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AEROPORTO DE TARDISBURGO

AEROPORTO DE TARDISBURGO

Flávio Carvalho

Edição Vol. 2, N. 13, 09 de Junho de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.06.08.007

– Senhores passageiros, por motivo de mau tempo em nosso trajeto, pousaremos no aeroporto de Tardisburgo para passarmos a noite. Segundo informações da torre de controle, a previsão do tempo é de melhoria para amanhã, quando poderemos decolar novamente.

Depois do aviso do comandante, a passageira do assento 14C abaixou a cabeça e lamentou o infortúnio. Até mesmo para ela, que não entendia nada de aviões, ficava claro que as condições do tempo não estavam favoráveis: a aeronave havia balançado bastante e feito algumas descidas nos últimos quarenta minutos, fazendo as comissárias carregarem alguns saquinhos bem amarrados até o lixo. Mesmo assim, a moça desejava passar a noite em casa, ao invés de dormir em um hotel qualquer a duas horas de voo do seu destino.

Ao se abaixar, bateu a cabeça na cadeira da frente. O sujeito do assento 13C, assustado com o empurrão em suas costas, se virou em direção à moça:

– Tudo bem por aí?

– Perdão, senhor.

– Ah, não foi nada! E que porcaria esse tempo, hein?

– Nem me fale. Estava doida pra voltar pra casa, mas agora já vi que não vai ser essa a noite em que vou ver minha cama.

– Ah, pelo menos você vai poder conhecer outro país! Já conhece Tardisburgo?

– Nada. Nunca nem ouvi falar, para ser sincera.

– Então é melhor descer comigo! Já passei por lá um monte de vezes, vai ser bom para você ter a companhia de alguém que conheça os costumes do lugar.

O comandante voltou ao rádio:

– Tripulação, preparar para o procedimento de descida. Senhores passageiros, iniciaremos agora a aproximação ao aeroporto de Tardisburgo. Observem os avisos de não fumar e de atar cintos. Ao completarmos a descida, os senhores devem dirigir-se ao balcão da companhia para mais informações. Boa noite a todos.

O aeroporto de Tardisburgo era enorme. Logo que desceu do avião, a passageira do 14C ficou assustada com o tamanho do prédio que ela via da pista: parecia ter mais de dez andares e tinha a largura de quase um quarteirão. Chegando mais próxima à construção, observou o desgaste da pintura cinza que cobria todo o prédio, além de algumas janelas quebradas nos andares mais altos. No final da pista foi possível ver os fios soltos passando pelas quinas das paredes, as portas de vidro com trincas nos cantos e algumas escadas da parte externa com degraus faltando.

Ao lado do passageiro do 13C, seguiu o fluxo dos outros que desceram do seu voo quando todos passaram pela porta. Do lado de dentro havia uma série de guichês numerados da sua companhia, a única que operava naquele saguão. Olhou para cima e viu as placas que distribuíam os grupos de passageiros: procedentes de países com os nomes iniciados de A até C nos guichês de um a oito. De D a H, guichê quinze. De I a L, guichês de nove a onze e vinte B. Eram quarenta e quatro guichês alimentados por filas em caracol que formavam um labirinto em sua frente.

Os dois então decidiram ignorar as placas e se dirigiram até a funcionária que orientava a fila. Assim como todos os demais funcionários do saguão, ela usava um uniforme cinza que parecia ter sido desenhado há trinta anos e um sorriso que parecia ter sido colado ao seu rosto na mesma época:

– Boa noite, senhora! – disse, pegando a documentação da passageira do 14C. – Deixe-me ver seu passaporte… ok, Suíça é na oitava fila à sua direita, guichê quarenta. E o senhor… olha, vem do Brasil? Vocês são sempre bem vindos aqui! Primeira fila à sua esquerda, guichês de um a oito.

– Não podemos ir juntos? – perguntou a moça.

– Infelizmente não. Devem seguir as suas filas.

– Não se preocupe, amiga, te encontro do outro lado! Até mais tarde! – disse o homem.

