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A GESTÃO DO IRRELEVANTE: Entre O Pífio E O Banal

A GESTÃO DO IRRELEVANTE: Entre O Pífio E O Banal

Márcio Bambirra Santos

Administrador e Economista. Professor no CEFET-MG

Edição Vol. 2, N. 17, 8 de Setembro de 2015

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2015.09.08.002

A macroeconomia é pragmática e paradoxal. Para alguns, mais instigante que a sua irmã siamesa microeconomia (relativa às empresas e suas transações específicas). Por ser um amontoado de interpretações, escolas ou teorias repletas de números e fórmulas, simultaneamente de um lado rege parte do cotidiano das pessoas, mas por outro, faz com que dela muitos se afastem por não entenderem seus procedimentos. A linha comum dos pesquisadores é o consenso de que não importa qual teoria ou caminho optar, os resultados só emergem na persistência do longo prazo. Todos sabem disso: especialistas e governantes. Quem ousa o oportunismo barato de antecipar o futuro sem fortes alicerces, desdenha uma convulsão social.

A parte referente às contas nacionais (orçamento, dívida pública, balanço de pagamentos) então, até para os “experts”, se transforma em um desafio no entendimento das novas coisas que vão surgindo como a mágica contábil, pedalada fiscal ou a gestão do irrelevante. Esta última é a mais nova contribuição da equipe governamental ao arrocho econômico de todo um país no ano de 2015, com reflexos previsíveis (longo prazo) até 2018, ao menos. Para um analista mediano a equação não fecha. Em outras palavras, como pedir austeridade à população e ao empresariado, se o governo não consegue administrar menos de 5% dos cortes em seu orçamento (2 trilhões de reais)? E mais, faz uma revisão para 0,5% (6 bilhões de reais de redução da meta fiscal), e ainda considera esse “pixuleco” um esforço hercúleo? Por consequência a dívida pública atinge patamares gregos nos últimos quatro anos com aumento de mais de R$ 1,3 trilhão de reais, a inflação (acima de 9%) paralisa o PIB anual recessivo (-2%), os juros (14,15% a.a, taxa SELIC) estouram os cheques especiais (215% a.a) e cartões de crédito (300 % a.a) da população, o empresário não investe, a renda real do trabalhador cai (2,3%) e o desemprego aumenta (8,1%) na última avaliação trimestral. Até aí era bola de neve, mas a partir da queda da avaliação de risco do Brasil pelas agências internacionais, virou uma avalanche. O motivo, Abrahan Lincoln já sabia em meados do sec. XIX: “você consegue enganar uma pessoa durante muito tempo ou várias pessoas durante pouco tempo, mas não consegue enganar todos durante muito tempo”. Nenhum investidor quer colocar seu capital em uma casa que desmorona.

No microcosmo do orçamento individual, deve-se colocar a mão onde se alcança, ou seja, só se gasta aquilo que se tem. Às vezes, por uma contingência de saúde ou emergência, a regra é quebrada. E se não for dessa forma, o endividamento sufoca e penaliza a pessoa, e aí no dito popular “é hora de cortar na carne” ou do sacrifício para equilibrar novamente a vida.

Os mais sábios sempre falam que uma ação vale mais que mil palavras, e a condição básica de qualquer autoridade é que ela possa dar os melhores exemplos para quem a colocou naquela representação. É o que se espera na convivência entre as pessoas no que o Direito denomina de múnus público.

