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A TENDÊNCIA AO SUICÍDIO ESTÁ EM NOSSOS GENES?

A TENDÊNCIA AO SUICÍDIO ESTÁ EM NOSSOS GENES?

Victor Allisson da Silva, Marília Inês Móvio, Lais Takata Walter, Vera Paschon, Alexandre Hiroaki Kihara

Laboratório de Neurogenética / Núcleo de Cognição e Sistemas Complexos / Centro de Matemática, Computação e Cognição / Universidade Federal do ABC

Edição Vol. 4, N. 6, 23 de Fevereiro de 2017

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2017.02.23.001

Suicídio, palavra derivada do latim suicidium, sendo essa junção de sui (de si mesmo) e cidium (matar/golpear), é descrito como um ato de violência realizado contra a própria pessoa com o objetivo de matar a si mesmo. Esse nefasto comportamento foi, ao longo da história, associado diretamente a fatores religiosos, filosóficos, psicológicos, de honra, e até mesmo com táticas militares e/ou terroristas. Entretanto, ao contrário da maioria das causas de morte, com o passar do tempo o suicídio não apresentou reduções em seus números, chegando, atualmente, a ser considerada a décima maior causa de morte no mundo de acordo com o Center for Disease Control and Prevention. Ainda mais alarmante, trata-se da segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Esses fatos evidenciam a necessidade de estratégias preventivas e também a necessidade de conhecer mais sobre as causas relacionadas com este problema cada vez mais frequente.

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Figura 1: Representação dos meios mais comuns de suicídio, incluindo envenenamento, armas de fogo e enforcamento. Tempo médio entre os casos de suicídio relatados (Dados retirados da organização mundial da saúde 2016).

Atualmente, o suicídio é estudado a partir de pelo menos três aspectos diferentes que se complementam: (i) psicológico, (ii) social e (iii) genético. Comumente o suicídio é mais associado a transtornos mentais e/ou psicológicos, como a depressão (1), transtorno bipolar (2), esquizofrenia (3, 4), alcoolismo e abuso de drogas (5), sendo que, de forma geral, relaciona-se com o estado psicopatológico e histórico da vítima (6, 7). De fato, é bem aceito que uma das principais causas desse comportamento seria a inabilidade do cérebro em lidar com as diferentes situações vividas. Interessantemente, o número de adversidades ou eventos negativos vivenciados pelos pacientes parece ter uma relação direta com o comportamento suicida. Um dos achados mais consistentes foi a associação entre esse comportamento em jovens e a experiência de abuso sexual, por exemplo (8).

No entanto, o suicídio não é apenas um fenômeno psicológico individual e a proposta de que o evento também é um comportamento social foi relatado pela primeira vez no livro “O suicídio” (Le suicide) em 1897, escrito pelo sociólogo francês Émile Durkheim (9). Durkheim categorizou o suicídio em 4 vertentes: suicídio egoísta (cometido por indivíduos que não sentem fazer parte da comunidade, do todo); fatalista (cometido por pessoas que se sentem fisicamente e mentalmente oprimidas pela sociedade que impõem poder sobre eles); anômico (típico de pessoas que se sentem moralmente perdidas e não têm sentido de direção em suas vidas) e altruísta (acontece quando um grupo ou sociedade exercem um poder de relação muito influente sobre os indivíduos) (10).  

Além dos fatores psicológicos e sociais, atualmente é sabido que fatores genéticos também são parte importante dos determinantes que levam um indivíduo a cometer suicídio (11). Estudos identificaram alterações genéticas relevantes (como por exemplo polimorfismos específicos de nucleotídeos únicos (SNPs, do inglês single nucleotide polymorphism) que parecem ser importantes para a etiologia do comportamento suicida. Os genes alterados estão envolvidos em vias neurobiológicas específicas do sistema serotoninérgico, sistema noradrenérgico, genes envolvidos com o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), entre outros (11).