Os dois seguiram para os guichês designados. A passageira do 14C teve todos os seus documentos carimbados e assinados. Duas vezes. Depois foi instruída a passar pelo corredor que ficava ao lado do guichê e a solicitar a bagagem e o voucher de hospedagem na sala seguinte.

O corredor levou a outra sala também muito grande, onde ela podia ver uma lanchonete com cerca de cinquenta mesas ocupando parte do saguão, enquanto a parede do outro lado tinha uma dezena de escritórios iguais colocados um ao lado do outro. Aparentemente o corredor de seu companheiro devia levar a alguma outra sala, pois não podia ver outra entrada para aquele saguão. Havia escadas rolantes levando ao segundo andar e, ao lado da lanchonete e dos escritórios, largas portas de vidro trincadas. Uma série de funcionários com os mesmos uniformes cinzas estavam de pé em suas posições designadas, e era mais fácil perguntar a algum deles do que tentar se orientar pelas placas presas ao teto:

– Com licença! – disse a moça à funcionária mais próxima. – Você sabe onde eu devo retirar as bagagens? O voo é o…

– Desculpe, você deve ir ao segundo escritório naquela parede. Lá eles vão te direcionar.

– Mas é só…

– Desculpe, no segundo escritório naquela parede. Pergunte ao rapaz de verde.

– Ok.

Chegando à sala, aguardou uma pequena fila até que chegou a sua vez de pedir a informação:

– Com licença! Você pode me informar… ah, desculpe. A outra moça disse que era pra eu procurar o rapaz de verde…

– Tudo bem, sou eu mesmo! – disse o cordial funcionário, apontando para a faixa verde que saía da gola e descia pelos ombros até as mangas do seu uniforme cinza. – Em que posso ajudá-la?

– Eu preciso saber onde retirar as bagagens, meu voo…

– Ah, claro! Deixe-me ver o passaporte… Ah sim, carimbo vermelho… Pode seguir até o balcão ao lado da lanchonete e perguntar à moça de roxo. – apontou o funcionário depois de assinar sobre o carimbo. – Ela vai te levar até o balcão!

– Mas você não pode me apontar, para eu não ter que incomodar outra pessoa?

– Desculpe, mas esse é o trabalho dela! Eu estou aqui só para verificar a cor do carimbo e passar para o apontador correto! E no seu caso é a moça de roxo! Tenha uma ótima noite!

A passageira retribuiu com um sorriso irônico e foi até a funcionária de roxo do outro lado do saguão, que tinha sua própria fila aguardando sua atenção:

– Com licença! Você pode informar onde eu retiro as bagagens? Sou do voo que acabou tendo…

– Deixe-me ver o passaporte… ok, já foi carimbado e assinado. Suas bagagens estão no segundo andar, na oitava sala à esquerda depois da segunda lanchonete. Qualquer coisa é só seguir as placas, procure por BG65, é o número da sua sala com as esteiras. Tenha uma ótima noite!

A funcionária então bateu seu carimbo roxo e colocou sua assinatura no passaporte antes de devolvê-lo à passageira, que subiu a escada rolante. Chegando ao segundo andar, começou a caminhar procurando a segunda lanchonete. Dos dois lados estavam várias salas com esteiras, todas numeradas. Passou pelo bloco numerado de BG01 a BG20, com os ímpares do lado esquerdo e os pares do lado direito, até chegar à primeira lanchonete e suas lojinhas. Daí em diante, as salas estavam numeradas até a BG40, mas com as de número 21 a 30 do lado esquerdo e 31 a 40 do lado direito, chegando à segunda lanchonete. Ela então contou oito salas à esquerda e chegou a uma nova fila para atendimento por um novo funcionário.

Na sala, o rapaz de uniforme cinza com listras amarelas e azuis nos ombros recebeu a passageira. Conferiu mais uma vez o passaporte, os carimbos e as assinaturas antes de levantar-se da sua cadeira e caminhar até a esteira que ficava atrás de sua mesa. Lá ele conferiu os documentos com a numeração colada à mala e retornou à sua estação de trabalho, onde abriu um gaveteiro e tirou de lá três blocos de papéis encadernados para entregar à moça:

– Aqui está! Por favor, preencha as três vias da documentação para que eu protocolize aqui e você possa retirar a sua bagagem.

