tanto quanto 15 mg de cafeína.
  • O quadro mais completo vem do Centro de Ciência de Interesse Público dos EUA (Center for Science and Public Interest) e onde descreve que a Pepsi Max tem 69 mg em uma lata, e uma lata de Coca-Cola Zero tem 35 mg. É um site americano, entretanto, lista o chocolate da Hershey (com 9 mg de cafeína), mas não o Dairy Milk, que é muito mais saboroso!
  • Generalizando, no Brasil, uma dose de café tem, em geral, 60 a 150 mg de cafeína. Essa variação depende de quão forte é o café.

SERÁ QUE A CAFEÍNA CAUSA DESIDRATAÇÃO?

Esta é uma pergunta razoável de se perguntar já que a teofilina (1,3-dimetilxantina) estruturalmente relacionada com a cafeína foi, durante muitos anos, utilizada para aumentar a produção de urina, até que diuréticos mais potentes tornaram-se disponíveis no meio do século passado.

Um grupo de Birmingham, no Reino Unido, (9) realizou um estudo com 50 pessoas do sexo masculino bebedores de café para comparar a produção de urina relativa ao uso entre café e água. Foi um estudo contrabalanceado cruzado, que significa que todos os cinquenta indivíduos foram avaliados após 3 dias de beberem café (4 cafés com 200 mL com uma concentração de cafeína de 4 mg/Kg, isto é, para uma pessoa de 50 Kg, tinha 200 mg de cafeína, para uma pessoa de 70 Kg, tinha 280 mg de cafeína) e também, após 3 dias de água (4 copos de 200 mL) ao invés de café. Os parâmetros medidos foram a massa corporal (o peso da pessoa sem roupa), água corporal total usando óxido de deutério (que é o hidrogênio pesado) e marcadores de hidratação usuais na urina e no sangue. Eles não encontraram alterações significativas na água corporal total antes e após os testes. Os exames hematológicos e marcadores urinários foram estáveis, assim como a massa corporal. A conclusão de tudo isto é que o café, em moderação, em homens habituados a toma-lo, a cafeína proporciona qualidades hidratantes semelhantes à água.

Apesar disso, em pelo menos um site da internet, que se diz ser um recurso para pacientes com PKD, afirma dogmaticamente que a ingestão de café leva à desidratação. Mas não recomendamos e nem nos responsabilizamos por esse site http://www.pkdiet.com/diet_teaCoffee.php).

SERÁ QUE A CAFEÍNA AUMENTA A PRESSÃO ARTERIAL?

Não quero gastar muito tempo neste tópico já que a resposta curta é “sim, pode”, mas há tantas variáveis ​​e condições para que esta declaração ser verdadeira que ela realmente exige todo um post para si. Citarei um estudo realizado por Corti e colaboradores (10) onde eles analisaram aqueles acostumados a beberem cafeína comparada a pessoas que não a acostumam beber. O aumento da pressão sanguínea ocorreu apenas no grupo de bebedores de café onde a cafeína foi administrada por via intravenosa (IV). Então, talvez houvesse uma substância para que, enquanto éramos estudantes, de que era preciso injetar cafeína antes das provas! Se há um efeito crônico sobre a PA em pessoas que bebem café regularmente e se isso poderia se traduzir em uma mensagem de “evitar a cafeína” não é algo que será considerado aqui.

SERÁ QUE A CAFEÍNA AUMENTA O CRESCIMENTO DO CISTO NA PKD?

Agora, esta é a grande questão!

Essa afirmação é feita por várias autoridades (uwmedicine.org, pkdcure.org) e onde ela é suportada por referências acadêmicas elas costumam citar o artigo de 2002, por Belibi e colaboradores (11). É importante olhar para o que este estudo realmente fez e entender suas limitações.

Em primeiro lugar é um estudo realizado em células numa placa de Petri, ou placa de cultura, não em rins reais de um ser humano. As células foram cultivadas a partir de amostras de células de PKD autossômica dominante (o tipo mais frequente de PKD). As células epiteliais tubulares renais (aquelas células que formam os cistos) foram obtidas após a nefrectomia, ou o corte de parte do rim, de 3 pacientes e as células controles foram cultivadas a partir de um rim de cadáver de um paciente normal (embora não vivas). Note que havia apenas 3 rins, apenas 3. Isso não é um n, como dizemos para o número de amostras, apropriado para uma pesquisa.

Embora o título deste artigo seja “Os efeitos da cafeína sobre as células epiteliais renais de pacientes com PKD” foi um dos vários que produziram a partir de um conjunto de dados de resultados, nos quais eles também estavam explorando os efeitos de outras substâncias, tais como desmopressina, prostaglandinas E2 e isoprotenerol. A descoberta realmente importante que descreveram é que a cafeína aumenta LIGEIRAMENTE os níveis basais de cAMP, um efeito que foi potenciado pela adição de outros inibidores de fosfodiesterase (como poderia ser esperado). A partir disto eles parecem ter tomado um enorme salto e concluíram que “a cafeína é um fator de risco para a promoção do crescimento de cistos em pacientes com ADPKD”

Outro artigo de 2001, por Tanner et al (12), constatou que não houve aumento no tamanho do cisto ou volume renal total (VTR) após a administração de cafeína em camundongos com ADPKD (Figura 2). Os camundongos são realmente um bom modelo para a PKD, mas ainda não é o mesmo que investigar a ADPKD na população humana em geral.

