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A NEUROBIOLOGIA POR TRÁS DA CÓCEGA

A NEUROBIOLOGIA POR TRÁS DA CÓCEGA

Lais Takata Walter e Alexandre Hiroaki Kihara

Laboratório de Neurogenética / Núcleo de Cognição e Sistemas Complexos / Centro de Matemática, Computação e Cognição / Universidade Federal do ABC

Edição Vol. 4, N. 7, 16 de Março de 2017

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2017.03.16.001

O substantivo feminino cócega vem do latim titillare, que significa “excitar agradavelmente” (1) e segundo o dicionário da língua portuguesa, cócega é a “sensação particular que provoca deleite, riso, irritação ou movimentos convulsivos, causada por toques ou fricções leves e repetidas em alguns pontos da pele ou das mucosas” (2). Para os neurocientistas, no entanto, cócega pode ser relatada em duas situações distintas. A primeira, denominada knismesis, é caracterizada por uma sensação induzida por um toque muito leve sobre a pele.

Esta sensação pode, por exemplo, ser provocada quase em qualquer lugar do corpo, movendo uma pena ou cotonete, pelas patas dos insetos ou mesmo por descargas elétricas de baixa voltagem sob a pele. Estranhamente, a sensação agradável pode ser interpretada como um estímulo aversivo e irritante, o que consequentemente gera uma resposta reflexa de esfregar a área afetada (o que parece aliviar a sensação). Além disso, este tipo de cócegas geralmente não faz as pessoas rirem. Já o segundo tipo é o que provoca o riso e, por isso, é o que a maioria das pessoas entende por cócegas. Este fenômeno recebe o nome de gargalesis e pode ocorrer devido a uma moderada e repetida pressão sobre determinadas partes do corpo, provocando risadas, movimentos involuntários e outros comportamentos característicos que serão descritos mais adiante (3,4). 

Do ponto de vista evolutivo, knismesis é interpretado por muitos pesquisadores como um vestígio de comportamento adaptativo primitivo correspondente à irritação e que pode ser encontrado até em organismos unicelulares. Ou seja, seria uma proteção contra o contato com objetos estranhos (5). Extrapolando para escala de organismos multicelulares, mais especificamente vertebrados, se um inseto ou parasita rasteja no corpo de um animal, a sensação irritante levaria o animal a arranhar ou esfregar o ponto de estímulo, removendo  este contato indesejável (3). Em contrapartida, tentar encontrar uma possível vantagem adaptativa para gargaleis é um pouco mais complexo. Primeiramente, não há um consenso de quais organismos apresentam este comportamento. Alguns estudiosos sugerem que ratos, gatos e tubarões esboçam reações similares quando estimulados (6), enquanto que a maioria defende que gargaleis é limitado a espécies de primatas humanos e algumas de não humanos como gorilas e chimpanzés (3-6). Especula-se, ainda, que gargaleis tenha sido originada de um comportamento social no qual imitava-se um parasita rastejante para iniciar uma interação lúdica com o riso, ou seja, seria a reprodução da sensação knismesis. Isso poderia ter se tornado a introdução para cócegas, risos e brincadeiras (5). 

Atualmente, associa-se cócegas ao estabelecimento de relações sociais como, por exemplo, na ligação entre pais e filhos, batalhas de cócegas entre jovens (dominação e intimidação), comportamento sexual, treino de habilidades defensivas e de ataque. Estes eventos têm em comum a ocorrência de um comportamento social e de interação cognitiva, que são decorrentes de uma relação de intimidade pessoal. Curiosamente, estas relações parecem ser importantes para o desenvolvimento dos organismos. Estudos com modelos animais que foram privados destes tipos de interações apresentam déficit sociais e cognitivos (5,7). Isso sugere que uma base genética está relacionada à cócega. É possível que a tendência genética e o impulso instintivo de fazer cócegas sejam uma das poucas ferramentas emocionais e inatas da natureza que a evolução forneceu para que a modulação ambiental contribua para a construção de cérebros inteiramente sociais em espécies de mamíferos. É através desses poucos impulsos emocionais que os animais podem obter mais informações, o que por sua vez, pode ajudar a refinar os circuitos neuronais para a conduta social (7). Naturalmente, ainda é possível que um fenômeno biológico possa não ser adaptativo, mas meramente um efeito colateral de um mecanismo talhado para outro papel. Se isso for verdade, o mistério deste aspecto herdado de primatas ancestrais pode permanecer por muito tempo na história evolutiva, até que se torne desfavorável frente a alguma situação futura (3). 

O estudo da cócega desperta curiosos no mundo inteiro desde a Grécia antiga. Sócrates, por exemplo, sugeriu que a cócega provocava um certo grau de prazer, mas que este era inferior ao estado desagradável da dor provocada simultaneamente. Em contrapartida, Charles Darwin (1872) acreditava que as gargalhadas e sorrisos induzidos pelas cócegas eram similares às induzidas pelo humor, o que o fazia crer que refletiam o mesmo estado interno (8). Mesmo depois de séculos de pesquisas, existem três aspectos principais relacionados à cócega que ainda não foram compreendidos: (i) se o estímulo físico da cócega provoca uma resposta que está associada ao humor ou à dor; (ii) qual seria a via neuronal envolvida na percepção da cócega e (iii) porque não é possível fazermos cócegas em nós mesmos. 