– Mas você já conferiu os documentos! A bagagem é minha mesmo!

– Sim, mas entenda, eu preciso cumprir o procedimento.

– Mas ele não faz sentido! Você sabe que sou eu, meu passaporte já tem dez carimbos, vinte assinaturas, e o número da etiqueta da mala confere com o do meu passaporte! Não é possível!

– Por favor, precisamos cumprir os procedimentos, é como fazemos aqui.

– Argh! Você pode me dar uma caneta, então? – perguntou, puxando os papéis da mão do funcionário.

– Desculpe, mas as canetas são distribuídas no primeiro andar. No segundo escritório se você contar a partir da esquerda, com o rapaz de verde. Você já deve ter passado por ele antes. Tenha uma ótima noite!

A passageira desceu as escadas com passos firmes e resmungando todos os palavrões que conhecia. Como isso era possível, era só uma bagagem! Só isso! Até já tinha se esquecido de que ainda teria que pegar o voucher, tão envolvida que estava pelos formulários, filas, papéis, canetas e uniformes cinza. Só sabia que já estava há quase três horas dentro daquele lugar bizarro e ainda não tinha conseguido nada além de carimbos.

– Escuta aqui! – gritou com o funcionário ao chegar de volta ao segundo escritório da esquerda para a direita na parede do primeiro andar. – Eu tive que descer as escadas de novo só para pegar uma caneta? É isso mesmo, só por causa de uma caneta?

– Senhora, por favor, acalme-se… Você só precisa da caneta?

– Acalme-se? Acalme-se? Você está maluco? Não é possível! Isso aqui é uma loucura!

O rapaz apenas ficou parado e sem mudar a expressão. A passageira prosseguiu:

– Posso te perguntar uma coisa? Quantos funcionários vocês têm aqui, você sabe?

– Esse tipo de informação é no quarto andar, com a…

– Chega! – berrou enquanto socava a mesa do funcionário. – É só uma pergunta, uma pergunta informal!

– Uns mil e quinhentos? Talvez mil e setecentos? Algo assim.

– E o país tem quantos habitantes?

– Uns dois milhões.

– Então, você não acha esse aeroporto grande demais, com gente demais só para controlar, preencher papéis, bater carimbos e não produzir nada? Olha o tamanho do país e o tamanho disso aqui!

– Senhora, são nossos empregos. O país não tem muitas riquezas, se não tivesse isso aqui, provavelmente estaríamos desempregados…

– Mas é claro! Com tanta gente trabalhando para não produzir nada, como que esse lugar vai gerar algum emprego? Olha isso aqui, olha que lixo de lugar gigante e improdutivo! Improdutivos, é isso que vocês são! – berrou enquanto agitava as encadernações em sua mão.

Mais uma vez ela não conseguiu nem sequer uma mudança na expressão do funcionário. Desistiu de tentar colocar alguma razão naquelas pessoas e continuou pulando como cachorro de concurso pelos aros que os burocratas seguravam:

– A caneta, por favor.

– Canetas são na sétima sala do quinto andar, entre o banheiro feminino e o berçário. Pode procurar o senhor de azul e branco, se quiser uma caneta preta, ou o senhor de preto e branco, se quiser uma caneta azul. A cor correta para o preenchimento de cada formulário está nos cabeçalhos. Tenha uma ótima noite!

A passageira abaixou a cabeça e gritou, já com lágrimas nos olhos:

– Ah não! Isso já é demais! Eu vou ter um ataque!

– Tudo bem, senhora, ataques são no quinto andar, ao lado do bar. Caso o ataque possa ser fatal, peço que se dirija à sala 32 e procure o rapaz de grená com bolinhas verdes. Ele deve colocar o carimbo amarelo no passaporte, assinar o documento e fazer os devidos despachos para que a família tome conhecimento. Tenha uma ótima noite!

Era surreal. A que ponto podia chegar os excessos da mente puramente burocrata? Será que ninguém viu o monstro crescendo aos poucos nesse lugar? Pelo menos havia um bar no quinto andar, e já que ela jamais conseguiria o voucher para a hospedagem, pelo menos ela poderia tomar alguma coisa para poder voltar à saga das bagagens.