Mesmo abordando o suicídio simultaneamente como um fenômeno psicossocial e genético, algumas questões ainda permanecem sem respostas, inclusive a respeito do surgimento desse comportamento na espécie humana. Para explicar sua origem, diversos pesquisadores passaram a estudar o chamado “suicídio evolutivo”, que foi encontrado em uma grande variedade de organismos, desde organismos unicelulares, parasitas, insetos, e é debatido em mamíferos (12). No nível molecular, a hipótese do suicídio evolutivo baseia-se no preceito de que genes individuais atuam de forma a preservar a suaperpetuação no pool genético da espécie, isto é, a permanência de um determinado gene como parte constituinte do material genético de um certo grupo de indivíduos para as próximas gerações (13). No nível psicossocial a teoria evolutiva do suicídio é paradoxal, já que a teoria evolucionária geralmente se preocupa em explicar a vida, e esse ato autodestrutivo que renuncia a vida individual pode ser uma das complexas alternativas manifestadas pelos organismos para permitir o sucesso da espécie frente à seleção natural (12). Seguindo esta mesma linha de raciocínio, diversos estudos foram realizados para compreender a relação entre o suicídio altruísta e a evolução. Os achados indicam que o suicídio pode ocorrer naturalmente em circunstâncias de limite social (pobreza extrema, guerra, preconceito) e ecológico (catástrofe), como consequência de uma situação extrema de baixa taxa reprodutiva e adaptativa da espécie. Nestes contextos, o suicídio pode ser um mecanismo para evitar a extinção da espécie (13-15). Um bom exemplo acontece com as abelhas, que podem “sacrificar” suas vidas em uma ferroada para proteger a colmeia, o que garante a sobrevivência da espécie e da perpetuação de seu pool de genes. A diferença é que, na espécie humana, a tomada de decisão de cada indivíduo envolve outras competências cognitivas envolvidas principalmente com a motivação emocional e não apenas instintiva/evolucionária do ato.

Notavelmente, nem todos os indivíduos que possuem alterações genéticas na constituição de seu DNA relacionadas ao suicídio chegam a desenvolver o quadro patológico e, analogamente, nem todos os indivíduos que não apresentam tais mutações, estão livres de o cometerem. Inclusive, pacientes com vivências negativas apresentam alterações no desenvolvimento e na função dos sistemas neurobiológicos que pacientes geneticamente suicidas apresentam, principalmente quando os eventos acontecem na infância (11). Isto reforça o conceito de que as experiências vividas podem alterar no nível molecular e celular a fisiologia do sistema nervoso. Ou seja, o comportamento suicida resulta da dupla presença de uma vulnerabilidade de base biológica e de um estressor psicossocial ativador, além da existência de um mecanismo que permite a interação direta (crosstalk) entre ambos (Figura 2a) (16, 17). Especificamente, o estudo dessa interação é o principal alvo de uma área interdisciplinar que tem ganhado cada vez mais ênfase, a epigenética. Esta área da ciência visa compreender os mecanismos regulatórios que atuam na expressão dos genes, sem alterar a sequência do DNA.

O DNA, considerado a “molécula da vida”, é o responsável por toda a informação genética do organismo. Quando encontrado na forma condensada (cromatina), o DNA encontra-se associado a proteínas denominadas histonas, das quais também estão relacionadas com a taxa de transcrição gênica e, desta forma, também são alvos de regulação. Quanto mais condensado o material genético, menor a probabilidade de genes ali localizados serem transcritos em RNAs mensageiros (RNAm), ou seja, a expressão é inibida. Analogamente, quanto menor o nível de condensação do DNA, maiores são as probabilidades de transcrição. O mesmo vale para alterações que ocorrem diretamente no DNA, que neste caso, influenciam diretamente a capacidade da maquinaria de transcrição de se ligar ao DNA. A modulação das histonas e do DNA confere às células de um mesmo indivíduo diferenças morfológicas e fisiológicas como consequência dos diferentes genes transcritos e de seus níveis (Figura 2b). Desta forma, a epigenética pressupõe que o perfil de expressão gênica de uma célula (ou sua “assinatura” gênica) não é determinado exclusivamente durante o desenvolvimento e muito menos é estático. Na realidade, o estudo de mecanismos epigenéticos tem corroborado com a concepção de que fatores ambientais podem influenciar diretamente a “assinatura” gênica das células ao longo de toda a vida de um indivíduo.