A semelhança aparente dos sorrisos e risos induzidos pela cócega e pelo humor levaram muitos autores a suporem que os dois refletem o mesmo estado de espírito. Contudo, estudos mostraram que mesmo num estado de espírito “triste”, os indivíduos eram capazes de sorrirem e rirem quando recebiam cócegas (8). Interessantemente, embora o aceptor não necessite estar feliz ou alegre para sentir cócega, o contexto da situação influencia na percepção da sensação (9). Ou seja, os sinais sociais e ambientais devem indicar um ambiente positivo e agradável, caso contrário, se o aceptor passar a ignorar ou interpretar os sinais externos como medonhos e negativos, a cócega pode passar a ser sentida como dor (5). Como parte do senário contextual também se inclui a relação pessoal entre quem realiza e quem recebe a cócega e isto parece influenciar o grau da resposta risonha gerada (7,9). Em uma situação cotidiana, pode-se observar que a troca de cócegas ocorre mais comumente entre pessoas que apresentam certo grau de intimidade (não se vê por aí pessoas fazendo cócegas umas nas outras na rua). Porém, esta hipótese é controversa, visto que já foi demonstrado que a resposta gerada pelo estímulo da cócega é a mesma independentemente de quem a realiza (máquina ou pesquisador), e também é independente da consciência lúdica do ato, já que um bebê também é capaz de expressar tais respostas (8). 

A conscientização de que bebês também sentem cócega levaram muitos estudiosos a sugerirem que a risada gerada a partir da cócega era um dos movimentos estereotipados decorrentes do ato e, desta forma, seria uma resposta de um movimento reflexo involuntário (8). De fato, a expressão facial da cócega e o estado subjetivo do indivíduo ainda é uma questão sem resposta e pode ser um ato reflexo que compartilha semelhanças com a dor e ou com o humor. Harris e Alvarado (2005), no entanto, tentaram explorar mais esta questão submetendo participantes em três situações distintas: cócega, humor e dor (8). Os indivíduos deveriam relatar o estado emocional que se encontravam depois de cada estímulo. As classificações “feliz” e “divertida” diante do estímulo da cócega foram maiores do que diante do estímulo de dor, porém menores do que o estímulo do humor. E as classificações “angustiante” e “desagradável” eram menores do que o estímulo da dor e maiores do que na situação de humor. Além disso, a cócega foi o estímulo que causou mais estado “embaraçoso” e o menor de “raiva” (Figura 1a). Somados a isso, o estudo avaliou o conjunto de ações faciais (como contrair os lábios, levantar a sobrancelha, fechar os olhos, etc.) diante destes três estímulos. Os resultados mostraram que a cócega se assemelha mais com a resposta facial à dor do que com o estímulo humorístico (Figura 1b). Com base nestes resultados sugere-se que a resposta à cócega pode, de fato, ser parte de uma resposta automática reflexa pelo compartilhamento de respostas corporais e faciais estereotipadas. Contudo, a teoria da resposta automática não consegue explicar como alguns indivíduos conseguem “controlar” a cócega (5). Além disso, supôs-se que a cócega provocava um nível intermediário de afetos positivos e negativos, como relatado por muitos entrevistados (8). A sobreposição entre estes estados é individual e não representa necessariamente 50% da sensação. Algumas pessoas não chegam a sentir dor com a cócega, enquanto outras pessoas associam a cócega com tortura.  

neurologia-cocegas 

Figura 1: Relação entre cócega, humor e dor. A) Sensações cognitivas geradas a partir de diferentes estímulos (dor, cócega e humor), apresentadas em ordem decrescente de acordo com as médias obtidas com relatos após o recebimento do estímulo. B) semelhanças dos movimentos de expressão facial entre cócega e humor; e cócega e dor (Harris, C. e N. Alvarado 2005 (8)).

Com a constatação do efeito positivo e negativo e ausência de indícios de um receptor ou via específica para cócega, duas vias neurais são preconizadas para estarem envolvidas: as vias sensoriais que carregam a informação do tato e da dor. Porém, a divergência das repostas geradas com knismesis e gargalesis sugerem que elas se movem através da combinação de diferentes fibras (Figura 2). Neste contexto, a cócega do tipo knismesis seria a somatória das sensações que ativam as fibras que carregam a informação do toque delicado e da coceira, em contra partida, a gargalesis seria sobreposição das fibras do toque profundo e da dor (5,10).