Como as escadas rolantes eram dispostas nos extremos opostos de cada andar, para chegar ao quinto ela passou por quase todo o aeroporto, observando as pessoas sendo levadas ao desespero pelos solícitos funcionários de cinza. Todas as salas, balcões e guichês estavam com a sua respectiva fila, o verdadeiro paraíso da improdutividade. Nunca um lugar foi tão bem sucedido em não funcionar para nada.

Chegando ao bar, viu seu companheiro do 13C sentado em uma das mesas, com uma cerveja e um livro de palavras cruzadas. Ele sorriu e acenou quando viu a passageira, que correu até onde ele estava. Antes de chegar, no entanto, foi interrompida por uma funcionária:

– Senhora, com licença! Nossos bares são separados por mês de nascimento, deixe-me ver o passaporte.

O passageiro do 13C começou a rir em sua mesa enquanto via sua companheira de viagem mostrando o passaporte mais uma vez. A funcionária olhou e apontou que ela não poderia ficar na mesma divisão do bar. A passageira então foi ao seu espaço designado e o rapaz trocou de mesa para ficar separado dela apenas pela corda que separava os setores. Chorando, ela iniciou a conversa:

– Sério, como você está aqui sorrindo? Como que você aguenta? Nada anda, nada faz sentido! Esse lugar é um inferno!

– Ah, eu já estou acostumado! Lá de onde eu venho eles estão quase tão aperfeiçoados nessa arte quanto a turma daqui… Espere aqui e relaxe, vou te pagar um café e um Rivotril.

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  • 8
  1. Ariana disse:

    Flávio, Tardisburgo seria o país da demora ou um contraponto para a TARDIS – máquina do tempo do Doctor Who?

    08/junho/2015 ás 21:18
  2. Pobre doutor, haja papel psíquico para dobrar esses funcionários… ;-)

    Mas não, é só o castelo (ou país) da lentidão mesmo! Tardis soa bem melhor que Tardus!

    09/junho/2015 ás 08:05
  3. Flávio, tenho certeza que o país é o do Tardio, muito próximo do
    país de Macunaíma, mas parte dos moradores poderiam fabricar
    carimbos, bolar cores novas para novos funcionários, vender canetas
    nas portas dos aviões e várias outras atividades necessários ao desenvolvimento
    do país, mas o conto é in-crível.

    09/junho/2015 ás 18:17
  4. Ariana, pobre doutor se tiver que passar por aí… Haja papel psíquico pra dobrar essa turma!
    “Senhor, passageiros vindo de Gallifrey devem passar pelo portão quinze” ;-)

    Márcio, acho que é melhor eu fazer contato com você antes de escrever do que responder ao comentário, não? Essa imagem dos demais moradores vivendo em função do aeroporto é excelente!

    09/junho/2015 ás 21:18
  5. Eliana Mara disse:

    Nossa, Flávio, eu quase tive um ataque imaginando a situação! rs… rs.
    O fato de a imperiosa necessidade de cumprimento das regras tender a retirar capacidade de discernimento aos funcionários, foi bastante desenvolvido no conto, e com muita criatividade.
    Parabéns!!!

    10/junho/2015 ás 21:54
  6. Mércia Sander disse:

    E o cara vinha do Brasil ! Registrou nosso atestado de incompetência … Parabéns, Flåvio ! Conseguiu me prender e envolver tanto, que eu já estava na torcida para que o final fosse feliz. Qual nada! Fiel ao que assistimos muitas vezes, acabou em pizza, ou melhor, em rivotril. Que vontade bagunçar esse aeroporto ! Abraço.

    10/junho/2015 ás 23:35
  7. Ariana disse:

    Flávio, nesse aeroporto, ao passar pelo portão quinze, é bem capaz que a linha vermelha leve ao passado e a azul ao futuro, e até os Gallifreyanos vão precisar de uma dose de Rivotril….

    15/junho/2015 ás 20:54
  8. Muito obrigado, Eliana e Mércia! Que bom que vocês gostaram! :-)

    15/junho/2015 ás 21:51

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