Na sociedade moderna espera-se que o exemplo de austeridade venha de cima do governo e das autoridades públicas. Mas, o que vemos é exatamente o contrário: 38 ministérios com uma promessa para diminuir para 29, mas com um corte de menos de 5% nos cargos de confiança/comissionados (1 mil cargos, de um total de + de 22,5 mil). Por outro lado, trabalhar na margem de 5% novamente, é sinal que se tem um nível de confiança de 95% de que nada vai mudar, ou se mudar o resultado será pífio. É só considerar a comparação com os grandes valores do orçamento e, sobretudo, a intenção mínima proposta que exala desconfiança e insatisfação, pois junte-se a isso o aumento salarial de 41% para o Judiciário, a grande quantidade de obras inacabadas (10 bilhões de reais), os programas de governo com gestão social duvidosa (bolsa família, PRONATEC, FIES, Minha Casa Minha Vida, etc.) e, principalmente, o choque anafilático na saúde, educação e segurança. Essa última, reflexo da corrupção política deslavada, contribuindo para a elevada inépcia policial e impunidade judicial generalizada à bandidagem e ao crime organizado, com raras exceções.

Os maiores reflexos, infelizmente, impactam a juventude. No momento atual, gera o desemprego e o aumento da marginalidade, e para o futuro alimenta a falta de perspectivas e motivação para romper os desafios pelo mérito educacional e ser mais um “doutor” desempregado. A Pesquisa Mensal de Emprego, feita pelo IBGE nas seis principais regiões metropolitanas do país aponta os horrores que se assemelham aos já conhecidos países em grave crise que optaram pelo desmanche de suas competências: na faixa da população mais jovem, com idade entre 16 e 24 anos, o aumento na desocupação (taxa de desemprego) tem índices que saltaram de 11,2% em dezembro de 2014 para 18% em junho deste ano, mas em metrópoles como Salvador e São Paulo, as taxas chegam a 26,4% e 21%, respectivamente. O PCC e o CV agradecem.

Enquanto alguns espertalhões inflamam suas retóricas contra o fantasma da elite dominante, ou na utopia de uma sociedade sem classes, administrada por meia centena de nababos e (pseudo) iluminados, a justiça fica fragilizada na lentidão do acúmulo de processos e facciosa no julgamento de crimes hediondos. É a descrença no julgamento social que gera mais transgressões que banalizam a maldade na velocidade de um “post” via Internet. A normalidade é um “rolezinho” de sensações imediatas, onde os jovens não buscam e não sabem mais o que são valores pessoais e a ética é uma palavra oca e ultrapassada. Dane-se o futuro, o planejamento, o longo prazo. É sentar a pua, aqui e agora!

Nesse cenário grotesco, a defesa aos direitos humanos, ao meio ambiente, a preservação do patrimônio artístico e cultural, ou simplesmente o respeito às pessoas, são realidades tão distantes como extraterrestres em um filme de ficção cientifica. A maldade é banalizada e ampliada na proporção inversa da velocidade da justiça, e a legislação apodrece a meio caminho dos poderosos, completando o círculo vicioso de um tempo perdido na decepção e amargura coletiva.

Mas, se até na árida matemática pode-se mudar repentinamente a direção de uma curva ou função, também há algum fio de esperança social que pode virar uma forte corrente de cidadania. Como em um ponto de inflexão, a possibilidade significativa de mudança deve trazer em seu bojo a confiança na continuidade de bons resultados, quase sempre a partir de uma conquista obstinada (ou pouco provável). De Davi contra Golias, passando por Alexandre “O Grande”, Da Vinci, Ghandi, Irmã Dulce, até chegar em Mandela ou Zilda Arns, essas personagens históricas exemplificam, como tantas outras, a forma robusta de crença em seus propósitos e trabalho. Não há mágicas ou santo milagreiro! Mas, uma liderança respeitada e digna com uma equipe competente que busque a composição entre o bom funcionamento das instituições e uma Economia que resgate a competitividade da produtividade em todos os setores para a remontagem dos investimentos, pode não ser o remédio de todas as curas, mas consegue mudar esse rumo de morte anunciada.

