A PROTEÇÃO DO LEITE MATERNO

A PROTEÇÃO DO LEITE MATERNO

Patrícia de Carvalho Ribeiro, Daniel Mendes Filho, Rodrigo R Resende, Ricardo Cambraia Parreira

Edição Vol. 4, N. 17, 30 de Outubro de 2017

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2017.10.30.005

Já viram um bebezinho gordinho, cheio de dobrinhas, risonho e super atento a tudo o que ocorre ao seu lado? Sabe a que isto se deve? Todos nós já conhecemos pelo menos um pouco sobre a importância nutricional do leite materno para os bebês. Mas além de nutritivo, quais os outros benefícios que ele apresenta?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida e, depois, ele deve ser associado a uma dieta variada até os 2 anos de idade ou mais. O leite materno atua não somente como um importante fator para promoção da saúde do bebê que o recebe, como também gera vínculo entre mãe e filho. Diversos trabalhos evidenciam melhora na imunidade das crianças que foram amamentadas, ou seja, elas se tornam mais resistentes a doenças quando expostas à microrganismos e também apresentam um risco menor de tornarem-se alérgicas. Isso acontece porque o leite materno possui células (monócitos, linfócitos e neutrófilos), elementos solúveis (como carboidratos, lipídeos e proteínas) e, bactérias, principalmente as da microbiota, que vivem em nosso organismo e não nos causam doenças, inclusive nos ajudam exercendo boas funções no nosso corpo. Dessa forma, o consumo do leite materno leva ao desenvolvimento do sistema imune do bebê, gerando o que chamamos de tolerância e imunidade. 

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Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Breastfeeding.jpg

Dentre os constituintes do leite humano estão também os oligossacarídeos. Eles são açúcares que distinguem o leite materno humano do leite produzido por outras espécies e, por isso, não estão presentes em formulações que substituem o aleitamento. Dentre as funções já descritas, os oligossacarídeos apresentam a capacidade de atuar como alimento para as bactérias da microbiota, favorecendo o crescimento e colonização destas espécies “do bem”, e ainda apresentam capacidade de agir como substâncias que bloqueiam a ligação de microrganismos causadores de doenças com os constituintes do nosso corpo.

Um artigo publicado em junho de 2017, estudando os oligossacarídeos, demonstrou que o leite materno apresentaria propriedades antimicrobianas, ou seja, combateria bactérias. Os autores deste trabalho avaliaram como o leite humano atuaria em contato com uma bactéria chamada Streptococcus agalactiae. Ela causa infecções em adultos e crianças e, durante a gravidez, é causa também de infecção das membranas fetais, podendo levar a um processo infeccioso intra-amniótico (ou seja, que afeta a bolsa amniótica, dentro da qual o bebê fica protegido durante a gravidez), parto prematuro, parto do bebê já sem vida (natimorto), e infecção generalizada no recém-nascido. Alguns trabalhos sugerem que o aleitamento seria uma possível forma de transmissão do Streptococcus agalactiae (chamada transmissão vertical, que ocorre da mãe para a criança) (Figura 2). Dessa forma, os autores estudaram se os oligossacarídeos causariam alguma interferência na capacidade destas bactérias gerarem doença.

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Figura 2: Colônias de Streptococcus agalactiae. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Col%C3%B4nia_de_streptococcus_agalactiae.jpg

Os resultados obtidos demonstraram que os oligossacarídeos presentes em duas, das cinco amostras de leite materno obtidas, apresentaram efeito antimicrobiano e causaram inibição do crescimento de Streptococcus agalactiae. Ou seja, estes açúcares disponíveis na amamentação podem conferir proteção contra a infecção pela bactéria. Portanto, embora exista a sugestão da transmissão vertical, caso a mãe seja portadora da Streptococcus agalactiae, este trabalho também sugere a possibilidade dos componentes presentes no leite materno contribuírem para que a bactéria torne-se inviável e não provoque processo infeccioso nos recém-nascidos.

Consequentemente, esse estudo reitera os benefícios do leite materno para as crianças: aumento da imunidade e proteção contra doenças, além do já tão bem conhecido alto valor nutricional. É por esse e outros motivos, tão importantes quanto, que a amamentação deve ser sempre incentivada. É imprescindível que os bebês consumam desse doce e saudável alimento.

Por isso mesmo que Ciência é INVESTIMENTO! Apoiem esse fato que o Brasil tornar-se-á uma Nação rica e forte!

Referências

Ackerman DL, Doster RS, Weitkamp JH, Aronoff DM, Gaddy JA, Townsend SD. Human Milk Oligosaccharides Exhibit Antimicrobial and Antibiofilm Properties against Group B Streptococcus. ACS Infect Dis. 2017 Aug 11;3(8):595-605.

Bode L. Human milk oligosaccharides: every baby needs a sugar mama. Glycobiology. 2012 Sep;22(9):1147-62.

Newburg DS. Glycobiology of human milk. Biochemistry (Mosc). 2013 Jul;78(7):771-85.

Araújo MFM, Araújo TM, Beserra EP, Chaves ES. O papel imunológico e social do leite materno na prevenção de doenças infecciosas e alérgicas na infância. Rev. RENE. 2006 set./dez; 7(3):91-97.

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