Um estudo publicado por cientistas brasileiros, Vendramini e colaboradores, da UNIFESP, estudaram 102 pessoas com ADPKD e 102 controles, pareados por idade e sexo. Eles avaliaram a exposição à cafeína por uma dieta alimentar de 3 dias não consecutivos. Os dados foram coletados por meio de um questionário e entrevista com os pesquisadores. Eles usaram registros clínicos de laboratório e dados de medidas do volume renal total usando o ultra-som. A ingestão de cafeína não se correlacionou com o volume renal em pacientes ADPKD. Isto foi verdade tanto para baixo quanto para alto consumo e foi refletida por uma falta de correlação dentre EGFR com a ingestão de cafeína.

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Figura 2: Rins policísticos retirados de um paciente. Imagem de http://codeofconduc.com/icd-9-polycystic-kidney-disease/

Além disso, eles tiveram um olhar ainda mais atento a um subconjunto destes pacientes dos quais tiveram acesso aos resultados de ultra-sons anteriores. Após de todas essas informações concluíram que a taxa de crescimento não se correlacionou com a ingestão de cafeína.

Claro que existem limitações para este estudo assim como qualquer outro:

  • O grupo ADPKD mostrou um menor consumo de cafeína presente na comida e na bebida em comparação com a população saudável.
  • Eles explicaram isto observando que 63% tinham sido avisados, ​​em algum momento de seu passado, para reduzir o consumo de cafeína, mas o menor consumo por si próprio pode contribuir para a falta de correlação.
  • O ultra-som como ferramenta para medir o volume renal total é dependente do operador e não detecta pequenas mudanças. Exames de ressonância magnética seriam mais precisos, mas também mais caros. Além disso, os pesquisadores queriam refletir as avaliações comumente usadas no Brasil, e a MRI não é de uso de rotina.
  • Será que uma população brasileira permite a transpolação dos resultados para o resto do mundo? Métodos de preparação do cafezinho e tamanhos do copo podem ser diferentes (veja acima QUANTO DE CAFEÍNA TEM UMA XÍCARA DE CAFÉ).
  • O café foi a principal fonte de ingestão neste estudo. Poderiam ser avaliados refrigerantes, chás, bebidas energéticas, chocolates, entre outras.
  • O consumo médio de cafeína neste estudo foi de 171 mg por dia. Este consumo é baixo em comparação com os EUA (200 mg) e Reino Unido (280 mg), e muito menor do que o consumo na Dinamarca (490 mg)

No entanto, é até agora um dos maiores estudos sobre este tema e este artigo analisa diretamente os seres humanos e pacientes reais com ADPKD, não apenas camundongos ou culturas de células.

Fonte: modificada de https://roughlykidneyshaped.wordpress.com

Referências

1.           Lacerda LHG, Resende RR. O QUE É HIPERTENSÃO? (3º Capítulo): Controlando o Colesterol! Nanocell News. 2014;1(2).

2.           Rocha LGN, Resende RR. DIETA RICA EM VEGETAIS REDUZ OS NÍVEIS DE “COLESTEROL RUIM” EM SERES HUMANOS COM microRNAs. Nanocell News. 2014;1(1).

3.           Pierard C, Krazem A, Henkous N, Decorte L, Beracochea D. Acute stress blocks the caffeine-induced enhancement of contextual memory retrieval in mice. European journal of pharmacology. 2015;761:70-8.

4.           Nogueira NDR, Kihara AH, Paschon V. CHOCOLATE PODE AUMENTAR A CAPACIDADE DE MEMORIZAÇÃO E BENEFICIAR O CÉREBRO COM ALZHEIMER. Nanocell News. 2015;2(13).

5.           Vendramini LC, Nishiura JL, Baxmann AC, Heilberg IP. Caffeine intake by patients with autosomal dominant polycystic kidney disease. Brazilian journal of medical and biological research = Revista brasileira de pesquisas medicas e biologicas / Sociedade Brasileira de Biofisica  [et al]. 2012;45(9):834-40.

6.           Bezerra MA, Santos NA. VIAS DE SINALIZAÇÃO CELULAR PODEM AJUDAR A ENTENDER MELHOR O EBOLA. Nanocell News. 2014;1(16).

7.           Hajsadeghi S, Mohammadpour F, Manteghi MJ, Kordshakeri K, Tokazebani M, Rahmani E, et al. Effects of energy drinks on blood pressure, heart rate, and electrocardiographic parameters: An experimental study on healthy young adults. Anatolian journal of cardiology. 2015.

8.           Bolignano D, Coppolino G, Barilla A, Campo S, Criseo M, Tripodo D, et al. Caffeine and the kidney: what evidence right now? Journal of renal nutrition : the official journal of the Council on Renal Nutrition of the National Kidney Foundation. 2007;17(4):225-34.

9.           Killer SC, Blannin AK, Jeukendrup AE. No evidence of dehydration with moderate daily coffee intake: a counterbalanced cross-over study in a free-living population. PloS one. 2014;9(1):e84154.

10.         Corti R, Binggeli C, Sudano I, Spieker L, Hanseler E, Ruschitzka F, et al. Coffee acutely increases sympathetic nerve activity and blood pressure independently of caffeine content: role of habitual versus nonhabitual drinking. Circulation. 2002;106(23):2935-40.

11.         Belibi FA, Wallace DP, Yamaguchi T, Christensen M, Reif G, Grantham JJ. The effect of caffeine on renal epithelial cells from patients with autosomal dominant polycystic kidney disease. Journal of the American Society of Nephrology : JASN. 2002;13(11):2723-9.

12.         Tanner GA, Tanner JA. Chronic caffeine consumption exacerbates hypertension in rats with polycystic kidney disease. American journal of kidney diseases : the official journal of the National Kidney Foundation. 2001;38(5):1089-95.

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