As muitas interpretações de correntes teóricas sugerem uma em particular, que carrega em seu nome a condição de segurança em mudanças no presente para melhorias futuras: expectativas racionais. Embora não seja um instrumental analítico revolucionário, essa opção construída no começo da década de 60 do século passado pelo economista John Muth, que definiu um “mainstream” de pesquisadores sobre essa linha, é municiada por um fator vital, muito em voga nesse início de milênio: sistemas integrados de informações. As orientações e decisões são baseadas no entendimento de modelos estocásticos dos setores principais que movem a produção de bens e serviços, que numa visão do todo, apontam a saída do mar revolto das crises econômicas, como um radar de precisão para o menor risco.

Em um artigo publicado há 35 anos, o ex-diretor da Escola de Pós-Graduação em Economia da FGV, Mário Henrique Simonsen, na Revista Brasileira de Economia (34-4, out-dez 1980), já preconizava:

Há dois preconceitos em relação a essa teoria. Primeiro, que ela é hermética, exigindo a substituição da macroeconomia tradicional pela macroeconomia estocástica. Segundo, que ela conduz ao monetarismo extremado: nem a curto prazo as políticas monetária e fiscal podem afetar o emprego e o produto real, salvo quando o Governo consegue ser imprevisível. Keynes perdeu seu tempo ao escrever a Teoria Geral do Emprego, e o combate à inflação é muito mais fácil do que pensa a maioria dos políticos e economistas: basta pisar forte no freio monetário e as taxas de inflação cedem rapidamente, com minúsculos efeitos colaterais sobre a produção e o emprego.” … “Comecemos por algumas observações absolutamente pacíficas, e que não se limitam ao campo da economia: a) a vida nos obriga muito frequentemente a agir com base em previsões para o futuro; b) toda previsão é sujeita a erro, representando, portanto, a estimação de uma variável aleatória; c) ninguém gosta de fazer previsões erradas; d) as previsões baseadas em modelos científicos costumam ser melhores do que os simples palpites; e) os modelos, para gerar previsões, precisam ser municiados por informações; a qualidade de suas previsões depende, pois, da extensão e da precisão do conjunto de informações.” (pag.456/457)

Recentemente, agosto de 2015, o físico César Hidalgo, do Media Lab vinculado ao Massachussets Institute of Technology (MIT), reforça que a densidade e a intensidade no domínio dos sistemas de informações de produtos e serviços, são indispensáveis. As relações de produção tão em voga em décadas e trabalhos científicos passados, agora é entendida como relações na complexidade das informações, isto é:

…um cesto de vime pode ser feito por uma única pessoa… A cadeia de conhecimento envolvida na criação de um carro elétrico é imensamente maior… Os países onde a desigualdade é mais baixa são justamente aqueles em que o grau de complexidade econômica é mais alto… A confiança diminui o custo de transação. Com ela, é mais fácil interagir, os vínculos são mais sólidos e mais duradouros. Só assim é possível participar de redes amplas, acumular conhecimento e, eventualmente, atingir graus mais altos de complexidade.” (Revista Veja, n.33, 19/08/15, pags. 20 e 21).

Como um grande campeonato de futebol, a economia nacional se embola. Quem entende um mínimo, sabe que a probabilidade dos times que não fazem bons investimentos em jogadores é elevada para cair na tabela e seguir para a segunda divisão. É onde, nesses últimos anos, colocaram o país. Agora, vendem a ideia de que a comissão técnica é a melhor e que suas táticas de “Agenda Nacional” são vencedoras, mas as derrotas só vão se acumulando, como a espera das chuvas no volume morto da incompetência técnica não pensada, ou de uma ajuda divina no perdão da dívida. Já existe o padecer na busca de uma recuperação e do tempo perdido, onde a inconsequência é o atestado que os justos continuam pagando (impostos, é claro) pelos erros crassos de alguns. A tendência não é mais se recuperar para a primeira divisão, nem se desesperar com os sacrifícios da segundona, mas saber o grau da crise social que acontecerá ao sermos rebaixados para a terceira divisão.

Fonte: mb@mbambirra.com.br

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