A EPIDEMIA CELÍACA

A EPIDEMIA CELÍACA

Daniel Mendes Filho, Ricardo Cambraia Parreira

Edição Vol. 4, N. 14, 11 de Setembro de 2017

DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2017.09.09.002

Afinal, o que é doença celíaca? É só uma dor de barriga que não quer acabar? Ou uma indigestão de uma comida muito calórica? O fato é que é muito mais do que ambas as situações e, a cada ano, quase 10% a mais de celíacos é somado ao nosso clube!

Ao longo dos anos vem aumentando a incidência de alergias e intolerâncias alimentares na população mundial, com um número crescente de pessoas que não podem ingerir leite, ovos, trigo, amendoim, frutos do mar, etc (Figura 1). As alergias alimentares ocorrem quando o organismo vê o alimento ou componentes dele como uma ameaça e, por isso, desenvolve uma resposta imune contra ele. Já as intolerâncias alimentares ocorrem quando o corpo não consegue digerir o alimento ou algum de seus componentes – o que é o caso da doença celíaca, cuja incidência se elevou significativamente, com um número atual de doentes 4 vezes maior do que 50 anos atrás!

doenca-celiaca-1 

Figura 1: Alimentos que não podem ser ingeridos por quem tem doença celíaca. Nada de carboidratos ou que contenham glúten!

A doença celíaca é uma doença inflamatória crônica que afeta o intestino alterando sua estrutura (Figura 2). Os sintomas manifestam-se após a ingestão de qualquer quantidade de alimentos contendo glúten e geralmente envolvem diarreia, dor abdominal, flatulência e mal estar. Por não existir tratamento curativo, as pessoas com doença celíaca devem ter uma dieta 100% livre de glúten – que é uma proteína presente no pão, bolo, pizza, salgadinhos e na cerveja, por exemplo. Fora o desconforto da dieta, os celíacos (portadores dessa doença) acabam sofrendo certo isolamento social por não poderem comer e beber como seus amigos e familiares.

 doenca-celiaca-2

Figura 2: Estrutura do intestino normal e do intestino com doença celíaca (http://brasilescola.uol.com.br/doencas/doenca-celiaca.htm)

 

A maioria dos estudos afirma que a doença celíaca acomete cerca de 1% da população mundial, porém estudando uma população jovem em Denver, nos EUA, o dr. Edwin Liu e colaboradores da Universidade do Colorado, detectaram uma taxa de incidência que variou de 1,5% a 3%! Parece pouco, mas se esses valores refletirem a verdadeira incidência global há entre 105 a 210 milhões de pessoas com doença celíaca – muitas sem diagnóstico. Se considerarmos que celíacos têm elevadas taxas de mortalidade, maiores chances de desenvolver doenças autoimunes e alguns tipos de câncer, há um quadro epidemiológico mundial que requer mais atenção.

Fica a pergunta: o que estaria causando essa “epidemia” de doença celíaca? Antes de tudo é necessário entender o que desencadeia a doença. Todos os portadores de doença celíaca possuem mutação nos genes HLA-DQ (que é uma proteína de receptor de superfície celular encontrada em células apresentadoras de antígeno. É um heterodímero ?? do tipo MHC classe II. As cadeias ? e ? são codificadas por dois loci, HLA-DQA1 e HLA-DQB1), entretanto nem todos os que possuem essa mutação são celíacos. Portanto, há um componente genético ao qual se somam componentes ambientais – sobre os quais pairam controvérsias quanto à importância de cada um individualmente. Infecções intestinais, parto por cesariana, uso disseminado de antibióticos bem como a própria ingestão (excessiva e/ou precoce) de glúten estão entre os possíveis fatores ambientais. 

Infecções virais (por Reovirus, por exemplo) desencadeiam nos intestinos processos patológicos que geram respostas imunes contra o glúten ingerido. Por sua vez, o parto por cesariana priva o bebê do contato com os micro-organismos do canal do parto – e isso interfere na formação do sistema imune e da microbiota intestinal, que é o conjunto de bactérias benéficas presentes nos intestinos. De maneira semelhante o uso disseminado (e frequentemente desnecessário) de antibióticos de amplo espectro prejudica em quantidade e qualidade a microbiota intestinal, gerando distúrbios no funcionamento dos intestinos. Por fim, a ingestão excessiva de alimentos contendo glúten de fato aumentou dramaticamente nos últimos 50 anos – isso sugere correlação entre hábitos alimentares e a doença celíaca. 

Como nos últimos 50 anos a população mundial se expôs mais a esses fatores, provavelmente a combinação deles é que está por trás da “epidemia celíaca”. Dessa forma, a despeito de ainda pairarem dúvidas quanto à influência de cada um deles no desenvolvimento da doença celíaca, certamente evitar a exposição a eles ao menos nos preserva de suas consequências negativas. 

Referências

Rubio-Tapia AKyle RAKaplan EL, et al. Increased prevalence and mortality in undiagnosed celiac disease. Gastroenterology. 2009 Jul;137(1):88-93. doi: 10.1053/j.gastro.2009.03.059. Epub 2009 Apr 10

Lebwohl BLudvigsson JFGreen PH.Celiac disease and non-celiac gluten sensitivity. BMJ. 2015 Oct 5;351:h4347. doi: 10.1136/bmj.h4347.

Bouziat RHinterleitner RBrown JJ et al. Reovirus infection triggers inflammatory responses to dietary antigens and development of celiac disease. Science. 2017 Apr 7;356(6333):44-50. doi: 10.1126/science.aah5298.

Marginean COMeli? LEMare? RC, et al Clinical and biological correlations in celiac disease in children: the prospective single experience of a romanian tertiary center: A case-control study (Strobe-Compliant study). Medicine (Baltimore). 2017 May;96(20):e6936. doi: 10.1097/MD.0000000000006936.

Liu EDong FBarón AEet al. High Incidence of Celiac Disease in a Long-term Study of Adolescents With Susceptibility Genotypes. Gastroenterology. 2017 May;152(6):1329-1336.e1. doi: 10.1053/j.gastro.2017.02.002. Epub 2017 Feb 7.

Print Friendly

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>