Outra diferença fundamental entre os dois tipos de cócega é que knismesis pode frequentemente ser realizada pela mesma pessoa que a recebe, enquanto que a gargalesis é dificilmente autoproduzida (4). Estudos indicam que quando tentamos fazer cócegas, nossos comandos motores de saída estão associados com as previsões de ação motora, que prospectivamente cancelam as sensações de cócegas (10,11). Duas estruturas são fortes candidatas a desempenhar esta função, o cerebelo e o córtex cingulado anterior, os quais mostraram uma atividade superior quando os indivíduos tentavam fazer cócegas em si mesmos quando comparados em situações em que recebem cócegas externamente (11).  Detectando as consequências de nossas próprias ações, podemos distinguir prontamente entre sensações que são produzidas por nossos próprios movimentos das sensações que são causadas por uma mudança no ambiente. Essa habilidade é importante porque nos permite identificar estímulos que correspondem a eventos externos com potenciais biologicamente significativos de estímulos que surgem simplesmente como consequência de nossas próprias ações motoras. Inclusive, pacientes que apresentam sintomas de alucinações auditivas e experiência de passividade (ambos sintomas comumente encontrados em pacientes esquizofrênicos), por exemplo, não mostram uma diminuição da atividade destas estruturas quando realizam cócega em si mesmos quando comparadas às situações em que recebem cócega externamente (11). O que corrobora ainda mais a importância social e cognitiva da cócega. 

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Figura 2: Esquema especulativo e simplificado da experiência de cócega. Os tratos ascendentes possuem diferentes qualidades de sensação cutânea: toque fino (trato da coluna dorsal), dor e coceira (trato espinotalâmico lateral) e, toque profundo (trato espinotalâmico anterior). A estimulação dos tratos do toque fino e da dor/coceira induz a sensação de knysemesis, enquanto que a estimulação simultânea dos tratos de toque profundo e dor/coceira induz a gargalese. Para que as sensações sejam percebidas como cócegas ou não dependeria do contato ser autogerado ou ter uma fonte externa. Este fator é representado nesta figura como uma comparação de uma cópia eferente preditiva e as informações sensoriais reais. Logo, tem-se uma representação dicotômica da sensação de algo autoproduzido ou não. Se este mecanismo hipotético é correto, então qualquer animal que pode sentir cócegas poderia conceber um senso de si mesmo (figura adaptada de Leavens e Bard 2016 (10)).

A cócega é um dos comportamentos sociais e cognitivos mais complexos da evolução e pouco compreendido. Isso ocorre porque os estudos com humanos e modelos animais apresentam uma série de limitações que podem contribuir para o número limitado de dados disponíveis. Nos animais, o riso é uma reação reflexa restrita aos contextos comportamentais do jogo e da cócega. Em contra partida, nos seres humanos o riso é um comportamento mais complexo, expresso não apenas no contexto do jogo, mas também relacionados a vários estados emocionais (associada ao estado de felicidade, diante de uma situação engraçada, estressante, medonha, ansiosa, sarcástica) (12,13). Adicionalmente, os estudos com humanos trazem uma série de limitações éticas, além de não conseguirem subtrair e mensurar a subjetividade individual da experiência sensitiva e cognitiva de quem está recebendo a cócega. Embora susceptíveis a críticas, os estudos realizados até agora ajudaram a compreender um pouco sobre as vias sensitivas associadas a cócega e forneceram pistas sobre os mecanismos relacionados ao riso provocado pela cócega e a inabilidade de produzir cócegas em si mesmos.

Contudo, uma boa risada se faz com pessoas agradáveis em nossa volta!

 

Referências

  1. http://www.etymonline.com/index.php?allowed_in_frame=0&search=tickle
  2. http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=c%C3%B3cega
  3. Harris, C. (1999). “The Mystery of Ticklish Laughter Pleasure or pain? Social response or reflex? Tickling and the laughter it induces are an enigmatic aspect of our primate heritage.”
  4. Harris, C. (2012). “Two Forms of Tickle: Knismesis and Gargalesis.”
  5. Selden, S. T. (2004). “Tickle.” J Am Acad Dermatol 50(1): 93-97.
  6. Leavens, D. A. and K. A. Bard (2016). “Tickling.” Curr Biol 26(3): R91-93.
  7. Panksepp, J. (2007). “Neuroevolutionary sources of laughter and social joy: modeling primal human laughter in laboratory rats.” Behav Brain Res 182(2): 231-244.
  8. Harris, C. and N. Alvarado (2005). “Facial expressions, smile types, and self-report during humour, tickle, and pain.” Cognition & Emotion 19(5): 655-669.
  9. Smoski, M. J. and J. A. Bachorowski (2003). “Antiphonal laughter in developing friendships.” Ann N Y Acad Sci 1000: 300-303.
  10. Leavens, D. A. and K. A. Bard (2016). “Tickling.” Curr Biol 26(3): R91-93.
  11. Blakemore, S. J., D. Wolpert, et al. (2000). “Why can’t you tickle yourself?” Neuroreport 11(11): R11-16.
  12. Giles, H. and G. S. Oxford (1970). “Towards a multidimensional theory of laughter causation and its social implications.” Bulletin of the British Psychological Society.
  13. Poyatos, F. (1993). “The many voices of laughter: A new audible-visual paralinguistic approach.” Semiotica 93(1-2): 61-82.
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