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Figura 2: Epigenética e sua influência no comportamento suicida (A) A multicausalidade do suicídio pode ser relacionada com fatores psicológicos, genéticos ou sociais/ambientais. A intersecção entre esses fatores resulta na ativação de mecanismos epigenéticos que podem resultar na alteração dos níveis de expressão de genes. Estes genes podem ser expressos em neurônios que participam de circuitos cerebrais relacionados com vias de motivação e tomada de decisão. (B) De acordo com o paradigma central da biologia, um gene (seja ele mutado ou não) é transcrito em RNA mensageiro (mRNA) e este, por sua vez, é traduzido em uma proteína (1). No caso, esta proteína pode estar envolvida com o comportamento de autopreservação. Hoje é sabido que fatores externos ao indivíduo podem interferir nesses eventos através da maquinaria epigenética, que é capaz de marcar as histonas ou o DNA inibindo ou ativando genes e, dessa forma, favorecendo o aparecimento do comportamento suicida (2).

No contexto do suicídio, fatores externos vivenciados por qualquer indivíduo podem alterar a expressão de genes importantes nas vias relacionadas à motivação e tomada de decisão. De forma simplificada, a regulação da transcrição dos genes seja pela modulação das histonas ou do DNA ocorre graças a existência de toda uma maquinaria molecular intracelular que marca os genes inibindo ou favorecendo sua transcrição (Figura 2b). Esses mecanismos possibilitam a identificação de possíveis marcadores biológicos que podem ser considerados “assinatura gênica da possibilidade do comportamento suicida”, ou seja, genes que estariam alterados em indivíduos suicidas. Fortalecendo esta hipótese de que a alteração de genes seria a consequência direta de mecanismos epigenéticos, foi observado um aumento significativo de histonas e genes metilados em células neuronais e gliais de indivíduos suicidas post-mortem (11, 16, 18, 19)

Desta forma, uma das perspectivas futuras é o desenvolvimento de biomarcadores sanguíneos baseados nas pesquisas já desenvolvidas. A princípio, os alvos dos biomarcadores seriam os genes já identificados como relacionados com a propensão ao suicídio. Contudo, a maioria dos estudos foi realizada em tecidos post-mortem, o que torna difícil a transposição destes resultados para a prevenção do suicídio, visto que esse comportamento em humanos também envolve a idealização e o planejamento do ato (16). Ainda assim, já vem sendo desenvolvidas ferramentas de diagnósticos por alguns laboratórios (20) e podem contribuir para a diminuição de diagnósticos errados e, assim, iniciar um tratamento mais eficaz e precoce. Não obstante, estudos que buscam a identificação da alteração da assinatura gênica de pacientes suicidas permite uma maior compreensão desse comportamento e, consequentemente, abrem a perspectiva para o tratamento através de terapias gênicas. Entre estas terapias, é possível utilizar inclusive tratamentos baseados em manipulação epigenética, visando a reprogramação dos genes alterados. Em outras palavras, se a assinatura gênica é alterada em pacientes suicidas, alterar novamente a expressão destes genes para que voltem a ter um perfil similar aos de células saudáveis parece ser uma alternativa admissível e promissora.

Referências

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2.Bezerra SF, Galvao-de-Almeida A, Studart P, Martins DF, Jr., Caribe AC, Schwingel PA, et al. Suicide attempts in bipolar I patients: impact of comorbid personality disorders. Rev Bras Psiquiatr. 2017:0.

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6.Zhang X, Ren Y, You J, Huang C, Jiang Y, Lin MP, et al. Distinguishing Pathways from Negative Emotions to Suicide Ideation and to Suicide Attempt: the Differential Mediating Effects of Nonsuicidal Self-Injury. J Abnorm Child Psychol. 2017.

7.Laglaoui Bakhiyi C, Jaussent I, Beziat S, Cohen R, Genty C, Kahn JP, et al. Positive and negative life events and reasons for living modulate suicidal ideation in a sample of patients with history of suicide attempts. J Psychiatr Res. 2017;88:64-71.

8.Serafini G, Muzio C, Piccinini G, Flouri E, Ferrigno G, Pompili M, et al. Life adversities and suicidal behavior in young individuals: a systematic review. Eur Child Adolesc Psychiatry. 2015;24(12):1423-46.

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